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27 março 2012

Meus natais inesquecíveis com os Secos & Molhados



Artista: Secos & Molhados
Álbum: Secos & Molhados
Ano: 1973
Gravadora: Continental

É viva em minha memória o mágico dia que conferi, ao vivo, uma performance do Ney Matogrosso.

Foi numa edição do Ceará Music, não lembro o ano. Pouco importa! Até porque, no geral, o festival Ceará Music é perfeitamente esquecível. Enfim. Lembro que era um show do Ney junto com a banda Pedro Luís e a Parede. Comprei o ingresso para ver o show deles, e no cronograma eles entravam após o CPM 22. Lembro aquela multidão de adolescentes com camisas pretas afastando-se do palco principal, sendo substituída por um mar de gente grisalha, boa parte coroas descolados, tentando ficar o mais perto possível do palco para melhor aproveitar o espetáculo que ia se seguir.

Dava pra perceber que vinha algo, no mínimo, faraônico. E aí, finalmente, o palco explodiu em luzes e ritmos, e toda aquela atmosfera circense era conduzida por um frontman simplesmente espetacular. Olhava em volta as inúmeras faces naquele mar de gente e o que via era um transe coletivo, olhos fixos no palco, hipnotizados por aquela entidade andrógena que seduzia a todos com movimentos e aquela voz inconfundível. Era uma metamorfose atrás da outra. A cada canção era incorporada uma energia diferente. Parecia que Ney, com aqueles olhos cheio de sombra, achava-me no meio daquela multidão. Tive neste show uma de minhas melhores experiências. Era algo que ia do erótico ao espiritual. Como se ele conduzisse o público a uma espécie de ritual. Uma sensação mística única. E olhe que eu tava só na cerveja.

Pois aquele mesmo distinto senhor de meia-idade que levava o público do Ceará Music a um orgasmo cósmico, foi o mesmo que, décadas antes, incendiava a música brasileira à frente do grupo Secos & Molhados.

Secos & Molhados
Androgenia e modernidade musical em época careta de regime militar.

Tem certos grupos que precisam de um tempo para, através de duro trabalho, estabelecer-se no mercado musical, conquistando público aos poucos. Secos & Molhados chegaram chutando o pau da barraca naquela primeira metade da década de setenta. Uma época onde a indústria musical tinha como principal vendedor de vinis um Roberto Carlos já adentrando num engessamento romântico, e Caetano embarcando em discos experimentais (geniais é claro, mas feitos para poucos ouvidos).

Secos & Molhados foi, de certa forma, um catalizador de influências brasileiras e gringas. Eles pegaram tudo, desde a tropicália, música tradicional portuguesa, poesia, teatro e psicodelia roqueira dos anos sessenta. Colocaram tudo isso num liquidificador e construíram um álbum que conseguiu arrebatar as massas. O disco homônimo foi um estouro astronômico nas Fm's. O próprio mercado fonográfico brasileiro foi pego de surpresa e não tinha estrutura suficiente para abarcar a demanda de pedidos de discos em todo o Brasil. Praticamente algumas fábricas tiveram que dedicar um período para produzir exclusivamente o álbum dos Secos & Molhados. Foram centenas de milhares de exemplares vendidos em poucas semanas. E lá estava ele, Ney Matogrosso, à frente disso tudo, com sua mesma androgenia e performances bizarramente atraentes, num contexto de ditadura extremamente feroz e implacável com a classe artística no país.

Lógico que aqui, para os fãs mais vorazes dos Secos & Molhados, quero deixar claro que, por estar focando a banda mais na figura do Ney, não estou desmerecendo as preciosas participações dos músicos e compositores Gerson Conrad e João Ricardo. É óbvio que o Secos foram uma construção da exata química dos três. Sem tirar nem pôr. Todos sabem que Ney é um excelente intérprete. Mas como compositor, nadica. Então essa parceria foi exatamente a união do Fósforo + Tanque de Gasolina.

Ainda assim, ouso blasfemar dizendo que Secos & Molhados foi um estouro, por conta principalmente do poder estético que o Ney proporcionava com suas performances no palco. A imagem em si era impressionante.

Antes que alguém jogue o primeira caixa pesada de som Gradiente na minha cabecinha, vá lá no Google e pesquise o que foi a trajetória dos Secos sem o molhado do Ney, e compare com a meteórica carreira que o Ney construiu nas décadas seguintes. É só somar 2 + 2! Que aliás, vai dar... Ummm... Há, deixa pra lá pô! E eu por um acaso sou o Pasquale pra entender tanto de matemática?

A própria capa do disco sugere exatamente algo que é para ser devorado, como um verdadeiro banquete a Baco, Afrodite, ou a ambos juntos, de braços e abraços num romance astral. Brincadeiras psicodélicas à parte, a capa não deixa de ser um belo de um aperitivo servido ao público. E pelo número assombroso de vendas em pouco tempo, parece que o povo tava mesmo com uma fome dos diabos. A concepção da capa foi sacada genial do fotografo carioca Antônio Carlos Rodrigres. Que aliás, já tinha feito fotografias semelhantes usando a cabeça da esposa. O porquê? Não faço a mínima! Cada um com suas psicopatias.

Mas para mim, Secos & Molhados não está relacionado a nenhum desses contextos sociais e culturais do início dos anos setenta. Ao contrário, essa banda só me faz lembrar das inesquecíveis festas de Natal na casa do tio Clóvis.

Toda família que se preze tem uma figura como o tio Clóvis. Aquele cara que tem uma espécie de poder agregador. É aquela figura que não dá para imaginar uma festa familiar sem a presença dele. Geralmente é aquele sujeito engraçado, de meia idade, que em toda reunião familiar toma umas a mais e faz a alegria da criançada! Nunca vou esquecer os meus diversos natais e fins de semana que passei na casa dele.

Tio Clóvis

E foi exatamente esse cara, tio Clóvis, que me fez gostar de Secos & Molhados. O engraçado é que fisicamente ele até lembrava muito o Ney. E sempre o ápice da nossa festa de natal era ele amarrando uma faixa na cabeça e incorporando o Ney Matogrosso cantando e dançando O Vira, Sangue Latino e por aí vai. E ao redor dele era um monte de sobrinhos dançando e pulando juntos, todos divertindo-se pra cacete, celebrando à vida!

