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26 abril 2011

Uma pancada sincera!


Banda: Rodox
Álbum: Rodox
Ano: 2003
Gravadora: WEA Music / Warner Music


Raimundos, junto com Charlie Brown Jr. e Planet Hemp eram as bandas que bombaram na mídia entre a segunda metade dos anos 90 a começo de 2000. 

Essas bandas certamente embalaram as bebedeiras e traquinagens juvenis de toda uma geração.

Sendo que, pensando mercadologicamente, dessa trindade roqueira Raimundos seguramente encabeçava esse trio.

O ápice dessa ascenção na carreira dos Raimundos foi o quinto álbum Só No Forévis (1999) que emplacou sucessos como Mulher de Fases e A Mais Pedida nas fm’s de todo Brasil.

Não sei dizer se o choque do público com o anúncio do fim dos Raimundos e a conversão do vocalista Rodolfo Abrantes ao cristianismo foi forte pelo tipo de letras que os Raimundos cantavam  ou por conta do cara ter pulado fora da banda no momento auge em que os Raimundos finalmente tinham caído nas graças do povão e da indústria fonográfica tornando-se a banda mais lucrativa naquele momento.

Enfim, acabou que, como era de se esperar, a mídia tornou a coisa toda um grande circo. Sendo que, já que em todo pastelão melodramático precisa de um vilão, o bode expiatório escolhido foi o pivô disso tudo: Rodolfo.

E, diante disso, confesso que eu mesmo, como fã da banda, era um dos muitos inconformados que, implacavel, julgou o cara como louco, sem noção, irresponsável, covarde, fanático e por aí vai.

Numa das poucas entrevistas que eu vi Rodolfo falar a um programa de tv naquela época, ele disse, dentre muitas coisas, que não estava mais feliz com a antiga banda, que a ideologia de vida não batia mais com os estilos de letras, e que estava num novo projeto musical que, segundo ele, tinha a sonoridade mais pesada que os Raimundos.

Foi inevitável minha risadinha cínica diante da tv com aquele pensamento: 

- Essa eu pago pra ver!

Daí, pouco depois, entrou nas prateleiras o projeto Rodox com o álbum Estreito (2001) que, com esse título, já dava para o público a idéia clara de um desabafo, seguido de carregada auto-afirmação.

Engoli meu riso cínico na primeira audição quando ouvi esse disco pancada recheada de hardcore melódico, new metal e punk californiano (e até ska).

Podem falar tudo de Rodolfo Abrantes, menos que o cara não é sincero. Sinceridade (para o bem ou para o mal) é algo notável a qualquer olhar superficial na carreira do cara.

Até nos Raimundos!

Rodolfo tinha uma vida exatamente compatível com as letras que cantava. Quando ele recitava Eu queria ser o banquinho da bicicleta pra ficar bem no meio das pernas e sentir o seu ânus suar, certamente ele estava na praia e viu uma gostosa pedalando deliciosamente em sua bike, foi pra casa e escreveu aquela estrofe.

O tempo passa, as pessoas mudam e vão vivenciando novas perspectivas e aprendizados.

O showbiz transformou esse cara divertido, mulherengo e cachaceiro em um cidadão de casamento fracassado, drogado e com sérios problemas de saúde. Esse era o quadro de Rodolfo na turnê do Só No Forévis.

Rodolfo encontrou na igreja e nos ensinamentos dos evangelhos de Cristo uma solução e resposta para muitos dos conflitos interiores que ele estava passando. O que fez mudar a sua forma de ver as coisas, e principalmente, escrever sobre as coisas.

Em inúmeras entrevistas, Rodolfo afirma que a idéia não era sair dos Raimundos, mas cantar sobre outros assuntos mais sérios, o que foi implacavelmente barrado pela gravadora. Uma vez que, no que diz respeito a Raimundos, a única ideologia que se tem que ter é a putaria!

Então você imagina como deve ser para um cara que passa a curtir uma vida mais religiosa, a olhar para o mundo de uma forma mais reflexiva e lutando para reconstruir um casamento subir num palco e cantar Ei mãe, vê se me manda um dinheiro pois tô no banheiro e num tem nem papel pra cagá.

Lembro muito dos fãs mais xiitas do Pearl Jam que acham que a banda só tem alma até o Vitalogy (1994) pelo fato dos caras terem amadurecido e não cantarem mais o quanto deve ser irádo entrar na sala de aula e estourar os miolos na frente dos colegas.

Já imaginou Eddie Vedder, pai de família na casa dos 40 cantando Eu odeio meus pais, quero jogar games e andar de skate!? Há, francamente!

Gosto até hoje dos Raimundos e gosto muito do Rodox. Encaro ambas como recortes de momentos na vida de um artista, e na minha própria vida. 

Hoje quando escuto Raimundos sou transportado a uma época maravilhosa de colégio. 

Lembro de como era bom aquele tempo em que a minhas preocupações eram tirar nota boa nas provas bimestrais, decidir onde  passar o fim de semana e se eu tinha alguma chance de dar uns pegas na garota mais gata da sala.

Rodox, ao contrário, traz uma reflexão exatamente dentro de minhas circunstâncias atuais. O que fazer com o futuro, como se desprender de coisas não relevantes do passado e ter segurança de que, apesar de difícil, vale à pena olhar para o futuro com esperança é uma constante nas letras.


Rodox
Pancadas Positivas

E muito dessa ideia está no segundo álbum  Rodox (2003).


