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21 julho 2010

Loucura para clarear o intelecto!






Livro: Dom Quixote
Subtítulo: Livro Primeiro e Livro Segundo (Coleção L&PM POCKET, vol. 400 e 401)
Autor: Miguel de Cervantes Saavedra (1547 - 1616)
Editora: L&PM POCKET
Páginas: vol. 400 (511p) / vol. 401 (518p) 

Gostei do livro.

Mas você corre o risco de não gostar dele de cara. Tem que ter perseverança. Porque Cervantes lhe ganha pela convivência.

Ainda mais se você leu a mesma edição que eu, da L&PM POCKET, em dois volumes, somando os dois livros quase mil páginas.

Sugiro que você dê ao livro um crédito de pelo menos 150 páginas. Se ainda assim ele não lhe seduzir, esqueça! Doe o livro para uma biblioteca pública perto de sua casa, e alugue um bom filme para desopilar.


Miguel de Cervantes
Avô do Monty Python 

Dom Quixote trata de um cara viciado em literatura de cavalaria, que depois de tanto ler esse gênero literário, pira o cabeção achando que é de fato um cavaleiro andante. Daí resolve sair pelo mundo atrás de aventuras (e desventuras) dignas de serem contadas! Sem esquecer que nesta jornada ele tem como companhia um escudeiro (tão doido quanto) chamado Sancho Pança.

Dom Quixote daria uma ótima série de tv (com várias temporadas), pois em quase todos os capítulos existem uma mini aventura. E acredite, Dom Quixote tem muitos capítulos!

À medida que você avança na leitura, pode sentir uma leve sensação de tédio. Mas não se preocupe, quando o tempo de leitura corre mais um pouco, você se vê como que acostumado com a companhia do livro e ele entra na sua rotina, se torna parte de você. (relevem o exagero!)

Demorei torno de um mês para concluir a leitura. E agora, estou aqui, às traças e órfão, com saudades do nobre cavaleiro e seu inseparável escudeiro.

Nem vou entrar no mérito da importância histórica do famoso folhetim de Cervantes. Para isto você tem o bom sabe tudo tio Wiki.

Se você é daqueles que, ao se deparar com um grosso volume de um clássico da literatura, já sente aquele calafrio na espinha pensando que, além da grossura, ainda vai ter que encarar uma linguagem difícil (para os cult's leia-se: linguagem sofisticada ou clássica), não se desanime, ó desocupado leitor. É normal! Você não tem do que se envergonhar. Há outras formas de você entender o personagem Dom Quixote sem necessariamente ter que ler os dois volumes do livro.

Uma delas é assintindo ao filme Don Juan DeMarco; com atuação bem convincente e marcantes de Jonny Deep e Marlon Brando.


Tá com preguiça de ler Dom Quixote?
Sem problema! 
Veja este filme!

Ou, se você quer uma coisa mais na real, acesse o Youtube e veja todas as entrevistas e participações em programas de tv do INRI Cristo, que, a meu ver, é um ótimo exemplar de um verdadeiro Dom Quixote dos nossos loucos tempos. E que, ainda por cima,  consegue ter uma legião de Sanchos Pança seguindo ele.

INRI Cristo!
Um Típico Dom Quixote Contemporâneo! 

Isso tudo, tomando um bom vinho vagabundo ao som de Balada do Louco dos Mutantes!

Então, para todos os loucos de plantão, o meu sincero lero lero lero!

E claro, boa leitura! Sempre!

Bônus Track: Balada do Louco (Os Mutantes)

17 julho 2010

A doce vingança da amarga Medéia


Livro: Medéia
Autor: Eurípedes ( 484 a.C. - 406 a.C.)
Editora: Martin Claret
Páginas: 109

Medéia e Jasão são aquele casal de vilães típico das novelas globais. Um casal que, como se costuma dizer aqui no nordeste, não são flor que se cheire.

Tanto que, depois de aprontarem todas (leia-se: traições, conspirações e assassinatos), foram expulsos de seu país de origem, fugindo para o exílio na cidade de Corinto, levando consigo apenas seus dois filhos.

Acontece que Medéia se vê trocada pela deliciosa filha do rei de Corinto. Como se já não bastasse, ainda foi convidada a, junto com os filhos, deixar a cidade de mala e cuia. Isto para que Jasão pudesse usufruir de tudo do bom e do melhor que as boas graças do rei e o fogoso leito da princesa poderiam lhe dar; sem ter o incômodo de ter uma ex-mulher lhe torrando a paciência.

Típico não!?