Tio Clóvis era um cara que, como poucos, conseguia viver plenamente o famoso paradoxo do Maluco Beleza, controlando a maluquez misturado com a lucidez. Podia beber todas no domingo depois da vitória do Senna, mas segunda-feira tava lá, de cara limpa, pontualmente no trabalho. E assim por anos à fio.

- Presta atenção véi, o vira se dança assim ó!
Tio Clóvis tentando inutilmente fazer um zé mané (eu!) dançar O Vira

Na tradição judaica, um homem podia considerar-se plenamente feliz se tivesse Deus, um trabalho digno, uma mesa farta com filhos e esposa em volta, e claro, um bom vinho (ou cerveja) para alegrar o coração! Bem, se isso é realmente a felicidade, tio Clóvis, eu lhes asseguro, foi feliz como poucos.

Além de me ensinar a gostar de Secos & Molhados e abrir minha mente para o fato de a felicidade morar nas coisas mais comuns e ordinárias da vida, é graças a ele que eu também passei a ter outra perspectiva sobre a morte. Infelizmente tio Clóvis foi acometido de um câncer fulminante no esôfago.

Foram meses no hospital. E mesmo com o corpo definhando, entre cirurgias, pós-operatórios e quimioterapias, em todas as vezes que tive a oportunidade de passar a noite com ele no Hospital Geral de Fortaleza, nunca o vi perder a dignidade e bom humor diante da iminência da morte. Enquanto pôde, sempre ele levantava do leito e ia em outros quartos cumprimentar e contar piadas para outros pacientes. Que a tia Sônia nunca saiba, mas quantas vezes uma linda estudante de medicina fazendo residência ia lá examiná-lo e ele, malandro, piscava o olho pra mim e dizia:

- Tá vendo? Essa aí é doidinha por mim!

Numa dessas noites em que ele acordou no meio da madrugada, começamos a conversar e perguntei se ele tinha medo da morte.

- Medo pra quê cara? Todo mundo morre!
- Eu sei, mas... O senhor já parou pra pensar sobre o que deve ter do outro lado?
- Do outro lado de quê?
- Da morte.

- Há! Ummm... Deus né não?
- Deus? Simples assim?
- E tu ainda quer mais bixo?

Tio Clóvis foi-se com uma dignidade tão grande que, acredito, onde ele esteja, certamente ficaria profundamente ofendido se eu pelo menos esboçasse um mínimo de medo dessa velha ranzinza chamada morte.

- Todo mundo morre!

É verdade cara, todo mundo morre! Simples assim! Valeu tio Clóvis!

Desde que ele partiu, minha família nunca mais se uniu pra celebrar o natal juntos.

Mesmo assim, passados todos esses anos, é sagrado toda véspera de natal eu tomar uma cervejinha e ouvir esse clássico álbum do Secos & Molhados em homenagem a ele. Às vezes sinto saudades dos meus primos, hoje todos adultos, com suas famílias, tocando as próprias vidas. Saudades da véspera da meia-noite de natal, todos famintos, e o delicioso cheiro da comida da tia Sônia invadindo a casa inteira. Meus olhos brilhavam quando eu ouvia ela chamando da sala de jantar:

- Tá pronto! Bora comer negrada! 

Saudades dessa época que eu era feliz e, sinceramente, sabia disso! E como sabia!

Festa de natal 1995
Em pé: Junior, tio Clóvis, Heltin e Carla (Sim, é uma mulher!)
Agachados: Wiltin e eu
No outro dia esse adolescente de camisa listrada incluiu a palavra ressaca no vocabulário dele!  

E muito provavelmente vou dar o prazer de, em um natal, num futuro próximo, tomar um pilequinho a mais, amarrar uma faixa na cabeça, e assim, eternizar-me no coração dos meus filhos, dançando e cantando Sangue Latino pra eles!

Secos & Molhados tão rápido quanto veio, foi-se. Brigas internas por conta de egos inflamados e, claro, dinheiro, foram determinantes para um ponto final na carreira dessa banda durante a gravação do segundo álbum, em 1974. Mas isto já é uma outra estória.

Porém o legado dessa banda, no que depender de todos os tio Clóvis dentro de cada um de nós, permanecerá para sempre na mente e alma de muitas gerações.

FAIXA A FAIXA:

1 - Sangue Latino (João Ricardo - Paulinho Mendonça)


Música que abre o álbum, certamente é um dos grandes hits ao lado de O Vira. Fala das lutas e dificuldades da condição de ser Latino-Americano, condição essa bastante difícil naquela conturbada década de setenta.

E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa.



A canção é executada em uma excelente linha de baixo, acompanhada por violões. A voz de Ney entra na canção nos arrebatando para uma verdadeira viagem. Até hoje Ney, quase sempre, canta essa canção em seus shows. E, além disso, essa era certamente uma das prediletas do tio Clóvis!

2 - O Vira (João Ricardo e Luhli)

Certamente é a canção mais, digamos, divertida do álbum. Foi um verdadeiro estouro nas Fm's. Com uma levada rock, misturados a música tradicional portuguesa, e toda a diversidade do folclore brasileiro, essa combinação foi excelente para tornar essa música super dançante um dos carros chefe do álbum.

Até hoje ela é uma música que certamente embala qualquer festa, com pessoas de qualquer idade.

Faça uma experiência, vá a uma festa de criança e coloque essa música pra tocar, e veja se elas não vão à loucura!

Acho que depois dessa canção, só o Vira-vira dos Mamonas tiveram um impacto parecido.

E lá no fundo azul
Na noite da floresta
A lua iluminou
A dança, a roda, a festa



3 - O Patrão Nosso de Cada Dia (João Ricardo)


Muitas coisas poderiam ser ditas sobre essa canção.

É praticamente uma poesia do João Ricardo musicada por uma linda linha de violão com uma flauta que dá o tempero final para a apoteótica voz de Ney encantar-nos a alma.

Essa canção, para mim, representa todo aquele sufocamento que o mercado de trabalho nos dá. Uma rotina incessante, dia após dia, sem trégua.

Eu dei-lhe a flor da minha vida
Vivo agitado


Até que ponto essa rotina de trabalho nos alienam de nós mesmos? Qual o sentido do existir se não o conhecer a nós mesmos? E até que ponto nossa rotina contribui ou atrapalha nessa caminhada de auto-conhecimento?

Quero eu chegar ao fim da minha existência na humildade de que tudo o que mais eu consegui conhecer na vida foi tão somente a mim mesmo!

Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada

Eu só sei de mim, Só sei de mim
Só sei de mim.


4 - Amor (João Ricardo e João Apolinário)


Basicamente é um poema de João Apolinário musicado por seu filho João Ricardo. Música muito ritmada, com uma outra marcante linha de baixo e com direito a gaita! Na última estrofe temos João Ricardo cantando. Cara, mesmo ao som de violão, como essa canção não deixa de ter uma ótima levada de rock sessentista!

5 - Primavera nos Dentes (João Ricardo e João Apolinário)


É a maior duração de uma canção do Secos & Molhados. Um blues-rock cósmico. Dizem que inspirado até no rock progressivo. Começa com um piano e uma guitarra dando solos, entrando depois o corpo das vozes de Ney, João Ricardo e Gerson Conrad. Para mim é a letra mais forte e densa do grupo. Mais uma parceria de João Ricardo musicando os poemas de seu pai João Apolinário.

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe


Está entre as minhas prediletas do álbum!

6 - Assim Assado (João Ricardo)


Curiosa a estória dessa música. Fala de um guarda que pega um velho as duas da manhã perambulando pela rua, e pelo fato da cor do velho não ser a cor padrão, o guarda resolve matá-lo.

Mesmo isso sendo uma bela duma crítica ao rigor intolerante da ditadura. Essa canção pode ser colocada como voz contra todo tipo de intolerância. Muita gente por aí acha que para se ser gente tem que ser assim assado, e vai criando muros intransponíveis para a convivência da diversidade.

A canção tem uma levada cheia de elementos como batuques, flautas, e no meio na música uma levada bem  rock, com guitarra distorcida e tudo.

Mas mesmo assim o velho morre, assim, assim
E o guarda belo é o herói assim assado
Por que é preciso ser assim assado
Por que é preciso ser assim assado


7 - Mulher Barriguda (João Ricardo e Solano Trindade)


 Por mais simples que seja, outra letra que fala da condição da existência.

Mulher barriguda que vai ter menino
Qual o destino que ele vai ter?


Se hoje o futuro para todos é uma incerteza sem tamanho, por conta de violência, desastres imprevistos e etc. O que dirá então numa época tão oprimida pela ditadura, e ainda sob essa sombra claustrofóbica de uma guerra fria que podia se tornar quente à qualquer momento?


Uma das músicas mais Rock'in Roll do álbum, é levado por uma bateria rápida e competente, e um fundo de gaita que dá todo um toque especial a canção.

8 - El Rey (Gerson Conrad e João Ricardo)


Essa canção, se você fechar os olhos para ouvir, vai certamente ser arrebatado para época medieval, com uma levada de violão e uma flauta, a canção se torna especial com a voz de Ney passeando pelas melodias.

É possível que essa poesia trate da visita do monarca de Portugal (Manuel I, que era rei no período de Pedro Álvares Cabral) fez ao Brasil após o descobrimento.


9 - Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)


 Uma celebração à paz. Ao mesmo tempo uma crítica feroz ao quanto é grotesca a ideia de guerra. Usando como referência um poema de Vinicius de Moraes sobre aquela aberração que foi os ataques a Hiroshima e Nagazaki com bombas nucleares. Um verdadeiro estupro a humanidade.

No poema, musicada com violão e flauta, é-nos alertado o fato de jamais esquecer-nos desta catástrofe para isso não se repetir. Mas pelo visto, basta ver os noticiários para perceber que a humanidade não anda aprendendo a lição com os erros do passado.

Mas oh! Não se esqueçam da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária
A rosa radioativa, estúpida, inválida


10 - Prece Cósmica (João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Essa basicamente virou um hino hippie na época! Poesia de Cassiano Ricardo musicada por João Ricardo, tem uma levada já característica dos Secos & Molhados, com violões, guitarras e agora com violinos. Cantado em coro por todos os integrantes da banda.

11 - Rondó do Capitão (João Ricardo e Manuel Bandeira)


Já deu pra perceber que muitas das músicas dos Secos & Molhados são poemas musicados. Neste caso, este poema de Manual Bandeira musicado por João Ricardo se tornou um grande sucesso para o público infantil na época!


12 - As Andorinhas (João Ricardo e Cassiano Ricardo)


Outro poema musicado por João Ricardo. As Andorinhas contém apenas uma frase, tem menos de um minuto, mas mesmo assim você sente nela um impacto, quase como se fosse um mantra.

13 - Fala (João Ricardo e Luhli)


E pra fechar o álbum com chave de outro entra em cena essa música espetacular!

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto


Nossa, a primeira vez que eu ouvi essa música senti um calafrio daqueles. Uma canção linda, melódica, que gruda na sua alma e não sai mais. Uma verdadeira viagem sonora, com direito a sintetizador e tudo!

É sem dúvida minha canção predileta do disco. E o por quê eu explico logo abaixo!

A PREDILETA:


Nunca vou esquecer a noite em que ouvi a canção Fala dos Secos & Molhados pela primeira vez. Era natal na casa do tio Clóvis! Já tinha passado a ceia e a madrugada ia avançando! Meu primos já pra lá de bagdá estavam na calçada conversando, muitos familiares já tinham ido embora, e eu tava na sala perto do som quando o tio Clóvis veio colocar mais uma música:

- Ei tio, aquele disco do lobisomem é massa ó! O senhor devia ganhar dinheiro na televisão, imita o cara da banda direitim!
- Tu num viu foi nada bixo, saca só essa véi! A melhor música deles!


Tio Clóvis botou a música pra rolar, e fez uma apresentação apoteótica! E só tinha eu como testemunha!

Essa canção sempre vai ser especial pra mim! Hoje percebo como a música vai além de sonoridade nua e crua. Ela é também a trilha sonora da vida. Está presente como trilha de nossas lembranças e sentimentos. Eu amo a música por isso, e tive sorte de ter na minha vida bons mentores musicais!

Valeu tio Clóvis, essa vai pra você meu velho! Obrigado por tudo!




*   *   *   *

INTERLÚDIO

E aí? O que acharam do novo visual do blog?

Isso é nada mais nada menos que fruto de uma parceria antiga!

Jonas Gomes é um desenhista de mão cheia, cearense, radicado em São Paulo, e é responsável pelos excelentes layouts do blog Mundo Facundo!

Jonas Gomes

O cara é tão fera que fez participação na parte de animação do filme Dois Coelhos, veja trailer do filme abaixo:



Se você quiser conferir outros trabalhos espetaculares do Jonas Gomes, abaixo está o excelente blog dele, onde regularmente ele posta suas criações recentes, inclusive todos os layouts que ele fez para o blog Mundo Facundo!

Confiram no link abaixo:

http://casitaroja.wordpress.com/

Além de todos estes trabalhos dele, ainda encontra tempo de ser um grande amigo meu!

Cara, tu me mata de orgulho! Parabéns pelo teu trabalho! Você vai longe meu velho! O blog Mundo Facundo sempre vai estar de olho nas linhas que você rabisca!

Enfim, é isso pessoal! Té mais!

23 agosto 2011

Simon & Garfunkel: Os namoradinhos da América!


Artista: Simon and Garfunkel
Álbum: Simon and Garfunkel's Greatest Hits
Ano: 1972
Gravadora: Columbia


Não tenho absolutamente nada contra coletâneas. Elas servem como um direto ao ponto de músicas fundamentais de um artista. Juntam em um disco aquelas canções que cronologicamente foram marcantes na construção e solidificação de toda uma carreira.

É bem verdade que geralmente os fãs (e quando eu digo fãs eu quero dizer os de verdade, aqueles que curtem até os B-Sides obscuros de sua banda e artista predileto) tendem a torcer o nariz para coletâneas.

Enfim, coletânea para quem é fã é sempre assunto de polêmica, mas é necessário dizer que tem muitas coletâneas que marcaram minha vida. Como já falei neste blog antes, o primeiro contato que eu tive com o rock foi com a coletânea vermelha dos Beatles que pegava do primeiro disco da banda até o Revolver.

Quem nunca quase queimou o toca cd de tanto ouvir repetidamente o disco Legend do Bob Marley? Ou já teve dias ensolarados regados ao excelente Greatest Hits do Police?

Essa lenga-lenga é só para justificar o fato de, pela primeira vez neste blog, eu escrever sobre uma coletânea. E no caso, uma coletânea desta dupla norte-americana que são filhos legítimos e da gema de Nova York.

Paul Simon e Art Garfunkel representam para NY na música o que Woody Allen representa para NY no cinema.

Muitas de suas canções retratam o cotidiano da cidade com verdadeiras crônicas. Uma fotografia em forma de sons e poesias.

Ambos cresceram na comunidade judaica do Brooklin e se conheceram na escola ainda crianças. Encenaram uma peça juntos, ficaram amigos e criaram uma dupla chamada Tom e Jerry, sendo que, se você der uma boa olhada para a fotografia da capa do disco verá que eles estão mais para Pink e Cérebro.

Fizeram um relativo sucesso na cidade. Cresceram, foram para a faculdade e depois de um tempo retomaram as atividades musicais.

Com toda influencia folk da época, gravaram várias músicas acústicas (dentre elas The Sound of Silence) e Paul Simon, talvez decepcionado com a pouca repercussão de seu trabalho, deixou os EUA e foi ganhar a vida na Europa, mais precisamente na Inglaterra, fazendo muitas apresentações ao estilo um banquinho e um violão por vários barzinhos de lá.

Enquanto isso nos EUA, o produtor Tom Wilson pegou a versão até então acústica de The Sound of Silence e adicionou bateria, baixo e guitarra à música. E daí surgiu o grande sucesso que provavelmente foi um dos pontapés iniciais da onda de folk-rock que, num futuro muito próximo, incendiaria toda aquela geração 60/70.

Paul Simon, voltando aos EUA, deparou-se com sua música sendo exaustivamente pedida e tocada nas rádios. Retomou a parceria com Garfunkel e, aproveitando o sucesso, gravaram o álbum devidamente intitulado The Sound of Silence (1966) composto tanto de sons puramente acústicos como ao estilo folk-rock.

Assinaram a trilha sonora de um filme sucesso de bilheteria chamado A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate - 1968) lançando as músicas The Sound of Silence e Mrs. Robinson aos ouvidos do mundo.

Num momento histórico com o planeta prestes a explodir naquele final da década de 60 cheia de revoluções culturais - a guerra fria gelando a espinha dorsal da juventude com a perspectiva de uma guerra atômica e o sangue correndo solto no Vietnã - Simon e Garfunkel cantaram aquela geração com suavidade e beleza letras que ficaram marcadas na memória e no coração de todos os que viveram aqueles anos loucos e inesquecíveis. 

Art Garfunkel e Paul Simon 


É praticamente impossível rodar qualquer filme que retrate aquela época sem uma música deles. Daí filmes como Forrest Gump (1994) e Quase Famosos (Almost Famous - 2000) que não me deixam mentir.

Entre brigas e reconciliações (como é de toda amizade), esta dupla deixou registrados cinco álbuns que certamente irei ter o prazer de degustar e escrever aqui no Mundo Facundo futuramente.

Esta coletânea retrata seus melhores momentos com alguns dos sucessos em versão ao vivo.

Obviamente, como é de toda coletânea, muita coisa boa ficou fora. Mas as que estão no disco (principalmente para aqueles que querem ter um apanhado geral da obra da dupla) tá de bom tamanho.

Simon e Garfunkel entraram em minha história com seu show ao vivo em NY, no Central Park em 19 de setembro de 1981. Faltavam menos de três meses para eu nascer, e lembro que minha mãe ouvia esse disco o tempo todo e cresci com ela falando que esse show foi feito para celebrar o meu nascimento. E eu acreditava piamente nisso!

Isso sempre ficará profundamente tatuado em minha memória.

FAIXA A FAIXA:

1 – Mrs. Robinson (Paul Simon)

Gravada originalmente para o filme A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate – 1968), esta canção rendeu a dupla dois Grammys em 1968 nas categorias: melhor gravação e melhor desempenho nos vocais. E, até então foi o segundo grande sucesso da dupla depois de The Sound of Silence ficando aproximadamente duas semanas no topo do Hot 100 da Billboard.

A música trata da Sra. Robinson, uma típica religiosa fundamentalista americana, que nesta crônica, é a caricatura da mulher de família cheia de segredinhos e submundos por baixo dessa cobertura devota de uma mulher de sociedade acima de qualquer suspeita.

Hide it in a hiding place
Where no one ever goes.
Put it in your pantry with your cupcakes.
It's a little secret,
Just the Robinsons' affair.
Most of all, you've got to hide it
from the kids.

E, se isso não bastasse, a letra ainda dá uma alfinetada no fato de ser exatamente este tipo de gente que determinam os caminhos políticos do país.

Sitting on a sofa
On a Sunday afternoon,
Going to the candidates' debate,
Laugh about it,
Shout about it,
When you've got to choose,
Every way you look at it you lose.

2 – For Emily, Whenever I May Find Her (Paul Simon)

Você já passou pela experiência de ter um sonho maravilhoso com a pessoa que você ama, e ao despertar tem a alegria de perceber a pessoa dos teus sonhos dormindo ao seu lado?

Eu já!

E realmente é algo quase indescritível. Digo quase porque Paul Simon conseguiu descrever isso nesta linda música que, suave e forte, penetra na alma, nos arrebatando ao mais sublime sentimento.

Essa música faz parte do álbum Parsley, Sage, Rosemary & Thyme (1966), e aparece nesta coletânea em versão ao vivo.

And when I awoke
And felt you warm and near
I kissed your honey hair
With my grateful tears

3 – The Boxer (Paul Simon)

Como bom cronista, Paul Simon escreveu essa letra, inspirada em leituras da bíblia onde, em alguns textos, viu refletida a perspectiva de Deus a favor dos trabalhadores e excluídos. 

Somou isso a algumas críticas que vinha recebendo sobre seu trabalho da imprensa americana e narrou nesta canção a história deste personagem (o lutador) que como todos os demais lutadores nesta vida, apesar das intempéries, da pressão e dos adversários que se levantam, continuam na luta diária.

Simon mistura a ideia do ringue à própria vida! O que para mim, marca profundamente minha alma pelo fato de eu estar em um trabalho que envolve alguns riscos.

Trabalhando na semiliberdade de jovens e adolescentes infratores aqui em Fortaleza como educador, ando pensando muito sobre a diferença de ter medo e ser covarde. Ter medo não é problema, e a coragem implica em se enfrentar os problemas em detrimento dos medos interiores. O que é bem diferente da covardia, onde já é o medo mandando no estilo de vida da pessoa.

Então aprendo que, apesar do medo e do perigo, temos que respirar fundo e seguir em frente!

In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of ev'ry glove that layed him down
Or cut him till he cried out
In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving"
But the fighter still remains

4 – The 59th Street Bridge Song (Feelin’Groovy) (Paul Simon)
Sabe aquelas manhãs ensolaradas em que você acorda feliz da vida dando bom dia para tudo? 

Pois é, quando isso acontecer, ligue o som e coloque esta canção a todo volume!

Outra versão ao vivo que entra nesta coletânea.

I've got no deeds to do, no promises to keep
I'm dappled and drowsy and ready to sleep
Let the morning time drop all its petals on me
Life I love you, all is groovy

5 – The Sound Of Silence (Paul Simon)

Primeiro grande sucesso da dupla, The Sound Of Silence ficou conhecido no mundo por, além de ser um dos pontapés iniciais do folk-rock, ainda estar na trilha do filme A Primeira Noite de Um Homem, levando a dupla nova-iorquina ao conhecimento e a apreciação dos ouvidos em todo o mundo!

6 – I Am A Rock (Paul Simon)

Esta também foi uma das acústicas que foram transformadas em folk-rock para entrar no álbum The Sound of Silence e seguiu no rabo do foguete desta tornando-se também um grande sucesso.

Trata-se de um genuíno intelectual urbano. Fechado, introspectivo, onde só encontra verdadeira afinidade na solidão do quarto tendo como companhia livros e poesia.

Eu mesmo passo por momentos de reclusão onde não quero ver ninguém. Preciso da solitude para, digamos, recarregar minha mente, oxigenando-a com muita música e literatura, para aí sim, depois de recarregado, gastar minha alma com as outras pessoas.

Porém, no caso da música, fala de um cara que tem isso como um estilo de vida.

I have my books
And my poetry to protect me;
I am shielded in my armor,
Hiding in my room, safe within my womb.
I touch no one and no one touches me.
I am a rock,
I am an island.

And a rock feels no pain;
And an island never cries.

Conheço pessoas assim. E sinto certa pena. Pois, a princípio, realmente há certo conforto, uma vez que, já que não me exponho para ninguém, corro pouco risco de ser magoado.

Ao mesmo tempo, essa zona de conforto leva à latência emocional que impede o crescimento. 

Somos frutos de nossos erros e acertos. E até a dor pode gerar aprendizado em quem está disposto a ver a vida como uma grande sala de aula.

As experiências ruins devem gerar em nós prudência, e não medo de viver e se relacionar com os outros.

7 – Acarborough Fair / Canticle (Paul Simon & Art Garfunkel)

Agora a dupla adapta uma música do cancioneiro popular inglês onde se conta a história da feira de Acarborough, muito popular na época da Inglaterra medieval.

Tratada aqui numa versão acústica e com a voz da dupla levando a melodia a atmosferas épicas! Na  letra tem o trecho que dá nome ao título do segundo álbum da dupla Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966).

8 – Homeward Bound (Paul Simon)

Outra canção do álbum PSRT e que, de forma magistral, consegue traduzir numa letra inesquecível como é a vida de um músico na estrada.

Hoje até um festival mediano é cheio de superprodução. Porém antes os músicos, mesmo no auge, tinham uma rotina estafante de shows, rodava em vãs apertadas e se hospedavam em muitos hotéis com poucas estrelas. Motivo por muitos sucumbirem às drogas e ao álcool para suportar o rojão de muitos shows.

9 – Bridge Over Troubled Water (Paul Simon)

Se existe uma canção que é capaz de quebrar o mais embrutecido coração, essa canção é Bridge Over Troubled Water, música que dá nome ao álbum lançado em 1970.

Composta numa época bastante conturbada para a dupla, uma vez que Garfunkel estava em muitos outros projetos paralelos que não a música e que, naturalmente, isso afetava bastante a amizade da dupla. E essa música, dizem, Paul Simon fez para o amigo e parceiro.

Ela foi muito impactante em minha vida numa época bastante obscura, cheio de incertezas e inseguranças. E esta deliciosa canção me veio como a voz do próprio Deus me confortando.

If you need a friend
I'm sailing right behind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind

10 – America (Paul Simon)

Não tem uma única vez que eu escute esta canção e não tenha calafrios. Uma música que encaro como um quadro pintando daquela época cheia de idealismo, onde muitos jovens saíam de casa, protestando contra os pais e o sistema, indo numa longa jornada em busca da América.

Todo nostálgico da década de 60 deve emocionar-se ao som desta música. E os que não viveram aqueles bons tempos, mas mesmo assim sonham com aquele momento (como eu!) deve fechar os olhos e sonhar! Sonhar com o verão do amor!

11 – Kathy’s Song (Paul Simon)

Uma canção que certamente é para um amor, ou um dos amores, que Paul Simon deixou na fria e cinzenta Inglaterra.

12 – El Condor Pasa (If I Could) (Paul Simon – J. Milchberg – D. A. Robles)

Aqui você escuta Paul Simon dando asas a sua grande curiosidade por sons de outras culturas (no caso o Peru), com sua versão em inglês da canção do peruano Daniel Robles Alomia. E como toda música peruana, aborda o desejo do homem por um estilo de vida mais natural e menos urbana.

I'd rather be a forest than a street
Yes, I would
If I could
I surely would

I'd rather feel the earth beneath my feet

13 – Bookends (Paul Simon)

Linda música que dá nome ao quarto álbum de estúdio da dupla. Uma suave canção que fala sobre um tempo de inocência que quase todos nós vivenciamos. Essa eterna nostalgia do passado presente na memória de muitos de nós. Como um sonho que já passou.

Preserve your memories, they're all that's left you...

14 – Cecilia (Paul Simon)

Música alegre que fala de uma garota que certamente fez Simon sofrer horrores por conta, digamos, dela ser daquelas que, como diria Raul Seixas:

Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais.

Cecília representa um pouco desta mulher contemporânea que, por ser independente, arrojada e feminista, acabou por absorver do homem a poligamia que ela tanto lutava contra.

Tipo - À partir de agora os homens vão beber de seu próprio veneno!

Making love in the afternoon with Cecilia
Up in my bedroom
I got up to wash my face
When I come back to bed
Someone's taken my place

Claro que, segundo a música, para a alegria do homem de malandra, ela volta pra casa e ama-o novamente.

E ele acredita.

A PREDILETA:

Difícil escolher a predileta de uma coletânea recheada de clássicos.

Porém, hoje mais uma vez vou apelar para o cinema, que é responsável por muitas de minhas descobertas musicais.

No caso, acho que essa é minha cena preferida no cinema.

E digo mais: cena predileta de meu filme predileto!

Trata-se de Quase Famosos (Amoust Famous - 2000) do meu (também) diretor predileto: Cameron Crowe.

Na cena antológica, como era muito comum na década de 60, a filha chega para a mãe e diz que vai sair de casa. E o motivo dela sair de casa está na canção America de Simon and Garfunkel, do álbum Bookends.

Então, à partir daí, a música toma conta da cena.

Em seguida a filha diz para o irmão mais novo que, embaixo da cama tem um presente que o libertará. E quando ele entra no quarto e olha embaixo da cama (bingo!) encontra uma bolsa recheada de discos clássicos do rock!

E para saber como aqueles discos irá mudar a vida dele você vai ter que ver o filme!

Então deixo vocês ao som de America!


26 abril 2011

Uma pancada sincera!


Banda: Rodox
Álbum: Rodox
Ano: 2003
Gravadora: WEA Music / Warner Music


Raimundos, junto com Charlie Brown Jr. e Planet Hemp eram as bandas que bombaram na mídia entre a segunda metade dos anos 90 a começo de 2000. 

Essas bandas certamente embalaram as bebedeiras e traquinagens juvenis de toda uma geração.

Sendo que, pensando mercadologicamente, dessa trindade roqueira Raimundos seguramente encabeçava esse trio.

O ápice dessa ascenção na carreira dos Raimundos foi o quinto álbum Só No Forévis (1999) que emplacou sucessos como Mulher de Fases e A Mais Pedida nas fm’s de todo Brasil.

Não sei dizer se o choque do público com o anúncio do fim dos Raimundos e a conversão do vocalista Rodolfo Abrantes ao cristianismo foi forte pelo tipo de letras que os Raimundos cantavam  ou por conta do cara ter pulado fora da banda no momento auge em que os Raimundos finalmente tinham caído nas graças do povão e da indústria fonográfica tornando-se a banda mais lucrativa naquele momento.

Enfim, acabou que, como era de se esperar, a mídia tornou a coisa toda um grande circo. Sendo que, já que em todo pastelão melodramático precisa de um vilão, o bode expiatório escolhido foi o pivô disso tudo: Rodolfo.

E, diante disso, confesso que eu mesmo, como fã da banda, era um dos muitos inconformados que, implacavel, julgou o cara como louco, sem noção, irresponsável, covarde, fanático e por aí vai.

Numa das poucas entrevistas que eu vi Rodolfo falar a um programa de tv naquela época, ele disse, dentre muitas coisas, que não estava mais feliz com a antiga banda, que a ideologia de vida não batia mais com os estilos de letras, e que estava num novo projeto musical que, segundo ele, tinha a sonoridade mais pesada que os Raimundos.

Foi inevitável minha risadinha cínica diante da tv com aquele pensamento: 

- Essa eu pago pra ver!

Daí, pouco depois, entrou nas prateleiras o projeto Rodox com o álbum Estreito (2001) que, com esse título, já dava para o público a idéia clara de um desabafo, seguido de carregada auto-afirmação.

Engoli meu riso cínico na primeira audição quando ouvi esse disco pancada recheada de hardcore melódico, new metal e punk californiano (e até ska).

Podem falar tudo de Rodolfo Abrantes, menos que o cara não é sincero. Sinceridade (para o bem ou para o mal) é algo notável a qualquer olhar superficial na carreira do cara.

Até nos Raimundos!

Rodolfo tinha uma vida exatamente compatível com as letras que cantava. Quando ele recitava Eu queria ser o banquinho da bicicleta pra ficar bem no meio das pernas e sentir o seu ânus suar, certamente ele estava na praia e viu uma gostosa pedalando deliciosamente em sua bike, foi pra casa e escreveu aquela estrofe.

O tempo passa, as pessoas mudam e vão vivenciando novas perspectivas e aprendizados.

O showbiz transformou esse cara divertido, mulherengo e cachaceiro em um cidadão de casamento fracassado, drogado e com sérios problemas de saúde. Esse era o quadro de Rodolfo na turnê do Só No Forévis.

Rodolfo encontrou na igreja e nos ensinamentos dos evangelhos de Cristo uma solução e resposta para muitos dos conflitos interiores que ele estava passando. O que fez mudar a sua forma de ver as coisas, e principalmente, escrever sobre as coisas.

Em inúmeras entrevistas, Rodolfo afirma que a idéia não era sair dos Raimundos, mas cantar sobre outros assuntos mais sérios, o que foi implacavelmente barrado pela gravadora. Uma vez que, no que diz respeito a Raimundos, a única ideologia que se tem que ter é a putaria!

Então você imagina como deve ser para um cara que passa a curtir uma vida mais religiosa, a olhar para o mundo de uma forma mais reflexiva e lutando para reconstruir um casamento subir num palco e cantar Ei mãe, vê se me manda um dinheiro pois tô no banheiro e num tem nem papel pra cagá.

Lembro muito dos fãs mais xiitas do Pearl Jam que acham que a banda só tem alma até o Vitalogy (1994) pelo fato dos caras terem amadurecido e não cantarem mais o quanto deve ser irádo entrar na sala de aula e estourar os miolos na frente dos colegas.

Já imaginou Eddie Vedder, pai de família na casa dos 40 cantando Eu odeio meus pais, quero jogar games e andar de skate!? Há, francamente!

Gosto até hoje dos Raimundos e gosto muito do Rodox. Encaro ambas como recortes de momentos na vida de um artista, e na minha própria vida. 

Hoje quando escuto Raimundos sou transportado a uma época maravilhosa de colégio. 

Lembro de como era bom aquele tempo em que a minhas preocupações eram tirar nota boa nas provas bimestrais, decidir onde  passar o fim de semana e se eu tinha alguma chance de dar uns pegas na garota mais gata da sala.

Rodox, ao contrário, traz uma reflexão exatamente dentro de minhas circunstâncias atuais. O que fazer com o futuro, como se desprender de coisas não relevantes do passado e ter segurança de que, apesar de difícil, vale à pena olhar para o futuro com esperança é uma constante nas letras.


Rodox
Pancadas Positivas

E muito dessa ideia está no segundo álbum  Rodox (2003).


Pode-se considerar que, por trazer no título o nome da banda e a capa propositadamente ostentar um super motor de 3 cilindros de um Maverick de arrancada, dá-se a clara intenção de que, a partir de então, Rodox deixa de ser um projeto solo do Rodolfo e passa a ser uma banda.

Se Estreito tem como foco a espiritualidade, Rodox traz em sua raiz a temática do amor e esperança. Sem dúvida é um álbum bem pra cima. Uma descarga elétrica de esperança para o coração mais triste e moribundo.

Para mim, particularmente, esse álbum vai ser sempre lembrado como um grande ombro amigo que eu encontrei num período em que me encontrava sentimentalmente ferrado por conta de um fim de namoro. 

Este disco foi a melhor coisa que apareceu para consolar e massagear o ego do meu pobre cotovelo calejado. É aquele amigo que chega pra você, dá um tapinha no teu ombro e diz:

- Eu sei que é foda cara, mas fica assim não, a vida continua camarada, olha pra frente que tem muita coisa bacana aí pra acontecer com você!

Hoje, sete anos depois, posso afirmar com toda segurança que o álbum tinha razão!

O que faz de Rodox um item obrigatório no kit de sobrevivência do infeliz que enfrenta um doloroso fim de relacionamento. Ou qualquer outra situação difícil pelo qual você esteja atravessando por conta de algum infortúnio do destino.

A vida vai te ensinar
Que um sonho ruim
Não dura pra sempre, baby

Infelizmente o Rodox teve um futuro curto. 

Por conta de incompatibilidade ideológica do Rodolfo com os outros membros, a banda oficialmente acabou no dia 7 de agosto de 2004 num show em Salvador quando o batera Fernando Schaefer  interrompeu o show abruptamente dando um chute na bateria e saindo do palco. Daí a banda toda retirou-se em seguida, e Rodolfo foi ao microfone anunciando que o projeto Rodox estava encerrando definitivamente suas atividades.

Se nos Raimundos o Rodolfo já não se enquadrava no estilo de ser da banda, agora no Rodox era a banda que não conseguia se enquadrar ao estilo de vida e fé do Rodolfo.

Como já era de se prever, com o fim da banda Rodolfo entrou mais ainda de cabeça na igreja (Bola de Neve) e em 2006 lançou seu disco, digamos, com uma abordagem mais congregacional chamado Santidade ao Senhor(2006).

Mesmo com apenas dois álbuns, Rodox foi um projeto com resultado positivo, consistente e sincero.

Sincera como a vida e as escolhas estreitas que o próprio Rodolfo traçou em sua conturbada e intensa trajetória.

FAIXA A FAIXA:

1 – Segue a Linha

Nesta primeira faixa, com alguns efeitos eletrônicos seguidos de um rock cheio de peso, Rodolfo vocifera a que veio:

Livre da carcaça
E do peso que a mentira tem
Quem sabe de onde vem
Tem uma visão que nunca embaça
Pois fala o que acredita
E não se vende
E mostra atitude pra fazer
O que vendido não entende

Tendo como pano de fundo musical toda potencia de um brutamontes castigando a bateria e riffs de guitarras alucinadamente pesadas como chumbo.

O mais legal é que, apesar do peso do som, o Rodox consegue conservar uma coesão melódica que agrada aos ouvidos.

2 – De Costas Para o Mar

O som, definitivamente lembra muito Raimundos. Principalmente a fase do disco Lapadas do Povo (1997), que era meu predileto.

Na letra, para quem tem uma mínima vivência religiosa, nota-se uma espécie de oração.

Essa sublimação no apelo cristão das letras do Rodox é algo dos mais interessantes. Para quem tem certa afinidade com o cristianismo irá notar perfeitamente o evangelho nas entrelinhas das letras.

No meu caso, quando ouvia coisas do tipo...

Vou ficar de costas para o mar
Pra ver se ele me leva
Pra perto de você

Vou tentar pensar em ti
E talvez perder o que me deixa
Tão longe de você

...era inevitável que a única coisa que passasse pela minha cabeça fosse minha situação de estar longe dela.

3 – Mais e Mais

Música pancada com uma letra que espancava meu então dilacerado coração!

Nada é tão ruim quanto aprender
A esquecer de quem se aprende a gostar
Se eu desisto vou pôr a perder
A chance de te ter como meu par

Lembro que quando escutava isso pensava:

- De onde esse cara me conhece?

4 – Incinerador

Aqui um punk rock violento com uma letra cantada como um testemunho de vida do Rodolfo.

Contra o vento, contra o invasor
Levantei a mão
Nova lei me deu nova visão

No meu caso, a parte da letra que mais fez sentido pra mim foi:

Como incinerador
Meu dom pode queimar
Eu não fiz da saudade o meu refém
Quando eu arranquei o fio que me prende

5 – Inflexível

Um hardcore carregado da idéia de que, para que as coisas possam funcionar bem, é necessário olhar para dentro de si mesmo e...

Ver se ainda existe
Alguma parte da engrenagem
Que quer cultivar ferrugem

6 – Beach Punx

Definitivamente a música mais feliz do disco. Gosto particularmente muito dela. O som perfeito para você começar o dia antes de enfrentar a correria de trabalho ou estudos. Ela tem esse poder de te deixar pra cima, acreditando que, por pior que as coisas na vida fiquem difíceis, sempre há a possibilidade de, com esperança, aguardar dias melhores.

Nem todo vento traz
Frieza e tempestade
Mesmo que não seja agora
Não é tão difícil assim imaginar

Depois de uma sequencia de positividade, entra a parte da letra em que ele sugere fazer sua mente decolar. Daí o som muda e te leva, junto a melodia da guitarra, a viajar por espaços ainda não explorados por sua percepção.

A vida inteira eu quis voar
O que pesava demais eu deixei
E fiz minha mente decolar

7 – Exodus

A pancada dessa versão hardcore furiosa do Rodox para a musica do Bob Marley foi tão pesada que, dizem, Bob Marley ressuscitou e perambulou atordoado durante uns dois dias nos arredores de Nine Mile (Jamaica) onde foi enterrado.

8 – Iluminado

Aqui Rodolfo afirma, categoricamente, em que consiste seu som e sua música (peso e espiritualidade) chamando a atenção para o fato de não se tornar escravo, ou pior, personagem de sua própria imagem construída para os outros e para si mesmo.

Viver não só de imagem
Um personagem da vida real

9 – Foi Bom Esperar

Segunda música de trabalho do álbum, no clipe dela tem a participação no baixo do Canisso, antigo companheiro do Raimundos.

Essa é uma de minhas músicas preferidas deste álbum!

Foi bom esperar
Pra que pudesse enxergar
Que o que a gente leva no fim
É a verdade

10 -  Truth

O som é uma bomba sonora nos tímpanos mais resistentes! Com letra em inglês, ela trada da busca de transcender o pensamento para as coisas espirituais, deixando as terrenas um pouco de lado por serem passageiras e não eternas.

Let your soul
Fly away
Let it flow
In your veins

11 – Na Mesma Panela

Quando falei de todo o circo que se criou entre mídia e os fãns dos Raimundos em torno da conversão do Rodolfo, com todos os julgamentos e pré-conceitos, esta letra desabafa (e nem sei se essa foi a intenção dele) a ideia de que o tempo mostrou quem realmente era o inimigo. 

É uma celebração de algo positivo que agora ele vive, em detrimento de toda negatividade que veio tentar atrapalhar essa caminhada.

Em cada parte boa da minha vida eu lembrarei
Do lixo que por te escutar
Eu quase me tornei
Pega suas coisas, sai voado
Não tem goela
Vai cozinhar com os trouxas
Que te ouvem na mesma panela

12 – 1000 Megatons

O título diz tudo, é exatamente a sensação que você tem quando está ouvindo essa música no último volume no seu som, como se estivesse em meio a uma explosão.

Digamos que essa seja a música mais explicitamente cristã desse disco, onde finalmente ele dá nome aos bois no que diz respeito ao condutor de toda sua força e ideologia:

Deus!

A PREDILETA:

Por tudo que essa música significou para mim em tempos turbulentos, escolho Beach Punx!

Espero que ela encha sua vida de esperança e positividade como encheu a minha!


Ouça Beach Punx no vídeo abaixo!