Pode-se considerar que, por trazer no título o nome da banda e a capa propositadamente ostentar um super motor de 3 cilindros de um Maverick de arrancada, dá-se a clara intenção de que, a partir de então, Rodox deixa de ser um projeto solo do Rodolfo e passa a ser uma banda.

Se Estreito tem como foco a espiritualidade, Rodox traz em sua raiz a temática do amor e esperança. Sem dúvida é um álbum bem pra cima. Uma descarga elétrica de esperança para o coração mais triste e moribundo.

Para mim, particularmente, esse álbum vai ser sempre lembrado como um grande ombro amigo que eu encontrei num período em que me encontrava sentimentalmente ferrado por conta de um fim de namoro. 

Este disco foi a melhor coisa que apareceu para consolar e massagear o ego do meu pobre cotovelo calejado. É aquele amigo que chega pra você, dá um tapinha no teu ombro e diz:

- Eu sei que é foda cara, mas fica assim não, a vida continua camarada, olha pra frente que tem muita coisa bacana aí pra acontecer com você!

Hoje, sete anos depois, posso afirmar com toda segurança que o álbum tinha razão!

O que faz de Rodox um item obrigatório no kit de sobrevivência do infeliz que enfrenta um doloroso fim de relacionamento. Ou qualquer outra situação difícil pelo qual você esteja atravessando por conta de algum infortúnio do destino.

A vida vai te ensinar
Que um sonho ruim
Não dura pra sempre, baby

Infelizmente o Rodox teve um futuro curto. 

Por conta de incompatibilidade ideológica do Rodolfo com os outros membros, a banda oficialmente acabou no dia 7 de agosto de 2004 num show em Salvador quando o batera Fernando Schaefer  interrompeu o show abruptamente dando um chute na bateria e saindo do palco. Daí a banda toda retirou-se em seguida, e Rodolfo foi ao microfone anunciando que o projeto Rodox estava encerrando definitivamente suas atividades.

Se nos Raimundos o Rodolfo já não se enquadrava no estilo de ser da banda, agora no Rodox era a banda que não conseguia se enquadrar ao estilo de vida e fé do Rodolfo.

Como já era de se prever, com o fim da banda Rodolfo entrou mais ainda de cabeça na igreja (Bola de Neve) e em 2006 lançou seu disco, digamos, com uma abordagem mais congregacional chamado Santidade ao Senhor(2006).

Mesmo com apenas dois álbuns, Rodox foi um projeto com resultado positivo, consistente e sincero.

Sincera como a vida e as escolhas estreitas que o próprio Rodolfo traçou em sua conturbada e intensa trajetória.

FAIXA A FAIXA:

1 – Segue a Linha

Nesta primeira faixa, com alguns efeitos eletrônicos seguidos de um rock cheio de peso, Rodolfo vocifera a que veio:

Livre da carcaça
E do peso que a mentira tem
Quem sabe de onde vem
Tem uma visão que nunca embaça
Pois fala o que acredita
E não se vende
E mostra atitude pra fazer
O que vendido não entende

Tendo como pano de fundo musical toda potencia de um brutamontes castigando a bateria e riffs de guitarras alucinadamente pesadas como chumbo.

O mais legal é que, apesar do peso do som, o Rodox consegue conservar uma coesão melódica que agrada aos ouvidos.

2 – De Costas Para o Mar

O som, definitivamente lembra muito Raimundos. Principalmente a fase do disco Lapadas do Povo (1997), que era meu predileto.

Na letra, para quem tem uma mínima vivência religiosa, nota-se uma espécie de oração.

Essa sublimação no apelo cristão das letras do Rodox é algo dos mais interessantes. Para quem tem certa afinidade com o cristianismo irá notar perfeitamente o evangelho nas entrelinhas das letras.

No meu caso, quando ouvia coisas do tipo...

Vou ficar de costas para o mar
Pra ver se ele me leva
Pra perto de você

Vou tentar pensar em ti
E talvez perder o que me deixa
Tão longe de você

...era inevitável que a única coisa que passasse pela minha cabeça fosse minha situação de estar longe dela.

3 – Mais e Mais

Música pancada com uma letra que espancava meu então dilacerado coração!

Nada é tão ruim quanto aprender
A esquecer de quem se aprende a gostar
Se eu desisto vou pôr a perder
A chance de te ter como meu par

Lembro que quando escutava isso pensava:

- De onde esse cara me conhece?

4 – Incinerador

Aqui um punk rock violento com uma letra cantada como um testemunho de vida do Rodolfo.

Contra o vento, contra o invasor
Levantei a mão
Nova lei me deu nova visão

No meu caso, a parte da letra que mais fez sentido pra mim foi:

Como incinerador
Meu dom pode queimar
Eu não fiz da saudade o meu refém
Quando eu arranquei o fio que me prende

5 – Inflexível

Um hardcore carregado da idéia de que, para que as coisas possam funcionar bem, é necessário olhar para dentro de si mesmo e...

Ver se ainda existe
Alguma parte da engrenagem
Que quer cultivar ferrugem

6 – Beach Punx

Definitivamente a música mais feliz do disco. Gosto particularmente muito dela. O som perfeito para você começar o dia antes de enfrentar a correria de trabalho ou estudos. Ela tem esse poder de te deixar pra cima, acreditando que, por pior que as coisas na vida fiquem difíceis, sempre há a possibilidade de, com esperança, aguardar dias melhores.

Nem todo vento traz
Frieza e tempestade
Mesmo que não seja agora
Não é tão difícil assim imaginar

Depois de uma sequencia de positividade, entra a parte da letra em que ele sugere fazer sua mente decolar. Daí o som muda e te leva, junto a melodia da guitarra, a viajar por espaços ainda não explorados por sua percepção.

A vida inteira eu quis voar
O que pesava demais eu deixei
E fiz minha mente decolar

7 – Exodus

A pancada dessa versão hardcore furiosa do Rodox para a musica do Bob Marley foi tão pesada que, dizem, Bob Marley ressuscitou e perambulou atordoado durante uns dois dias nos arredores de Nine Mile (Jamaica) onde foi enterrado.

8 – Iluminado

Aqui Rodolfo afirma, categoricamente, em que consiste seu som e sua música (peso e espiritualidade) chamando a atenção para o fato de não se tornar escravo, ou pior, personagem de sua própria imagem construída para os outros e para si mesmo.

Viver não só de imagem
Um personagem da vida real

9 – Foi Bom Esperar

Segunda música de trabalho do álbum, no clipe dela tem a participação no baixo do Canisso, antigo companheiro do Raimundos.

Essa é uma de minhas músicas preferidas deste álbum!

Foi bom esperar
Pra que pudesse enxergar
Que o que a gente leva no fim
É a verdade

10 -  Truth

O som é uma bomba sonora nos tímpanos mais resistentes! Com letra em inglês, ela trada da busca de transcender o pensamento para as coisas espirituais, deixando as terrenas um pouco de lado por serem passageiras e não eternas.

Let your soul
Fly away
Let it flow
In your veins

11 – Na Mesma Panela

Quando falei de todo o circo que se criou entre mídia e os fãns dos Raimundos em torno da conversão do Rodolfo, com todos os julgamentos e pré-conceitos, esta letra desabafa (e nem sei se essa foi a intenção dele) a ideia de que o tempo mostrou quem realmente era o inimigo. 

É uma celebração de algo positivo que agora ele vive, em detrimento de toda negatividade que veio tentar atrapalhar essa caminhada.

Em cada parte boa da minha vida eu lembrarei
Do lixo que por te escutar
Eu quase me tornei
Pega suas coisas, sai voado
Não tem goela
Vai cozinhar com os trouxas
Que te ouvem na mesma panela

12 – 1000 Megatons

O título diz tudo, é exatamente a sensação que você tem quando está ouvindo essa música no último volume no seu som, como se estivesse em meio a uma explosão.

Digamos que essa seja a música mais explicitamente cristã desse disco, onde finalmente ele dá nome aos bois no que diz respeito ao condutor de toda sua força e ideologia:

Deus!

A PREDILETA:

Por tudo que essa música significou para mim em tempos turbulentos, escolho Beach Punx!

Espero que ela encha sua vida de esperança e positividade como encheu a minha!


Ouça Beach Punx no vídeo abaixo!

18 fevereiro 2011

A Palavra de Deus e as palavras dos homens


Livro: História Sagrada
Autor: Irmãos Maristas
Editora: Editora do Brasil
Ano: 1926
Páginas: 364

Para todo aventureiro que se coloca diante do desafio de ler a Bíblia inteira, é natural sentir por antecipação uma sensação de fadiga similar a alpinistas diante do Monte Everest. 

E não é à toa esse cansaço antecipado. 

Eu já devo ter lido a Bíblia umas quatro vezes, e sei como é monótono e cansativo em muitos trechos. Principalmente nas intermináveis genealogias (judeus adoram essas coisas!) e nos detalhes minuciosos de cada construção ou empreendimento feito por eles.

É aquela coisa, você tem que ler sem perspectiva de prazos. Às vezes em uma sentada você lê várias páginas. Em outras tantas parece que tem sonífero nas letras e você passa dias para avançar dez páginas.

E assim vai.

De qualquer forma, assim como para todo muçulmano é imprescindível pelo menos uma vez na vida ir à Meca, acho que pelo menos uma vez na vida o cristão deve ler as Escrituras. Até porque é meio incoerente você dizer que acredita em um documento que não leu.

Já devo ter falado sobre isso umas tantas vezes neste blog, mas mesmo assim nunca é demais falar de novo. Durante toda a história da religião judaico/cristã estabeleceu-se a cultura de existir os textos sagrados e as pessoas sagradas que interpretam os textos sagrados para o rebanho não tão sagrado assim.

No filme Baby, Um Porquinho Atrapalhado, as ovelhas precisam de um cão pastor pelo simples fatos delas serem naturalmente tão idiotas e tapadas que precisam de alguém que grite com elas para que elas entendam a direção que devem tomar. Ao que parece, isto se torna um reflexo bem cabível na relação que transcende séculos entre os pastores e as ovelhas nos currais religiosos.

Na igreja que eu costumo ir aos domingos (quando definitivamente não tenho nada melhor pra fazer) há uns tempos tem ido um senhor esquizofrênico que senta no primeiro banco da primeira fileira. Este cara se tornou meu herói. 

Acontece que toda vez que o pastor ou outro convidado termina o sermão ele levanta com seu bloquinho de anotações e durante uns três minutos ele comenta o sermão. Diz o que gostou e o que não concordou, terminando sempre com uma ou duas perguntas.

Já pensou se sempre fosse assim? Se a cada fim de um sermão religioso houvesse espaço para que os membros e visitantes coloquem suas impressões, como qualquer palestra que se preze em qualquer universidade? Creio que iriam diminuir drasticamente o número de bobagens que se falaria em nome de Deus em muitos lugares.

Diante disso passei semanas pensando nesta proposta: - E se agora as ovelhas falassem?

Aí resolvi fazer essa experiência. Juntei alguns amigos (religiosos e não religiosos) na casa de um amigo dizendo que ia ser um estudo bíblico. Li Gênesis capítulo 1 e simplesmente perguntei: - E aí, o que vocês acham deste texto?

Houve um silêncio constrangedor. Perfeitamente compreensível. Fiquei esperando alguns minutos e finalmente alguém perguntou: - Posso dizer o que eu acho mesmo? Sinceramente?

E daí o papo fluiu. Nada de um guru espiritualóide pensando pela gente. A interpretação era construída (ou não) de forma coletiva. O grupo debatia e tirava conclusões do texto. E se resolvia as diferenças de leitura no diálogo sem levar para o lado pessoal. E o grupo funciona até hoje e tenho aprendido muito lendo a bíblia com a soma da minha perspectiva com as perspectivas dos demais.

Claro que você vai dizer: - Beleza, mas isso não deixa de ser mais uma forma do homem interpretar!

Concordo com você. Não dá para fugir disso.

Porém, com isso tento colocar abaixo a pretensa sacralidade da interpretação.

Explico!

Hoje, como estou de bom humor vou ser legal com você. Vou concordar com você (há duras penas, confesso. Mas tudo vale em prol do bom entendimento) que a Bíblia Sagrada é a perfeita e inerrante palavra de Deus, divinamente inspirada e tal.

Tudo bem até aí? Então tá, vamos em frente.

Mesmo concordando com essa máxima da ortodoxia cristã, não me movo um centímetro sequer da percepção de que, apesar do texto ser Sagrado, o olhar sobre ele no decorrer da história nunca foi e nunca será perfeita e blindada a falhas.

Essa é minha grande questão. Eu posso até não querer aqui, só para polemizar (e bem que eu poderia!) relativizar a Verdade. Agora, a leitura desta Verdade eu relativizo sim. Pegue qualquer livro sobre história do cristianismo e você verá uma tonelada de páginas de coisas bizarras que se fizeram em nome de um olhar x ou y sobre os textos sagrados.

Hoje então nem se fala! Quem assiste tv aberta que o diga.

Recuso-me a ver pastores e padres como sacerdotes que extraem interpretações e insights inquestionáveis sobre o que eles entendem ser A Verdade. Minha perspectiva hoje é vê-los como homens que, assim como eu e você, são falhos. E encaro o que eles falam como meras possibilidades, que certamente compararei com minha óptica em torno do mesmo texto e assim poderei formar algo parecido com uma opinião.

Diante de toda esta falácia você deve estar pensando:

- Quando, por Zeus, esse imbecil vai falar do livro!?

Agora mesmo Ó paciente leitor!

 São Marcelino Champagnat (1789 - 1840)
Fundador do Instituto dos Irmãos Maristas em 1817

Escrito em 1926 pelos Irmãos Maristas, a História Sagrada consegue o louvável feito de resumir toda, eu disse TODA história do cristianismo. De Gênesis a Apocalipse, passando pela Igreja Primitiva e Medieval até começo do século XX. Aí você deve imaginar que seja um livro da grossura do volume único de O Senhor dos Anéis. Mas que nada, tudo isso é sintetizado em pouco mais de 350 páginas.

Até aí tudo bem. Para quem tem preguiça de ler a bíblia e infindáveis volumes da História da Igreja esta é, sem dúvida, uma ótima pedida.

Porém, o que me chamou atenção neste livro são os comentários dos padres nos rodapés das páginas. Encontrei cada coisa bizarra! Lembrando que se trata da visão de padres ortodoxos do começo do século XX. Então a visão medieval ainda era preponderante.

Por exemplo. A bíblia, em Gênesis, conta que Noé, após o dilúvio, resolve plantar uma vinha. E do vinho produzido pela vinha ele se embriaga.

Ele tinha três filhos: Sem, Cam e Jafét.

Cam encontra o pai bêbado e nu na tenda e vai aos irmãos para contar a mazela em que o pai se metera. Tipo: - Caralho pessoal, acabei de ver o pai melado lá na tenda, nuzão ó! Haueahaueahauea!

Então os irmãos com toda reverência, virando o rosto para não ver a bunda murcha e branca do pai, o cobre com um manto. Noé quando acorda, com uma ressaca dos diabos, soube da molecagem de Cam, fica puto da vida e lança uma maldição sobre o filho dizendo:

- Para sempre servirás como escravo à teus irmãos!

Abaixo segue o comentário dos padres:

Os filhos de Sem fixaram-se na Ásia e deram, mais tarde, o povo de Deus; os descendentes de Jafet povoaram a Europa e os de Cam espalharam-se principalmente na África.

Perceberam a sutileza teológica para legitimar a escravidão histórica dos africanos?

Muitas outras notas curiosas como essa permeiam todo este livro. Lembrando que é uma cartilha catequética do começo do século XX, então na época não era nenhuma novidade este tipo de pensamento.