Eurípedes
Já fazendo jorrar sangue pelos areópagos gregos muito antes do Tarantino vir ao mundo!

Medéia então, com seu instinto feminino tomado por uma fúria incontrolável, junto a todas as forças hediondas de muitas tpm's somadas, resolve não levar desaforo para casa (leia-se: para outro exílio) e decide por acabar (expressão bem comum usada por mulheres furiosas) com a raça do pobre canalha desafortunado Jasão.

A personagem Medéia é de fazer a vingativa Beatrix Kiddo (Kill Bill vol. 1 e 2), a Flora (vilã da novela A Favorita) e Suzane von Richthofen (burguesinha paulista assassina dos pais) ficarem parecendo a Madre Teresa de Calcutá.

E, ao contrário das vilãs citadas, Medéia não é levada a sua sanguinolenta vingança por motivos de busca do poder (Flora), nem dinheiro (Suzane), tampouco a vingança pela filha morta (Beatrix). Medéia é movida pelos motivos mais primitivos do universo feminino:

Um leito desonrado!

Susane Von Richthofen
Comparada a Medéia, ela é a nora que toda mãe sonha ter!

Até que ponto uma mulher é capaz de chegar para fazer o seu marido infiel pagar caro por tê-la traído e abandonado?

É um livro perfeito para a namorada ou esposa desconfiada presentear o parceiro como uma forma de aviso prévio.

Para os cuecas de plantão, o livro pode ser extremamente instrutivo para que se possa perceber como a mulherada tem essa capacidade de ir da doce ternura (amor!) a um azedume vingativo (ódio!) num piscar de olhos.

Toda mulher é potencialmente uma Medéia, quando devidamente estimuladas pela nossa incurável canalhice; salvo, claro, as devidas proporções emocionais de cada uma.

Enfim, para todos uma ótima leitura, ou vingança, sei lá!

15 julho 2010

Uma aula sobre Jesus e seu legado histórico.


Livro: O Incomparável Cristo
Autor: John Stott
Editora: ABU (Aliança Bíblica Universitária)
Páginas: 250

John Stott, de forma clara e enxuta, escreve como poucos sobre a sinergia entre teologia, espiritualidade e cristianismo.

O autor sempre busca ter precisão e coerência doutrinária, de forma que agrade tanto o leitor leigo, quanto ao cristão já devidamente doutrinado por uma igreja protestante de tradição histórica.

Stott não complica, tampouco polemiza. Sua motivação, de forma sóbria e centrada, é esclarecer o leitor.

Isto o torna um dos teólogos ingleses mais respeitados e consistentes do século XX.

As dezenas de livros do autor sempre estiveram nas boas graças de boa parte dos acadêmicos da área de teologia. Sem contar as igrejas; mais precisamente as igrejas históricas como batistas, anglicanas, luteranas e presbiterianas.

O livro O incomparável Cristo é baseado em uma série de palestras ministradas por ele na Igreja de All Souls (em Londres), na virada do milênio. Ele falou sobre a pessoa de Jesus Cristo; sua importância e relevância para os dias de hoje, mesmo passados dois mil anos.

Particularmente, o que mais me fascina no autor é que ele, declaradamente, é um conservador (no sentido menos pejorativo da palavra). E  assim como o velho São Paulo, ele consegue ser como aquele velho xamã indígena, cheio de sabedoria, que faz esquecer a complexidade dos vícios relativistas, e remete o pensamento de volta a fascinante e encantadora simplicidade dos evangelhos.

                                          John Stott


Porém, atenção!

Ele procura ser claro e preciso, mas nem sempre consegue ser aquele escritor que tem aquele apelo de, página após página, seduzir o leitor (a exemplo de Lewis, Yancey, Lucado e cia).

Você deve encarar o livro como uma aula, pois Stott é muito didático.

E é recomendável ter uma bíblia por perto, pois dela extrai várias citações.

O livro divide-se em quatro partes:

1) O Jesus original

Onde Stott explora, sem meias verdades, como o Novo Testamento retrata Jesus.

2) O Jesus eclesiástico

Nesta sessão ele avalia as diferentes formas de como Jesus foi representado através de toda a história; viajando dos primeiros séculos do cristianismo até hoje.

3) O Jesus Influente

Depois de explorar as formas como Jesus foi representado nas mais diversas fases e movimentos da história da igreja, ele agora mostra como a vida e os ensinos de Jesus Cristo impactaram indivíduos que conseguiram mudar a realidade deles mesmos e das pessoas que os rodeavam.

