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02 fevereiro 2013

Resenha (Filme's): O impossível (EUA/Espanha - 2012)


Filme: O impossível (EUA/Espanha - 2012)
Diretor: Juan Antonio Bayona
Estúdio/Produtora: Paris Filmes, Apaches Entertainment, Telecinco Cinema

Engraçado pensar na morte. Depois dessa terrível tragédia em Santa Maria (RS), onde mais de 130 jovens morreram asfixiados pela fumaça tóxica gerada por um incêndio causado por um efeito pirotécnico que deu errado no palco, eu fiquei pensando que, de fato, a morte na maioria dos casos aparece de forma imprevisível. Enquanto muita gente morre de medo de avião (dentre os quais eu me incluo) por medo de um desastre, você têm uma tragédia dessas acontecendo em uma boate onde, de fato, a morte é a última coisa que alguém acha que pode encontrar lá. Aliás, a morte não tem um pingo de educação, chega sem avisar.

Comecei o texto dessa forma um tanto sombria por conta do que se trata esse filme. Em 2004 um tsunami gerado por um terremoto no fundo do mar, varreu uma boa parte da costa da Ásia, matando mais de 230.000 pessoas. Uma tragédia sem proporções. E, na perspectiva das vítimas como ela (a morte) chegou? Num dia lindo de sol, em algum hotel paradisíaco. Quem poderia imaginar? Quem?

Pois o excelente filme O impossível trata desta tragédia. No caso, a história real de uma família sobrevivente.

Já tinha visto uma abordagem desse tsunami no filme Além da vida (EUA - 2010), de Clint Eastwood, com efeitos espetaculares (tanto que concorreu ao Oscar na categoria efeitos especiais). Lembro que no cinema eu fiquei me segurando na poltrona de tão tenso.

Pois os efeitos especiais desse O impossível potencializa umas 10 vezes os efeitos do Além da vida. É assustador e muito real. Realmente eles conseguiram chegar bem perto do que deve ter sido para as vítimas passar por essa onda de lama e destroços inundando a costa da Ásia. E principalmente, retrata o pós-tragédia. A multidão de feridos em hospitais precárias. A busca das famílias por desaparecidos. Um caos sem proporções.

Em específico os personagens do filme, essa família realmente teve muita sorte. E digo sorte mesmo! Daí o título do filme, O impossível.

Enfim, apesar dos claros apelos emocionais para fazer o público chorar, os atores estão ótimos. Em especial a atriz Naomi Watts que, inclusive, está concorrendo ao Oscar na categoria melhor atriz. E também para o ator mirim Tom Holland que estava simplesmente bárbaro! Esse garoto certamente merece ser acompanhado com muita atenção nos próximos filmes em que for atuar. É certamente uma promessa!

Lembro que muitos meses antes de ver esse filme o trailer foi disponibilizado. Quando eu vi alguns momentos dos efeitos especiais, e tudo isso ao som de "One" do U2, caramba, desde então fiquei esperando esse filme ser lançado contando os segundos. E saí da sala de cinema impactado, tanto pela realidade visceral que foi essa tragédia, quanto pela emoção de perceber o calor humano, a solidariedade e o altruísmo de muitos personagens sem nome que passam pelo filme representando muitos heróis que nunca vão ser conhecidos, mas certamente fizeram diferença na vida de muita gente após essa lamentável tragédia.

Assista abaixo o trailer do filme O impossível:


* * *

Interlúdio Teológico

Onde estava Deus?

Não sou teólogo, nem um profundo conhecedor das religiões. Mas uma coisa que me chamou muito a atenção após essa tragédia foi um sem número de pessoas ditas religiosas atribuindo a Deus o que aconteceu na Ásia. Sabe, aquelas coisas bem mesquinhas do tipo: "Foi o dedo de Deus!"

Isso me dá calafrios!

Será mesmo que Deus é o responsável direto por tamanha catástrofe? Porquê ele faria uma coisa dessas?

Alguns disseram que é por conta da Ásia ser pagã... Mas, como assim? Se Deus (se é que ele existe) fosse levar a fundo seus elevados padrões de conduta humana, qual lugar nessa bolinha suja e redonda perdido no espaço não mereceria uma bela ondinha? O Brasil então nem se fala... E é ainda pior, pois sendo um dos países mais corruptos do mundo, com uma desigualdade social gigantesca, e violência e vulgaridade a todo vapor, se confessa 90% cristão. E aí meu caro Watson?

Tenho um amigo que perdeu duas pessoas da família para um desastre de automóvel. Eu estava perto dele quando alguém chegou para consolá-lo e perguntou:

- Você está com raiva de Deus?

No que ele respondeu:

- Não, estou com raiva da física (por conta da força centrifuga) e do motorista bêbado que não conseguiu controlar aquele maldito carro.

Acho muito idiota quem acha que, por ser cristão, tem a ilusão de ter em volta um campo de força que bloqueie qualquer tipo de acidente, tragédia, doença ou qualquer coisa negativa. Se for pensar assim, o próprio Jesus foi o maior dos derrotados, pois o mesmo (como eu, você e toda torcida do flamengo sabem) foi, no auge dos seus 33 anos, brutal e injustamente assassinado pelos religiosos e, claro, Roma.

Que dirá então da primeira geração de discípulos? Ou até mesmo da segunda geração, que boa parte terminou como ração para os leões das arenas? Se converter nos três primeiros séculos de cristianismo era literalmente assinar a própria sentença de morte.

Essa coisa de triunfar em tudo, de ser vitorioso e intocável, essa teologia extremamente materialista e, porque não dizer, interesseira, é fruto da própria cosmovisão do ocidente, que por sua natureza é utilitarista e gananciosa. Não adoram a Deus pelo que ele é, mas por aquelo que ele pode oferecer. Um deus que parece mais com o papai Noel (que recompensa os bem comportados) do que o Messias sofredor, que nos ensinou que, independente dos sofrimentos aqui, podemos guardar a esperança de que, encontrar a vida é algo que alimenta uma real esperança naquilo que transcende a matéria.

Em tese, a morte não deveria ser A (bem maiúsculo mesmo) grande questão para o cristão. E nisso temos muito o que aprender com o oriente.

Em um contexto hedonista como o nosso, falar de uma esperança no pós-morte é quase uma blasfêmia.

Para os saudáveis em bem-sucedidos sim, a vida após a morte é um assunto horroroso. Mas para os moribundos dos hospitais, as vítimas da tirania, os famintos em lugares desolados do mundo, para quem está a margem do capital, esse assunto, particularmente, pode vir a ser de grande interesse.

Mas ainda insisto na pergunta: Onde estava Deus no tsunami de 2004?

Talvez no coração de centenas de médicos e enfermeiros que viajaram continentes para, voluntariamente, ajudar as vítimas. No coração de pessoas que distribuíram água, remédios, banho, comida, organizaram lista de desaparecidos, anônimos ajudando gente que nunca viu na vida.

Então a resposta está no homem?

Sim!

Quase todos os ateus que eu conheço não o são por contemplação. A maioria é decepcionado com a religião (com toda razão!) e com as atrocidades que os homens fazem em nome de Deus (inquisição, alienação, corrupção, e a lista segue, e é grande).

Da mesma forma não acredito em nenhuma garota que ache que todo homem é cachorro apenas baseada em um sincero estudo antropológico. Nada disso! Todas as garotas que eu conheço que não acreditam mais nos homens passaram uma ou mais vezes por mãos de caras cafajestes.

Se Deus existir, ele deixou sua reputação muito fragilizada quando escolheu os homens para serem seus porta-vozes. Se Deus for tão idiota ou intolerante quanto a maioria dos cristãos que eu conheço, acho que até eu me tornaria ateu também.

A situação de Deus é bem complicada... Se delega sua mensagens aos homens, corre o risco de deturparem  seus princípios e sua natureza (e estão aí os livros de história como testemunhas). Se resolve aparecer com toda a sua potência e poder vai, muito provavelmente, ser seguido muito mais por medo do que por sinceridade. A experiência do êxodo está aí em sua bíblia como prova de que soberania não é garantia de nada. O poder demonstrado para proteção do povo não é garantia nenhuma de manter o coração da nação fiel.

E se isso ainda não bastasse, quando uma catástrofe acontece, temos o hábito de explicar essas tragédias como vontade (ativa ou permissiva) de Deus. Herança direta dos medievais. Não aprendemos nada com os erros do passado.

Coitado de Deus!

Eu não queria estar na pele D'ele, sinceramente...

Então, nas mãos do homem está todo o poder de aproximar ou afastar alguém de Deus e suas virtudes. As nossas palavras e nossas ações podem ser fonte de vida ou morte para alguém. E não me reviro a vida e morte apenas na questão orgânica da coisa.

Você, ó desocupado leitor, tem em suas mãos o poder de matar ou ressuscitar sonhos, matar ou ressuscitar a capacidade de amar, matar ou ressuscitar a alegria, a fé, a esperança na vida de muitos. A escolha é nossa!

Termino aqui citando um exemplo de um crime bárbaro que aconteceu na periferia de Fortaleza uns anos atrás. Uma linda criança foi brutalmente estuprada e assassinada no bairro Conjunto Ceará. Os pais dela eram cristãos fervorosos. O assassino sequestrou ela na igreja e a matou.

Onde estava Jesus quando essa criança foi assassinada?

No que o pai, para toda a imprensa ouvir consternada, respondeu:

- Onde estava não sei. Mas sei com absoluta certeza onde Ele não estava! E com certeza sei que Jesus não estava no coração daquele assassino.

E aqui termino minha tagarelice.

"Assim, quando este corpo mortal se vestir com o que é imortal, quando este corpo que morre se vestir com o que não pode morrer, então acontecerá o que as Escrituras Sagradas dizem:
A morte está destruída!
A vitória é completa!

Onde está, ó morte, a sua vitória?
Onde está, ó morte, o seu poder de ferir?"
1 Coríntios 15: 54-55

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