Gosto da bíblia pelo fato dela, em si mesma, ser uma fonte que dá margem para várias possibilidades de leituras e interpretações. Assim ela certamente irá revelar muito sobre o caráter de quem a lê e interpreta.

Falo isso por mim mesmo. Nas minhas leituras tenho muita dificuldade em separar o Deus que é do Deus que eu quero que Ele seja.

E você que acredita em Deus deve ser um pouco assim também. A partir do momento que você começa uma afirmação do tipo - Pois para mim Deus é assim e assim e assado! você também esta construindo uma imagem de Deus muito particular a você mesmo.

Então quem é Deus de fato?

Não sei! Sinceramente.

E se alguém disser que sabe fique com o pé bem atrás com essa pessoa.

Bem, se é que Ele existe, acredito que mesmo assim trata-se de alguém que nunca a percepção humana vai conseguir abarcar em sua totalidade.

E a bíblia? As igrejas? E as religiões?

Bem, são possibilidades, apenas possibilidades.

Mas... E o Amor? E Jesus?

É, quem sabe aí consigamos chegar a algum lugar.

Quem sabe.

Os fariseus, ouvindo que ele fechara a boca dos saduceus, reuniram-se em grupo e um deles (a fim de pô-lo à prova) perguntou-lhe: Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.
Mateus 22: 34-40

Vários religiosos preferem ter razão do que ter compaixão.
Karen Armstrong

Outras interessantes possibilidades:

- Um Sábado Qualquer: http://www.umsabadoqualquer.com/

- A Bíblia Com Limão e Gelo: http://bibliatwist.blogspot.com/

- Histórias Engraçadas da Bíblia (Youtube):

19 janeiro 2011

Pearl jam Vs. O Mundo




Banda: Pearl Jam
Álbum: Vs.
Ano: 1993
Gravadora: Epic


Vs., segundo álbum na carreira do Pearl Jam, foi concebido carregado de toda pressão e cobrança que um álbum sucessor à grande estreia explosiva de Ten (Epic /1991) poderia gerar.

Apesar do grande sucesso de Ten, a banda recusou toda badalação dos holofotes da indústria do entretenimento. Mesmo ganhando prêmios com o vídeo da musica Jeremy, eles recusaram gravar outra para Black (um dos maiores sucessos do Ten). Eles argumentaram que não queriam que as pessoas, em dez anos, lembrassem da música como um vídeo.

Muitas atitudes desta natureza, remando contra a maré da lógica de mercado, junto a performances em shows cheias de energia e toda mística criada em torno de Eddie Vedder, fizeram o Pearl Jam tornar-se uma das bandas americanas mais populares no mundo.


Pearl jam Vs. O Público
 
Para gravação de Vs. a banda trocou a barulheira da metrópole e foram para o estúdio Site, nas lindas colinas de São Rafael (Califórnia) para delírio visual da banda e desespero de Eddie Vedder que detestou o lugar. Ele deve ter pensado:

- Como que se faz um álbum de rock num lugar lindo desses?  Porra! Somos uma banda de rock ou somos o Los Hermanos?

Enfim, já que está no inferno, abrace o cão. E Eddie Vedder entrou no estúdio com a banda e gravou o que é considerado o álbum mais denso e pesado do grupo.

Fúria, paisagens de angústia e isolamento, tomado de picos de introspecção poética em torno de gritos interiores, protestos, críticas sociais e crônicas infestam todas as músicas de Vs. Até os acústicos do disco são banhados de existencialismo e confusão que só alguém cheio de marcas profundas e irreversíveis como Vedder poderia escrever.


 Torture from you at me!

A capa traz uma fotografia feita por Ament (baixista) de uma ovelha enfiando a cara nas brechas de uma cerca. Representando, segundo ele, a sensação de escravidão que a banda sentia em relação a tudo o que estava em volta deles. Daí a título Vs. que remete ao clima de confronto que a banda sentia em relação a toda pressão e cobrança que eles sabiam que iam ter das portas do estúdio para fora.

Então, em 8 de outubro de 1993, Vs. entra no mercado vendendo em uma semana 950.378 discos, batendo o recorde na época de álbum mais vendido na primeira semana de lançamento, e subindo como foguete ao primeiro lugar na parada top dez da Billboard

E a banda caiu definitivamente nas graças da crítica especializada.

Agradeço ao meu amigo fela da gaita Jonas Gomes (desenhista de mão cheia criador do desenho do Mundo Facundo - confira mais desenhos dele aqui: http://www.flickr.com/photos/jonasgomes/ ) por me enfiar Pearl Jam goela abaixo quando ele morava em Fortaleza. Óbvio que eu, amigo da onça que sou, sempre desdenhava da banda, dizendo que era banda de adolescente burguês problemático.

Mas a maior blasfêmia de todas foi quando Jonas recebeu uma penca de amigos alternativos em casa, e quando cheguei à casa dele e ouvi a linda música Black eu cretinamente disse para consternação de todos:

- Porra, doideira demais esse som! É Creed?

Óbvio que só o Jonas riu da piada.

Hoje talvez eu escute mais Pearl Jam do que ele. Escuto o som com ouvidos nostálgicos. 

Lembro-me de muitos bons amigos (maioria hoje vivendo em outros estados ou tentando dar rumo à própria vida aqui em Fortaleza). Lembro-me do tempo em que acreditávamos piamente que íamos ser personalidades famosas. E lembro que uma das grandes portas para a esperada ascenção era, sem dúvida, enchendo a cara e assistindo os inúmeros shows no Hey Ho Rock Bar (in memorian) numa das muitas intermináveis e inesquecíveis noites no Centro Cultural Dragão do Mar.

Bons tempos!

FAIXA A FAIXA:

1 – Go (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

O disco começa com esse verdadeiro chute na porta que é Go. A linha de guitarra e bateria segue numa sequência rítmica alucinante servindo de cenário para uma letra perturbadora sobre um obscuro sentimento de abuso (se sexual ou psicológico não fica claro). Aqui Vedder mostra a que veio. Sem piedade vocifera o refrão como um desabafo:

Please, don’t go on me!

2 – Animal (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Five Against One, a princípio, ia ser o nome do álbum. No último momento a banda resolveu por Vs.

A música mantém a mesma energia de Go, agora com um jogo de palavras que pode nos levar a vários significados. A mais provável é que se trate de um estupro coletivo. Five Against One pode representar masturbação, cinco pessoas e uma vítima ou até mesmo a própria banda em relação a todos (gravadora, fãs, mídia, etc.), ou tudo isso junto.

Mas em se tratando do refrão I’d rathed be with an animal, leva-me a crer que possa ter a ver com o costume do estupro coletivo no comportamento de algumas espécies. 

Principalmente entre os caninos vira-latas.

3 – Daughter (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Gosto muito desta música, além de uma bela melodia com base acústica e elementos de guitarras, ela conta a estória de uma garota que tem dificuldade de aprendizagem (dislexia) e sofre abuso dos pais que não entendem seu problema. Quando finalmente os pais percebem que a filha tem esse problema, ela já foi tão abusada psicologicamente e fisicamente que já se encontra cheia de profundas feridas e mágoas na alma que a acompanhará para sempre. O que certamente a faz rebelar-se contra os pais. Assim como em muitas outras letras, Eddie com maestria, demostra ser um bom contador de estórias.

4 – Glorified G (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

O baterista Abbuzzese um dia chegou ao estúdio todo feliz porque tinha comprado duas armas de fogo. E isto gerou um grande debate entre a banda. Principalmente sobre essa cultura bélica que existe impregnada na alma norte-americana. Daí surgiu a ideia desta música que é uma crítica cheia da mais pura ironia. Parece até uma prévia do tipo de sentimento doentio que permeava a mente dos dois jovens que, com armas de fogo de ponta adquiridas na Walmart, chacinaram 13 alunos numa escola na cidade de Columbine (Colorado / EUA) em 1999.

O que esperar de um país que vive o paradoxo de ser tão religioso e tão fissurado por armas de fogo ao mesmo tempo?

Got a gun, fact I got two
That’s ok man, cuz I love God

5 – Dissident (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Outra estória criada por Vedder, fala sobre uma mulher que abriga um refugiado político em casa. Há um envolvimento entre os dois, mas apesar disto, com o tempo ela não aguenta a pressão e o entrega para o Estado. E aí está a tragédia da música narrada em uma sonoridade perfeita.

6 – W.M.A. (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Eddie Vedder certa vez se meteu em uma briga com policiais. Apesar de ser o pivô de toda confusão, os policiais partiram para cima do amigo negro de Vedder.

Aqui Vedder, dentro de um som com atmosfera tribal, mais uma vez critica aspectos da cultura americana. No caso de W.M.A. (White Male American) o racismo. De alguém se sentir sortudo por nascer branco.

7 – Blood (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Se eu pudesse definir essa música em uma frase eu diria:

- Uma bela facada no estômago!

Pesada e selvagem, Blood é um grito de foda-se de Vedder para a mídia do tipo:

- É sangue que vocês querem seus desgraçados!? Pois tá aqui! Aproveitem seus merdas! Stab it down, fill the pages, suck my fuckin’life out, man!

8 – Rearviewmirror (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Não conseguindo inspiração suficiente nas belas colinas onde ficava o estúdio de gravação de Vs., Vedder se refuga em seu ambiente natural. Volta para São Francisco e passa a dormir dentro da sua caminhonete no intuito de preservar o espírito de luta. Daí surgiu algumas de suas letras mais pessoais, dentre elas esta que remete a um passado de abuso e agressão por parte dos pais. A música fala desta atitude de fuga de nossos problemas. De alguém que pega o carro e toma a estrada fugindo de uma vida e um passado triste e traumático.

I gather speed from you fucking with me!

9 – Rats (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

O senso de coletividade e união entre os ratos é algo que em muitos aspectos os tornam criaturas mais admiráveis que nós, ditos humanos. Concordo! E Rats explora exatamente isso.

10 – Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Melodia e letra dançam juntas nesta comovente e bela estória narrada sobre uma mulher que deixou-se acomodar numa pequena cidade. Essa eterna síndrome da cidade pequena, onde uma parte sonha em poder sair e conhecer outros mundos e outra parte resolve ficar para garantir pelo menos ser alguém relativamente importante em sua cidadezinha natal.

A letra trata do encontro destas duas pessoas que fizeram escolhas diferentes. De como nossas escolhas podem determinar nosso destino para sempre. E a sensação claustrofóbica de alguém que vê a vida passar, o mundo mudar, e perceber que ela mesma parou no tempo e está alheia a tudo isso.

Linda canção!

11 – Leash (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Cantado como um hino. É uma leitura do que era a juventude na primeira metade dos anos 90. Mas é latente a atemporalidade da canção, pois pode ser cantada em qualquer outra época, pois as aspirações e desejos de liberdade juvenil transcendem gerações.