Dentre as várias personalidades citadas estão Francisco de Assis, Leon Tolstoi, Gandhi, Madre Teresa e Luther King.

"Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos." (Mahatma Gandhi)


4) O Jesus eterno

Esta foi a parte que eu menos gostei.

Aqui, Stott explora os 22 capítulos do Livro de Apocalipse.

Ele defende que, no Livro de Apocalipse, o Espírito Santo através de São João, queria retratar Jesus e a igreja numa amplitude cósmica.

Por ser repleta de simbologia, o Livro do Apocalipse (ou Revelação) é de difícil compreensão. Além de dar margem a muitas controvérsias e interpretações bizarras.

São João, muito antes do festival de Woodstock, já recebendo inspiração (e instrução) para escrever o psicodélico Livro do Apocalipse.

Na sua forma britanicamente polida, Stott bem que tentou; conceituou as interpretações básicas das igrejas históricas (o que para um leigo deve ser fascinante). Mas a mim (já caduco de ir a igreja) não trouxe grandes novidades.

Gostei quando ele desmistifica alguns fragmentos ditos apocalípticos (leia-se proféticos) mostrando que, ao invés de prever o que ia acontecer no futuro, o Livro de Apocalipse falava diretamente para as igrejas perseguidas daquela época. E que tinha a intenção de, subliminarmente,  conscientizar aquela geração de cristãos perseguidos que Deus, apesar da sangrenta e implacável investida do Império Romano, não esqueceu de seus filhos. São João, ao escrever o Livro de Apocalipse, encoraja a igreja para que, mesmo diante da certeza da morte por execução por parte das legiões romanas, tivessem, para consolo de suas almas, a certeza da redenção; que a vida do cristão transcendia a temporalidade terrena; e que o sofrimento, nem de longe, se compara a maravilha de desfrutar a eternidade na glória, também chamado céu, paraíso, etc.

Então, caro leitor, recomendo O incomparável Cristo de John Stott a você que têm o desejo de aprimorar os conhecimentos sobre diversos aspectos de tudo o que possa representar a pessoa de Jesus Cristo.

Então, ao invés de desejar boa leitura, termino com uma saudação mais apropriada para quem lê John Stott:

Bons estudos!

12 julho 2010

Não Gostei!


Livro: Histórias Extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe (1809 - 1849)
Editora: Globo
Páginas: 254

E digo o porquê.

Histórias Extraordinárias é uma compilação de contos de mistério do consagrado escritor Edgar Allan Poe. Este americano é um dos pais da chamada literatura de ficção científica e fantástica modernas.

Não sou nenhum crítico profissional de literatura, menos ainda um intelectual de primeira. Longe disso. Sou um mero leigo que, quando lê, tem como únicas sensações o fato de  gostar ou não.

Histórias extraordinárias é, de fato, incrivelmente bem escrito. Talvez, para o leitor da época, acostumado com aquele tipo de linguagem, devia ser, pela forma como ele escreve, uma coleção de contos muito, no mínimo, fascinantes.

O cara é famoso, e certamente influenciou um sem número de outros escritores após ele.


                                          Edgar Allan Poe

Mas para mim, já contaminado com a linguagem cinematográfica e com escritos de suspense do Stephen King, achei Edgar Allan Poe cansativo.

Não gosto de autores descritivos demais. Como descrever que tipo de formato o vapor que a xícara com café quente produz enquanto os personagens conversam. Ou as descrições minuciosas dos móveis e objetos da casa. 

Tá, eu sei, Stephen King também é assim e eu adoro ele. Mas por vezes Edgar Allan Poe torna isso um exercício quase insuportável.

Para não ser de um todo injusto e ranzinza, teve alguns contos desta compilação que eu gostei. Aliás, poderia até mesmo usar este espaço para comentar conto por conto. Mas não vou fazer.

Alguns contos me cativaram, mas não de forma surpreendente. Foi algo do tipo - Há tá, saquei! entendem?

Mas, quem sabe, este tipo de escrita seja por demais sofisticado para um cara como eu. Quem sabe a experiência seja diferente para você. Sei lá.

Então vou tomar a liberdade de afirmar que não gostei. E dizer que, se você quer ler um livro de suspense, por puro entretenimento, que lhe instigue a imaginação (por que essa foi minha expectativa diante deste livro), eu não recomendo Histórias Extraordinárias para você.

Mas esta foi a única obra que li dele.

Afirmo isso antes que você proteste dizendo que eu não li a obra toda dele. Fique à vontade para indicar outro trabalho dele, que eu procurarei ler com todo o prazer. