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24 maio 2010
Ó Pátria Amada, Idolatrada, Salve Salve-nos!
Copa do mundo!
É sempre assim.
Verde, amarelo, azul e branco estampados nas ruas, camisas e rostos sorridentes de boa parte dos brasileiros.
O “espírito patriótico” toma conta do pensamento nacional.
As empresas adaptam sua publicidade em cima do ideal da copa do mundo.
Como diz o “pensador” global Galvão Bueno, a nação une-se em uma só torcida, em um só coração!
Praticamente toda a atenção do país e da mídia se voltam para 23 jogadores milionários e comissão técnica hospedados em riquíssimos hotéis de luxo disputando um campeonato mundial.
Enquanto isso, aqui no Brasil...
As cores fortes e vivas da bandeira nacional estão longe de representar aquilo que elas simbolizam.
O verde
Que representa a vida da fauna e flora nacionais, transformados em cinzas graças ao desmatamento desenfreado, frutos da exploração insaciável da ganância do homem pelo lucro.
O amarelo
Das riquezas naturais e culturais, extraídas da terra e do desenvolvimento milenar de cultura e pensamento indígenas, transformados em palidez de pobreza, desigualdade social gritante, alienação e corrupção.
O azul
De águas cristalinas e céus estrelados. Transformados em fumaça cinzenta da nojenta poluição gerada pelo consumismo humano que produz toneladas de lixo diariamente que destroem mar e rios, poluem o ar e alteram o clima, transformando de forma drástica a vida de boa parte da população.
O branco
Símbolo eterno de paz e pureza, foi manchada com o sangue de milhares de vítimas inocentes. Soterradas na lama e a mercê da violência graças a velha e caduca máquina política corrupta, falida e hipócrita.
Ordem e Progresso
Literalmente transformados em Desordem e Retrocesso.
Existe diferença em torcer pela Seleção Brasileira de Futebol e torcer pelo Brasil?
Nestes dias fui a um concerto de rock, onde uma das bandas tocou a música “Que País é esse?” da Legião Urbana.
Foi curioso a resposta da enorme platéia ao refrão dessa música:
- Que país é esse?
E a galera respondeu extasiada
- É a porra do Brasil!
Uma hora depois, no concerto do Skank, quando eles tocaram o refrão da música “Que Coisa Linda é Uma Partida de Futebol”, a mesma platéia, após a música, cantava apaixonada:
- Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!
Que piada paradoxal!
O economista, filósofo e socialista alemão, Karl Marx (1818-1883) afirmava que a religião é o ópio do povo.
Definitivamente ele não conhecia o país do futebol.
Mas as pessoas nas salas de jantar
São ocupadas em nascer e morrer.
da música Panis Et Circenses dOs Mutantes
Eu fiquei indignado
Ele ficou indignado
A massa indignada
Duro de tão indignado
A nossa indignação
É uma mosca sem asas
Não ultrapassa as janelas
De nossas casas
Indignação, indigna
Indigna, inação
da música (In)dignação do Skank
p.s.- Escrevi este texto inspirado na premiada animação "Pra Frente Brasil!!!", que vocês podem ver através do link abaixo:
http://www.laboratoriodedesenhos.com.br/corrente_page.htm
____________________________________
19 maio 2010
De quando eu era um Thement
3 Thements foi mais um desses projetos ambiciosos, que tinha por intuito revolucionar o mundo, que três desocupados (George 'eu', Antino Silva e Téo 'Teórgenes para os íntimos') resolveram empreender e que, naturalmente, não deu em merda nenhuma.
Isso em 2007!
p.s. - só lembrando que o CQC começou em 2008.
p.s. 2 - o que, claro, não quer dizer muita coisa.
Continuando...
E isso tudo foi fruto de ociosodade ao extremo, começou mais ou menos assim:
- E aí negrada, blz?
- Tudo tranquilo.
- Comigo também tá tudo tranquilo, e contigo Téo?
- Tudo tranquilo também.
- E aí, quê cês tão fazendo da vida?
(Silêncio)
2 minutos depois...
- Ei, sabia que eu tenho uma câmera?
- Sério Antino!? Caramba, bóra fazer alguma coisa!
- É, podiamos fazer umas reportagens de humor fazendo perguntas pra galera.
- Massa, massa! Eu sou o câmera!
- Beleza, eu sou o diretor e o George é que entrevista!
- Porra! Por que eu?
E assim começou. Pegamos a câmera do Antino (aquelas câmeras grandonas que tinha que botar a fita VHS na lateral), fomos para o centro da cidade e mandamos ver!
Fizemos apenas dois vídeos. Infelizmente a casa do Antino foi assaltada e fizeram o favor de levar a cêmera (o comércio de antiguidades no mercado negro é muito lucrativo para ladrões) o que encerrou nossa "promissora" carreira precocemente.
No primeiro vídeo, devido a explosão na mídia de garotas com nomes de frutas, comidas e similares, fomos as ruas perguntar "O que é uma mulher gostosa?", o que nos rendeu respostas antológicas dos eruditos trabalhadores e transeuntes do fértil centro de Fortaleza.
E para nossa surpresa esse vídeo "O que é uma mulher gostosa?" foi selecionado para concorrer o prêmio Ibest em 2007 na categoria "vídeos de humor", dentre milhares de videos, 20 foram selecionados, e na contagem de votos (os internautras votavam nos vídeos) ficamos em um honroso nono lugar.
p.s. 3 - só lembrando que esse nono lugar nos fez ficar a frente do Tiririca, Hermes e Renato e um stund-Up do Rafinha Bastos.
Quem ganhou esse concurso foi o imbatível Jeremias ("- Eiiiita besta fera!"), seguido de "As álvoris somos nóizi" em segundo e a empregada tentando falar youtúbio em terceiro.
Legal né!? Há, lembrando que ainda, graças ao nono lugar, fomos entrevistados por um jornal local (Diário do Nordeste) sobre iniciativas criativas quando se tem uma boa idéia, uma câmera e um PC. Infelizmente hoje fui procurar a reportagem na net e não encontrei. Mas eu tenho ela aqui impressa, logo vou escanear e adicionar aqui.
O titulo da matéria era: "Câmera na mão, idéia no PC"!
O segundo vídeo chama-se "Louco rasga dinheiro?" que lógico, não ficou tão bom assim...
Enfim minha gente, depois de tanto blah! blah! blah!, vamos ao que interessa!
Vídeo 1: O que é uma mulher gostosa?
Vídeo 2: Louco rasga dinheiro?
E aí, gostaram?
Abraço a todos!
Isso em 2007!
p.s. - só lembrando que o CQC começou em 2008.
p.s. 2 - o que, claro, não quer dizer muita coisa.
Continuando...
E isso tudo foi fruto de ociosodade ao extremo, começou mais ou menos assim:
- E aí negrada, blz?
- Tudo tranquilo.
- Comigo também tá tudo tranquilo, e contigo Téo?
- Tudo tranquilo também.
- E aí, quê cês tão fazendo da vida?
(Silêncio)
2 minutos depois...
- Ei, sabia que eu tenho uma câmera?
- Sério Antino!? Caramba, bóra fazer alguma coisa!
- É, podiamos fazer umas reportagens de humor fazendo perguntas pra galera.
- Massa, massa! Eu sou o câmera!
- Beleza, eu sou o diretor e o George é que entrevista!
- Porra! Por que eu?
E assim começou. Pegamos a câmera do Antino (aquelas câmeras grandonas que tinha que botar a fita VHS na lateral), fomos para o centro da cidade e mandamos ver!
Fizemos apenas dois vídeos. Infelizmente a casa do Antino foi assaltada e fizeram o favor de levar a cêmera (o comércio de antiguidades no mercado negro é muito lucrativo para ladrões) o que encerrou nossa "promissora" carreira precocemente.
No primeiro vídeo, devido a explosão na mídia de garotas com nomes de frutas, comidas e similares, fomos as ruas perguntar "O que é uma mulher gostosa?", o que nos rendeu respostas antológicas dos eruditos trabalhadores e transeuntes do fértil centro de Fortaleza.
E para nossa surpresa esse vídeo "O que é uma mulher gostosa?" foi selecionado para concorrer o prêmio Ibest em 2007 na categoria "vídeos de humor", dentre milhares de videos, 20 foram selecionados, e na contagem de votos (os internautras votavam nos vídeos) ficamos em um honroso nono lugar.
p.s. 3 - só lembrando que esse nono lugar nos fez ficar a frente do Tiririca, Hermes e Renato e um stund-Up do Rafinha Bastos.
Quem ganhou esse concurso foi o imbatível Jeremias ("- Eiiiita besta fera!"), seguido de "As álvoris somos nóizi" em segundo e a empregada tentando falar youtúbio em terceiro.
Legal né!? Há, lembrando que ainda, graças ao nono lugar, fomos entrevistados por um jornal local (Diário do Nordeste) sobre iniciativas criativas quando se tem uma boa idéia, uma câmera e um PC. Infelizmente hoje fui procurar a reportagem na net e não encontrei. Mas eu tenho ela aqui impressa, logo vou escanear e adicionar aqui.
O titulo da matéria era: "Câmera na mão, idéia no PC"!
O segundo vídeo chama-se "Louco rasga dinheiro?" que lógico, não ficou tão bom assim...
Enfim minha gente, depois de tanto blah! blah! blah!, vamos ao que interessa!
Vídeo 1: O que é uma mulher gostosa?
Vídeo 2: Louco rasga dinheiro?
E aí, gostaram?
Abraço a todos!
20 abril 2010
Rupturas e Continuidades

O homem observa os ponteiros. Acabou o expediente. Está no pequeno cubículo, em meio a centenas de outros cubículos, em um grande departamento de telemarketing. Levanta, moribundo e desgastado. Caminha através do corredor, misturado a centenas de funcionários. Adentra numa das oito portas de elevador do grande centro comercial. Na rua, espera o ônibus. A condução chega. Lotada. O automóvel então segue o fluxo. O trânsito pára. Seus olhos, apáticos, fitam o imenso engarrafamento.
Chega em casa. Um prédio colossal, com centenas de micro-apartamentos. Adentra no elevador. Décimo oitavo andar. Percorre o imenso corredor. Há dezenas de portas. Pára. Vira-se. E fica de frente à uma porta. Sua porta. Mil oitocentos e vinte. Passam-se alguns segundos. Respira fundo. Segura a maçaneta e a gira. A porta abre. Ele entra.
Parado no meio da sala, contempla o pequeno apartamento. Tudo beira o minimalismo. Poucos móveis. Nenhuma foto. Há, no entanto, livros e discos espalhados. Liga seu velho som gradiente. Bota o álbum "Por Pouco" do Mundo Livre pra tocar. Senta-se no sofá. Afrouxa a gravata. Deita-se. E finalmente adormece.
Sonha. Está nu, na rua, caminhando. Olha para todos em volta. Assusta-se. Reconhece seu rosto na face de cada pessoa que vê. Não entende o que se passa. Leva as mãos à cabeça. Ameaça um grito. E, de repente, acorda.
Acorda, em pé, parado em um imenso corredor. Dezenas de portas. Está em frente à porta de seu apartamento, mil oitocentos e vinte, com as mãos à cabeça, como se, por um segundo, estivesse prestes a gritar. Lentamente baixa as mãos. Trêmulo. Seu rosto banhado em suor. Olhos vidrados. Um assombro percorrendo seu corpo. Passam-se alguns segundos. Respira fundo. Segura a maçaneta e a gira. A porta abre. Ele entra.
Parado no meio da sala, contempla o pequeno apartamento. É madrugada. Nota a velha gradiente ligada, tocando Mundo Livre. Lentamente leva as mãos à face. Sente-se cansado. Baixa as mãos pelo pescoço e alcança a gravata. Já estava frouxa. Olha o sofá. Passam-se alguns segundos. Atravessa a sala e entra no banheiro.
Olha para o espelho por um longo tempo. Olhos vermelhos. Ameaça um sorriso. Aproxima-se da pia. E sem tirar os olhos do espelho, abre a torneira. Ainda na mesma posição, ele faz concha com as mãos sob a corrente de água. Inclina a cabeça para baixo, sem pressa, e molha o rosto. Então começa a esfregar freneticamente a face, como se quisesse limpá-la, ou apagá-la. Volta a olhar o espelho. Contempla-se. Fecha o punho e esmurra o espelho. Espanta-se com o que vê. O espelho não quebra. Porém trinca em vários pedaços. O homem vê seu próprio rosto em cada pedaço trincado. Cada rosto, em cada fragmento trincado, o observa, como se tivessem vida própria. E começam a rir. O homem, atônito, desespera-se. Esconde o rosto entre as mãos. Percebe em seu rosto uma face lisa. Sem nariz, boca, olhos, sobrancelhas. Cai ao chão, em indescritível agonia, apalpando seu rosto.
Acorda repentinamente, deitado no sofá de seu pequeno apartamento tateando a face. Sua gravata está frouxa. Sua mão direita embebida em sangue. Levanta atônito. Toca o rosto novamente. Tudo no lugar. Levanta-se. Permanece alguns segundos em pé. Percebe a pequena sacada do apartamento. Caminha lentamente para lá.
Observa a imensa metrópole adormecida. No horizonte, percebe um ligeiro lapso de claridade anunciando a majestosa lua cheia por vir. Ruas quase vazias, iluminadas pelas luzes amareladas dos postes. Vê poucos carros, a vagar solitários. Asfalto molhado. Nota o vulto de um homem andando para qualquer lugar. Mira novamente o horizonte. A velha gradiente espalha a voz de Fred Zero Quatro sussurrando "meu esquema" no pequeno apartamento. A lua sobe, linda e soberana, iluminando a madrugada. O homem maravilha-se. Com um perceptível esforço, consegue dar um sorriso. Seus olhos lacrimejam. Então, apoiando-se firme na mureta de proteção da sacada, ele sobe, senta-se, e sente a fria brisa. Passam-se alguns segundos. Olha a lua. Respira fundo. Lentamente inclina o corpo para frente. E pula.
E nunca mais acordou...
Argumento: George Facundo
Ilustrações: Jonas Gomes
03 junho 2009
Uma Disputa Mentirosa em Trapiá...

... ou "A INACREDITÁVEL DISPUTA ENTRE O INVENCÍVEL METIDO A BESTA LOLÔ E O VERBORRÁGICO TAMPA DE CRUSH CAPETA PARA SABER QUEM É O CABRA MAIS MINTIROSO DO MUNDO... E QUE DEIXOU DEUS PUTO DA VIDA!"
Num lugarejo longínquo
Chamado Trapiá
No véi Rio Grande do Norte
Onde Lampião cansou de aprontá
Aconteceu uma disputa
De dois cabra valente
Eles só usaram a cuca
Disputa bonita, inteligente
Acontece que Lolô
Um ilustre de Trapiá
Deixou o capeta furioso
E sobre isso vou lhes contá
Capeta ficou sabendo
Que de Assú a Mossoró
Num tinha ninguém como Lolô
Mintiroso que só
Lolô ainda disse
Pro espanto da nação
Que tava pra ver cabra mais mintiroso
Que ele em todo sertão
Então alguém lhe disse:
“- Lolô tua coragem me admira
Mas sinto dizer que chegaste tarde
Porque é o capeta o pai da mentira”
O baitinga do Lolô num tomou conhecimento
Do poder do capeta de mentir aos quatro vento
E deu as cara a desafiá num tom de zombação:
“- Mente mais do que eu da onde chifrudo fí do cão...!?”
O capeta ficou sabendo
E chegou no assovio
Cara a cara com o Lolô
Aceitando o desafio
É disputa de esperteza
Pois mentir né fácil não
Tem que falar com certeza
Gerar admiração
Pois mentira bem contada
Faz o cabra até babar
Pois apesar de absurso
Você acha bonito e quer até acreditar
Mininu a coisa foi feia
Que como diria minha avó
É história de fazer tremer nas beira
E arrupiá os cabelos do fiofó
Capeta abriu a boca
Com um bafo de catinga
Falando pra Lolô:
“- O que tu fala num vinga!”
“- Lolô tu é gaiato
Metido a sabido
Tem resposta pra tudo
Atazana meu ouvido”
“- Pensa logo que tu
Zé doidim de trapiá
Se acha tão esperto
A ponto de me peitar?”
“- Tira a catinga do mijo
Dentuço atrevido
Tu num era nem nascido
E eu já mentia nos ouvido”
“- Desde Adão e Eva
Minha mentira tem efeito
Influencio rico e pobre
E até discurso de prefeito”
“- Tu pensa que é assim galego?
Tu é esperto mais nem tanto
Te desafio agora mesmo
E ai? Continua? Ou vai mijar de espanto?”
Lolô num se intimida
Fica rindo todo farceiro
Ele disse: “- Fale baixo!
Ta pensando que sou seu pariceiro?”
“- Tampa de crush tome atendo
Nas coisa que vou falá
Minha boca é como coice de jumento
Meto a resposta no mei dos teus peito que até te falta ar!”
“- Então deixe de conversa
Capeta fi duma cabra
E comece logo e sem arrudeio
A contar tua mentira deslavada”
O capeta se aprontou
E num tom de excelência
Recitou sua mentira
Todo nobre e com eloqüência
“- Lolô vou te contar
Com muita emoção
A história da jumenta
Do profeta Balaão”
“- A jumenta no caminho
Deu de besta a falar
Balaão ficou espantado
quase a se cagar”
“- Mal sabia o profeta
E nem podia desconfiar
Que na verdade eu que ensinei a jumenta
Os fundamentos do bê-a-bá”
Lolô ouvindo a história
Não pôde se aguentar
O hômi desatou a rir
E pro capeta foi retrucá
“- Tampa de crush que besteira
Tu é muito é abestado
Tu só ensinou o bê-a-bá
Só mais eu que tô orientando ela no mestrado!”
Diante disso Deus
Chocado com tanta mentira
Desceu logo lá do céu
Com os anjos em comitiva
Capeta e Lolô
Nem acreditaram
Tavam diante de Deus
E nem um dos dois falaram
Deus falou: “- Comé que pode
Seus bando de papangú
Vou dizer umas verdades bem boas
Pra tú e pra tú”
“- Comé que ocês
Tão empolgados em mentir
Enquanto no mundo à coisas tão lindas
E tudo de verdade, sem nada omitir”
“- Se ocês tivessem um pingo
Da mais simples contemplação
Iam ver que não há mentira no mundo
Mais bonita que a verdade verdadeira da criação”
“- Olhem só a mata verde
E os passarinhos à cantar
E o forrózim maravilhoso
Do povo de Trapiá”
“- Diante de tanta beleza
Só há uma coisa procês fazer
É botar joelhinho no chão
E com o coração agradecer”
“- Se quiserem Me encontrar
Perceber Minha grandeza
Abram o coração! Olhem Trapiá!
E Me adorem contemplando a natureza”
Lolô e o capeta
Quase chorando de tanta emoção
Se calaram com profundeza
Em completa adoração!
FIM
George Facundo
Flores Frívolas No Jardim Da Sacanagem
Meu Deus
Como sou imbecil
Imbecil sim
E ainda por cima cego
Isso mesmo
Sou cego também
Num mundo de cegos
Onde quem tem um olho é míope
Aí lascou
Nada não neguim
O negócio é curtir
Vamu curtir
Chegou o momento
É época do pão e circo
Ops...
Quer dizer
É época de carnaval!
O samba no pé
A lôra gelada na mão
E a morena quente no colo do alemão
Solta o pancadão meu irmão
Cadê o grito da galera???
Hêêêêê!!!
E a moçada cai na folia!
Hêêêêê!!!!
Olha a goma!!!
Hêêêêê!!!
Olha o confete!!!
Hêêêêê!!!
Olha o lança perfume!!!
Hêêêêê!!!
Olha o tráfico de drogas lucrando alto!!!
Hêêêêê!!!
Olha os gringos comendo a criançada!!!
Hêêêêê!!!
Olha a Aids!!!
Hêêêêê!!!
Olha os filhos que não voltam pra casa!!!
Hêêêêê!!!
Olha um monte de mães chorando!!!
Hêêêêê!!!
Olha o sorriso amarelo!!!
Hêêêêê!!!
Olha a folia da solidão coletiva!!!
Hêêêêê!!!
Olha o pessoal cagando pro que eu tô falando!!!
Hêêêêê!!!
Olha o Hêêêêê!!!
Hêêêêê!!!
- Estamos ao vivo do meio da folia pra todo o Brasil... Tem um folião aqui e vou conversar com ele! E aí amigo? Que tá achando da festa?
- Sóóóóóóóóó...
- Muita mulher bonita?
- Sóóóóóóóóó...
- O que você tem a dizer pra quem tá em casa?
- "?"
... passaram-se alguns segundos, afinal de contas a pergunta foi muito complexa... o folião enfim responde... e a produtiva entrevista continuou...
- Sóóóóóóóóó...
- Veio com a turma ou sozinho?
- Sóóóóóóóóó...
- E como você se sente curtindo essa folia sozinho no meio desse mar de gente?
... a resposta? adivinha!?
- Sóóóóóóóóó...
Mas tem essa não
Vamos pra folia meu irmão
E tôme pancadão
É tempo de folia
É tempo de curtição
Tá todo mundo convidado
Pro bloco da solidão
... a folia de pessoas que fingem a pseudo-felicidade e o vazio contentamento de achar (fingir?) que tem tudo não tendo absolutamente nada...
Imbecil
É isso que sou
Por quê?
Por quê meu Deus?
Como fui deixar acontecer?
Escapou por entre meus dedos
Nunca mais vou vêla
Nunca mais
Nem na vida
Nem no carnaval
Nunca mais
Ela
Um lindo rosto
Perdido na multidão
Adeus
Mas tem essa não
A fila anda mah
Levanda a cabeça
E vamos
Vamos pro baile de máscaras
Basta sair de casa e verá
Em meio a tempestades de goma
E o brilhar de confetes
O carnaval das vaidades e ostentações
Eu desisto
Não luto mais
Me entrego
Vou ao baile de máscaras
Ponho a máscara da felicidade
E mergulho no mar de sorrisos falsos
Eu sou um gênio
Felicidade
Minha melhor fantasia
E quando o bloco passa
De repente tudo perde a graça
Foi tão rápido
Nem percebi
O tempo não perde tempo
E volto pra casa na quarta
Com a alma em cinzas
E é com muito pesar que tiro minha máscara
Finalmente
Ai que dor
Contemplo meu rosto no espelho
E pra minha triste surpresa
Percebo que não tenho rosto
Tudo o que vejo é um imenso vazio
O nada
Mas tem nada não
Ainda bem que máscaras é o que não me falta
E pra ocasiões assim tenho uma perfeita
Uma máscara que particularmente não gosto
Mas faz-se necessária nesse exato momento
Ponho a máscara da rotina
E sigo o enfadonho bloco do cotidiano
Qualquer coisa é melhor que ser vazio
Longe de mim ser o que sou
Sou o que não sou
Viva as máscaras!!!
Hêêêêêê!!!
É melhor assim
Acredite
Tá triste?
Infeliz?
Sozinho?
Amargo?
A cabeça dói?
Eu te pergunto:
Quem se importa?
Eis a realidade!
Ninguém se importa camarada!
Uma solução?
Simples
Finja!!!
É melhor fingir
Fingir que não é amargo
Fingir que acredita
Fingir que se importa
Fingir que é interessante
Fingir que é feliz
Fingir
Entendeu?
Entendeu mesmo?
Então meus parabéns!!!
E adeus
E pra não perder o costume
Um último brado pra comemorar o fato de não ter o que comemorar
Então lá vai
Todo mundo junto
No três
1
2
3
Hêêêêêêêê...
"Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor"
Trecho da canção "A Banda" de Chico Buarque de Holanda
E LEMBRE-SE:
"Todo carnaval tem seu fim..."
(Marcelo Camelo)
P.S.- A trilha sonora do meu carnaval?
"O bloco do eu sozinho"(Los Hermanos)
George Facundo
Sejam bem-vindos à Casa de Alice...
...porém cuidado; você pode não se sentir à vontade.
Alice é uma mulher na altura de seus 40 anos, manicure, que levanta cedo, ônibus, trabalho, ônibus, casa. Alice mora com o marido (Lindomar), os três filhos (Lucas, Edinho e Junior) no pequeno apartamento no subúrbio de São Paulo que pertence a sua idosa mãe (Dona Jacira) que diariamente acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha... e vez por outra têm sérios problemas no coração e é afligida por um probleminha de catarata, que tenta, com um esforço comovente, disfarçar. "Já viu o preço do colírio?"
Alice e Lindomar estão casados à vinte anos. Lindomar é taxista, e dentre outras coisas, gosta de tomar uma cervejinha com os amigos e transar com ninfetas. Lucas, Edinho e Junior são os filhos do casal, com idade entre 16 à 25 anos. Garotos que, como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos.
Esse enredo é do premiado filme "A Casa de Alice" (Brasil-2007), um drama que se passa no subúrbio de São Paulo.
Você deve estar pensando: o que têm de mais? É apenas a realidade!
Pois muito bem caro leitor...
Rita é uma mulher trabalhadora, têm por volta de seus 40 e poucos anos. Funcionária pública mal remunerada, tenta compensar o baixo salário sendo "galega" nas horas vagas. Pobre Rita! Acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, ônibus, casa... e acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, casa... e ônibus, trabalho, ônibus... e têm, devido ao extresse cotidiano, sérios problemas de pressão baixa, colesterol elevadíssimo, tirando as pitadinhas de depressão. Rita têm dois filhos; George(26) e Thaís(16) que, "como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos".
Rita namora Wando, mecânico, com o qual mantém uma relação de dependência, mas que no entanto nunca a satisfaz por completo. Wando é um homem que entrou na vida de Rita com uma bagagem (enrolado com a ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai). Rita sofre por perceber que, entre históricos de ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai, ela, em uma porcentagem justa, talvez tenha do Wando algo em torno de 8,3% de atenção. Pobre Rita, cobra do pobre Wando um preço alto, do qual ele nunca vai poder pagar.
O filho mais velho de Rita chama-se George (26), ela por toda a vida, de uma forma desesperadamente auto-sacrificial, investiu 110% de si para proporcionar ao pobre garoto sem pai a melhor educação que ela poderia dar, colocando-o em bons colégios e sempre dando a ele um relativo conforto.
Pobre Rita, não imaginava que seu filho ia se tornar um garoto acomodado que ia desperdiçar todas as chances (e boas chances) de se dar bem na vida. Pobre Rita, viu escoar pelo ralo a possibilidade do filho prosperar, proporcionando a sua pobre e sofrida mãe um mínimo de conforto em sua quase velhice. Pobre Rita! Pobre Rita!
George, como todo bom cara-de-pau mimado, tornou-se um parasita, sugando de sua miserável mãe o que ela tinha (e não tinha) para satisfazer seus mais insanos e irracionais caprichos.
George percebeu (ao menos isso...) sua triste condição às portas de completar seus 26 anos. Tenta correr atrás do prejuízo, mas o tempo é cruel. Será que consegue? Difícil.
Que Deus o ajude!
Sua filha mais nova se chama Thaís(16)... não, não me atrevo...
Isso não é outro filme...
É minha vida!
Sou, por natureza, um grande pessimista! Penso que, devido a minha própria condição, sempre tive predileção por livros e filmes que retratassem a desesperança. Porque, pra ser sincero, é mais fácil acreditar nela. Tenho uma doente atração pelos perdedores.
Por isso sou apaixonado pela literatura de Charles Bukowski (1920-1994), escritor americano considerado o grande profeta dos perdedores e mazelados deste mundo sem sentido. Bukowski revela e esmiuça o anti-sonho; um mundo de marginais, viciados, bêbados e prostitutas, dos quais só não se pode dizer que estão na sarjeta porque sempre decaem um pouco mais.
Assim como na história do filme "A Casa de Alice" e minha própria vida, Bukowski descreve as pessoas tal qual na vida real, retratadas de forma triste, divertida, escatológica e universal, em toda sua vulgaridade e realidade.
A realidade da rotina é chocante ilustre leitor! Porque é bem certo que nosso lar (casa) é, de forma geral, o lugar onde as pessoas (família) conseguem extrair (como tirar pus de uma inflamação) o que há de pior em nosso caráter. Todos os meus e os seus viciozinhos e segredinhos mais insanos não são segredos para quem convive comigo e com você à mais de 20 anos. Basta um pequeno vacilo, um desentendimentozinho à toa, e você vai ter a desgraçada experiência de ver e ouvir, impotente, seus segredos e mazelas serem vomitadas sumariamente na sala de sua casa diante de todos. É de fato, algo animalesco! Acreditem!
É chocante amigos! Comovente e chocante!
Então pergunto: Há esperança!?
Muito bem ilustre leitor, minha porta agora está escancarada para você! Pode entrar! E fique à vontade!
Ou não!
"Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:
Os velozes nem sempre vencem a corrida;
os fortes nem sempre triunfam na guerra;
os sábios nem sempre têm comida;
os prudentes nem sempre são ricos;
os instruídos nem sempre têm prestígio;
pois o tempo e o acaso afetam a todos."
ECLESIASTES 9:11
George Facundo
Alice é uma mulher na altura de seus 40 anos, manicure, que levanta cedo, ônibus, trabalho, ônibus, casa. Alice mora com o marido (Lindomar), os três filhos (Lucas, Edinho e Junior) no pequeno apartamento no subúrbio de São Paulo que pertence a sua idosa mãe (Dona Jacira) que diariamente acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha... e vez por outra têm sérios problemas no coração e é afligida por um probleminha de catarata, que tenta, com um esforço comovente, disfarçar. "Já viu o preço do colírio?"
Alice e Lindomar estão casados à vinte anos. Lindomar é taxista, e dentre outras coisas, gosta de tomar uma cervejinha com os amigos e transar com ninfetas. Lucas, Edinho e Junior são os filhos do casal, com idade entre 16 à 25 anos. Garotos que, como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos.
Esse enredo é do premiado filme "A Casa de Alice" (Brasil-2007), um drama que se passa no subúrbio de São Paulo.
Você deve estar pensando: o que têm de mais? É apenas a realidade!
Pois muito bem caro leitor...
Rita é uma mulher trabalhadora, têm por volta de seus 40 e poucos anos. Funcionária pública mal remunerada, tenta compensar o baixo salário sendo "galega" nas horas vagas. Pobre Rita! Acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, ônibus, casa... e acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, casa... e ônibus, trabalho, ônibus... e têm, devido ao extresse cotidiano, sérios problemas de pressão baixa, colesterol elevadíssimo, tirando as pitadinhas de depressão. Rita têm dois filhos; George(26) e Thaís(16) que, "como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos".
Rita namora Wando, mecânico, com o qual mantém uma relação de dependência, mas que no entanto nunca a satisfaz por completo. Wando é um homem que entrou na vida de Rita com uma bagagem (enrolado com a ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai). Rita sofre por perceber que, entre históricos de ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai, ela, em uma porcentagem justa, talvez tenha do Wando algo em torno de 8,3% de atenção. Pobre Rita, cobra do pobre Wando um preço alto, do qual ele nunca vai poder pagar.
O filho mais velho de Rita chama-se George (26), ela por toda a vida, de uma forma desesperadamente auto-sacrificial, investiu 110% de si para proporcionar ao pobre garoto sem pai a melhor educação que ela poderia dar, colocando-o em bons colégios e sempre dando a ele um relativo conforto.
Pobre Rita, não imaginava que seu filho ia se tornar um garoto acomodado que ia desperdiçar todas as chances (e boas chances) de se dar bem na vida. Pobre Rita, viu escoar pelo ralo a possibilidade do filho prosperar, proporcionando a sua pobre e sofrida mãe um mínimo de conforto em sua quase velhice. Pobre Rita! Pobre Rita!
George, como todo bom cara-de-pau mimado, tornou-se um parasita, sugando de sua miserável mãe o que ela tinha (e não tinha) para satisfazer seus mais insanos e irracionais caprichos.
George percebeu (ao menos isso...) sua triste condição às portas de completar seus 26 anos. Tenta correr atrás do prejuízo, mas o tempo é cruel. Será que consegue? Difícil.
Que Deus o ajude!
Sua filha mais nova se chama Thaís(16)... não, não me atrevo...
Isso não é outro filme...
É minha vida!
Sou, por natureza, um grande pessimista! Penso que, devido a minha própria condição, sempre tive predileção por livros e filmes que retratassem a desesperança. Porque, pra ser sincero, é mais fácil acreditar nela. Tenho uma doente atração pelos perdedores.
Por isso sou apaixonado pela literatura de Charles Bukowski (1920-1994), escritor americano considerado o grande profeta dos perdedores e mazelados deste mundo sem sentido. Bukowski revela e esmiuça o anti-sonho; um mundo de marginais, viciados, bêbados e prostitutas, dos quais só não se pode dizer que estão na sarjeta porque sempre decaem um pouco mais.
Assim como na história do filme "A Casa de Alice" e minha própria vida, Bukowski descreve as pessoas tal qual na vida real, retratadas de forma triste, divertida, escatológica e universal, em toda sua vulgaridade e realidade.
A realidade da rotina é chocante ilustre leitor! Porque é bem certo que nosso lar (casa) é, de forma geral, o lugar onde as pessoas (família) conseguem extrair (como tirar pus de uma inflamação) o que há de pior em nosso caráter. Todos os meus e os seus viciozinhos e segredinhos mais insanos não são segredos para quem convive comigo e com você à mais de 20 anos. Basta um pequeno vacilo, um desentendimentozinho à toa, e você vai ter a desgraçada experiência de ver e ouvir, impotente, seus segredos e mazelas serem vomitadas sumariamente na sala de sua casa diante de todos. É de fato, algo animalesco! Acreditem!
É chocante amigos! Comovente e chocante!
Então pergunto: Há esperança!?
Muito bem ilustre leitor, minha porta agora está escancarada para você! Pode entrar! E fique à vontade!
Ou não!
"Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:
Os velozes nem sempre vencem a corrida;
os fortes nem sempre triunfam na guerra;
os sábios nem sempre têm comida;
os prudentes nem sempre são ricos;
os instruídos nem sempre têm prestígio;
pois o tempo e o acaso afetam a todos."
ECLESIASTES 9:11
George Facundo
20 maio 2008
Sobre um pardal cego e a complicada natureza humana

Meia-Noite!
Como faço todos os dias, levo minha cadela para passear. O nome dela é Brenda (mas Levi, eu juro! Quando eu ganhei ela já tinha esse nome!). É sempre a mesma rotina - por volta de meia noite rodeio dois quarteirões com ela (um trajeto parecido com um "8"), dou uma passada na avenida e fico parado, conto dez carros (?) e volto pela rua que dá acesso à minha casa; neste momento do trajeto é a hora da liberdade, o grande momento do dia da Brenda - eu solto a coleira dela e ela sai farejando freneticamente todos os postes, todas as manchinhas na calçada que podem parecer uma urinada de cão; e por fim ela mesmo dá uma mijada também para tentar passar para outros cães transeuntes a mensagem de que aquele lugar já era território marcado. Trata-se de uma Cocker Spaniel. Dourada. Linda!
Acontece que, quando estou prestes a chegar em meu lar doce lar, me deparo com uma cena inusitada.
Vejo um pássaro voando rasante e se estatelando nas paredes das casas. Ele voa, bate com a cara na parede e volta ao asfalto novamente. Deixo minha cadela dentro de casa e volto. Tenho que conferir este “fenômeno” com mais atenção. Ao voltar, encontro o pássaro no meio do asfalto. Pego-o com a mão (claro que sob inúmeros “pios” de protesto da ave), e vejo que se trata de um pardal. Olho mais perto e percebo também que o rosto dele está gravemente machucado, tem uma fratura muito feia na parte superior ao bico, um grande buraco, profundo. Olho mais perto ainda e, para meu espanto, vejo que na verdade o buraco vai até os olhos, uma fenda aberta, como se fosse causado por uma bicada muito forte de um pássaro maior ou uma pedrada de algum “humano” desumano. Acontece, ilustre leitor, que o ferimento não só abriu uma fenda na cabeça do pobre pássaro, como também estraçalhou seus dois olhos!
Ele não têm olhos! Ele é cego! Ele ficou cego com o duro golpe!
Nossa! Sinto um calafrio subindo minha espinha dorsal, um aperto no coração. Sinto-me um verdadeiro idiota impotente. O que fazer? Um pardal cego! Meu Deus!
Por um segundo, um segundinho de nada, me passa pela cabeça a deprimente idéia de deixá-lo lá. Sabe aquele raciocínio do tipo: “Deixe que a natureza se encarregue de tudo George, vá para casa, faça seu leite com nescau e farinha láctea, veja um pouco de tv, durma e seja feliz.
Resultado?
Trouxe-o para casa! Pego uma caixa espaçosa e coloco delicadamente meu novo “hóspede” nela.
Tento dar água, ele bebe um pouco.
Nossa, que situação ein? Agora estou aqui no quarto com um pássaro cego ao meu lado dentro de uma caixa e não faço idéia do que fazer.
É claro, não preciso ser um veterinário para deduzir que, no andar da carruagem, esse pobre pardal vai ser promovido para voar logo, entre nuvens e anjos tocando harpas, no reino dos céus dos passarinhos.
O que deu em mim? Investir tempo numa causa perdida.
Será que é perdida mesmo? Talvez não totalmente.
Explico.
Olhando agora para ele, lembro-me de uma história que meu professor de filosofia contou para ilustrar o estilo literário da chamada “filosofia oriental”.
Ele disse que, basicamente, a filosofia oriental consistia em histórias (parábolas) com conteúdos que sempre representam uma lição de cunho moral. E diante disso ele contou a seguinte história:
Um mestre estava a caminhar com seu discípulo. Estavam passando à beira da lagoa quando seu discípulo, surpreso, disse:
-Olhe mestre! Um escorpião está se afogando no meio da lagoa!
O mestre não pensou duas vezes! Desfez-se da túnica e, imediatamente, adentrou na lagoa . Nadou até onde o escorpião estava a se afogar, e tentou trazê-lo a margem com a mão. Durante a tentativa, o escorpião desferiu inúmeras picadas na mão do mestre. O mestre, mesmo em meio a gritos de dor, conseguiu, à duras penas, trazer o escorpião à margem e salvá-lo.
O discípulo, não pouco espantado, perguntou ao mestre:
- Como podes mestre? Esforçar-te pra salvar um ser com a natureza tão ruim? Ele lhe desferiu dezenas de picadas enquanto o senhor tentava fazer o bem à ele!
O mestre, mesmo em muitas dores, conseguiu dar um leve sorriso no canto da boca e respondeu:
- Observastes bem meu jovem, de fato o escorpião me picou porque estava seguindo a sua natureza.
No que o discípulo novamente disse:
- Então mestre? Porque o salvou?
- Porque, salvando-o, eu estava seguindo a minha natureza.
Eu salvei esse pobre pardal cego porque estava seguindo minha natureza ilustre leitor. Simplesmente não podia deixá-lo ali, cego e desamparado. Sim ele vai morrer eu sei! Mas morrerá na segurança dos meus cuidados e, provavelmente, terá um enterro decente! E chorarei sua morte fazendo com que ele, para sempre, seja lembrado em minha memória - e claro, neste texto.
Me vêm agora à cabeça uma passagem nas Escrituras Sagradas que diz:
“Vinde, benditos de meu pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me. Então os justos lhe responderão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver? Ao que lhes responderá o rei: Em verdade vos digo: cada vez que o fizeste a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.”
Evangelho de Mateus, cap. 25, vers.34 - 40. (Versão da bíblia de Jerusalém)
Neste momento meu amiguinho está em sua caixa, andando de um lado a outro tentando entender que lugar é aquele. Sacode suas penas, dá uma ciscada, olha para cima como se pudesse enxergar alguma coisa e lança-se em mais um vôo em direção ao nada (na perspectiva dele), e em direção à parede (na minha perspectiva).
Sinto dizer, mas vou ausentar-me por um instante ilustre leitor, tenho um novo amigo para cuidar.
Já lhe dei até um nome:
Chama-se Bart!
Uma referência e singela homenagem à Bartimeu, o cego de Jericó que estava à beira do caminho e foi curado pelo Mestre!
Tem uma lenda popular onde se diz que, às vezes, Jesus se disfarça de mendigo para testar a bondade dos homens. Será que ele se disfarçaria de pardal cego? Será que o pardal vai morrer? Não, não vou pensar nisso. Todos vamos morrer! A questão não é a morte, mas sim a vida que se vive. E isso já é um outro assunto...
“Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu vôo.”
Casimiro de Brito
Música: Voa Liberdade
Cantor: Jessé
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