Drop the leash, we are Young!

E a letra fala bem desse fenômeno de tribalização da juventude. Uma geração sem rumo e sentindo usando exatamente essas inseguranças como força de união, criando significativas revoluções culturais.

I am lost, I’m no guide, but I’m by your side!

12 – Indiference (Letra: Vedder / Música: Abbruzzese, Ament, Gossard, McCready e Vedder)

Terminando o disco, a última faixa nos leva a um ambiente soturno e nos narra, aos sussurros, quase como uma voz de alguém pensando alto. O desabafo de alguém que abre mão de seu conforto e desejos pessoais em prol de um bem comum, não especificado na letra. O que pode nos levar há várias imagens.

Como o executivo infeliz que sonha com a liberdade, mas por conta da família, resolve engolir os sonhos a seco e pensa: 

- Oh, I will make my way through one more day in the hell!

A música é recheada dessas figuras perturbadoras. Novamente a claustrofobia de uma existência fadada a um determinismo infeliz toma conta de outra letra de Vedder.

A PREDILETA:

Sem titubear, escolho Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town por ela me falar mais diretamente. Acho que deve ser a crise dos 30 anos chegando. Mas me sinto muito como esta velha mulher aqui em minha cidade natal (Fortaleza), e percebo mais latente esse sentimento quando algum amigo meu resolve chutar o balde e morar em outro lugar, ou quando algum viaja a passeio para o exterior.

Até segunda ordem, não tenho perspectiva nenhuma de sair daqui. Às vezes tenho essa estranha sensação de uma coleira invisível que me prende nesta cidade. Provavelmente vá envelhecer aqui, levarei meus filhos e netos para ver futebol no estádio, e toda vez que ver alguém partir vou sentir meu coração em pedaços dizer: 

- Por favor, dê um olá para o mundo lá fora por mim!

E como bom provinciano, vou sempre ouvir atento às novidades, aventuras, maravilhas e curiosidades que meus amigos trazem de suas viagens.

Todo esse sentimentalismo barato de minha parte é tão somente a angústia de saber que vou passar por esta vida e logo serei esquecido, como se eu nunca tivesse existido. Talvez quem sabe se eu for um bom pai e avô, minha memória possa sobreviver uma ou duas gerações entre os meus, e aí então desaparecerei, junto com minha geração.

All these changes taking place, I wish I’d seen the place. But no one’s ever taken me!

E para rechear seus olhos e ouvidos, escute esta linda canção com imagens de um dos filmes mais marcantes em minha vida (como todo filme de Cameron Crowe!) chamado Tudo Acontece em Elizabethtown

Todo bom amante da música deve ser, no mínimo, obcecado pelos filmes deste diretor!


23 dezembro 2010

Por uma catequese mais aprofundada, e nada mais...






Livro: Catequese Com Estilo Catecumenal
Autor: Antônio Francisco Lelo
Editora: Paulinas
Páginas: 62


Não sei exatamente a realidade do Norte e Centro-Sul do país. Mas aqui no Nordeste, no que diz respeito a cristianismo, há uma verdadeira multidão de religiosos sem um mínimo de profundidade de conhecimento sobre a religião que pratica. Que dirá os dogmas.

Um exemplo básico disto são as chamadas Escrituras Sagradas (Bíblia para os íntimos). Livro este que tem em suas páginas o que se julga ser toda regra de fé e conduta do cristão. E, quando você vai conversar com qualquer religioso cristão, e começa a perguntar se eles leram o documento sagrado, bem, a maioria vai responder - Na verdade não, só alguns fragmentos.

Isso é curioso, e até contraditório. E revela bastante sobre nossa geração.

Realmente, depois da objetividade de toneladas de informações na internet, e ainda após os famosos 150 caracteres do Twitter, é difícil que algum cidadão com mais coisas para fazer possa ter tempo de ler os documentos sagrados.

E como toda causa gera uma conseqüência, vemos toda uma geração de cristãos (católicos e protestantes) completamente alienados de princípios básicos da verdade revelada por Jesus, sendo descaradamente ludibriadas por um sem número de líderes oportunistas, ou, no caso aqui do Nordeste, por festas e movimentos religiosos.

O livro Catequese com Estilo Catecumenal, de Antônio Francisco Lelo, serve exatamente para denunciar essa superficialidade teológica que boa parte dos aprendizes a primeira comunhão e crisma (o autor é católico) vivenciam.

O autor chama a atenção ao questionar o por que da catequese ser apenas uma fábrica de alunos que aprenderam apenas a decorar dogmas, e não aprender a fundo o que cada símbolo litúrgico, junto com as verdades bíblicas têm a dizer.

Você assinaria um documento sem antes ler?

Como então você vai confessar que um documento é de fato sagrado, que um Deus é de fato verdadeiro, ou que uma religião é de fato legítima se você não a estudou nem procurou se aprofundar no que ela ensina?

Parece bobagem, mas nessa perguntas está a linha tênue que existe sobre o fato de sua motivação ser a contemplação da verdade ou apenas um interesse mesquinho de se conseguir as coisas.

Apesar de ser mais técnico ao mostrar como se pode catequisar alguém com mais profundidade, consegui enxergar neste livro algumas preocupações geradas em torno desta pergunta.

Se você quiser ler um livro que tenha um discurso mais crítico e profundo sobre liturgia e derivados dela, certamente você vai encontrar livros melhores nas livrarias Paulinas, Vozes, etc.

Esse no entanto aborta isso timidamente no prefácio, meio que tentando auto justificar sua proposta catequética.

Escrito sob medida para sacerdotes e líderes católicos. 

O leitor comum vai achá-lo enfadonho.

* * *

Interlúdio

Católicos Vs. Protestantes

Sou protestante (hoje prefiro o termo detestante) desde meus quinze anos. E ao contrário de muitos testemunhos, eu não era um bêbado, que vivia drogado e hoje está curado porque aceitou Jesus. Para ser bem objetivo, eu ter ido parar numa igreja batista foi a soma de alguns fatores.

O primeiro fator, sendo bem sincero, é que de fato, apesar de ir a missa todos os domingos (até os quinzes eu me confessava católico) sempre achei a liturgia católica fria e impessoal. Falo da liturgia católica do meu bairro em particular.

O segundo fator foi o fato de eu ter sido reprovado na escola e, por conta disto, ter perdido uma bolsa de estudos. O que fez minha mãe me matricular numa escola mais barata no meu bairro. A escola era de confissão protestante.

E isso me leva ao terceiro fator, que foi ter feito amizades com meus colegas de classe nesta nova escola (boa parte filhos de lideranças protestantes) e naturalmente ir rolando os convites para conhecer a igreja deles.

E daí já dá para prever né!? Em pouco tempo eu era mais um na estatística da até então grande migração de católicos para o protestantismo.

Que me desculpem os católicos, mas era latente na época a diferença litúrgica entre as duas religiões. O protestantismo oferecia uma liturgia que colocava os membros numa atmosfera mais pessoal com a divindade e com o sacerdócio. Lembro na minha primeira visita o pastor me chamar para almoçar na casa dele. E lembro a primeira vez que eu dei as mãos em volta da mesa e agradeci a Deus pelo alimento.

E esse foi o grande fator checkmate de tudo. Como filho de mãe solteira, apesar da infância feliz eu tinha muita carência de figuras de autoridades em minha vida. Eu praticamente parasitava os pais dos meus amigos. E a igreja se tornou então este seio familiar que tanto me faltava.

Só depois é que de fato eu fui me atentar para questões doutrinárias. E fui bastante estimulado pela igreja a aprofundar meus estudos sobre as escrituras.

Da Igreja para o seminário, e do seminário a este profano que vos escreve foram um sem número de livros e disciplina acirrada de estudos.

Ao que parece, o catolicismo nas últimas décadas vêm aprendendo a lição, e tem tornado suas celebrações bem mais pessoais para os fiéis.

O teólogo Carlos Queiroz tem um interessante estudo demonstrando o processo de pentecostalização do catolicismo, e a catolicização e umbandicização do protestantismo.

No geral, hoje (para o bem ou para o mal) acho as duas gritantemente semelhantes. Os protestantes, dentre muitas coisas, acusam os católicos de idólatras (para usar apenas um exemplo), no entanto a idolatria protestante existe sim e é muito mais perigosa por ser sutil (no caso das igrejas chamadas históricas) e não tão sutis assim (como no caso das igrejas neo-pentecostais).

Toda denominação protestante é um mini-Vaticano em potencial; onde, como na igreja Católica, tem um Papa (chamado no protestantismo pastor presidente, bispo, apóstolo ou Pai-póstolo) que determina as ações e pensamentos das ovelhas. É só trocar a Infabilidade Papal por Infabilidade Pastoral (ou doutrinária), trocar inquisição por disciplina, e excomunhão por:

- Você está convidado a sair de nosso meio, irmão.

Até parece ironia, mas falo isso tendo uma profunda dívida de gratidão pela igreja. Apesar de crer que Jesus Cristo, se viesse ao mundo hoje, passaria bem longe de qualquer uma delas, acho que historicamente a existência delas é reconhecidamente legítima e importante para a formação de nossa sociedade.

Na igreja (católica e protestante) conheci o que há de mais mesquinho e potencialmente mau em um ser humano, e também conheci gente que transbordava piedade e amor como nunca vi em lugar nenhum.

Apesar de freqüentar dominicalmente uma igreja convencional, sinto a muito tempo que ideologicamente não faço mais parte dela. Pegando as palavras de Yancey:

Embora seja evangélico e escreva frequentemente sobre minha fé, nunca aceitei a igreja com facilidade. Algumas vezes, sinto-me fora do lugar dentro dela e tento ajustar-me, como alguém que procura fazer com que um paletó de outro tamanho lhe sirva bem.

Hoje já consigo ver tranquilamente catolicismo e protestantismo como parte de um todo.

Quanto a mim, não partidarizo mais por nenhuma, nem católicos, nem protestantes. Nestas horas lembro-me do velho Paulo (com quem particularmente tenho muitas rixas):

Explico-me:
Cada um de vós diz: Eu sou de Paulo!, ou Eu sou de Apolo!, ou Eu sou de Cefas!, ou Eu sou de Cristo!
Cristo estaria assim dividido?
1 Coríntios 1: 12 – 13ª

Não querido Paulo, Ele não está! 

Ate por que, Jesus definitivamente desburocratizou a nossa conexão com Deus. Segundo jesus, para falar com Deus, basta nos trancarmos na solidão de nosso quarto e seguir as instruções de Gilberto Gil na música abaixo: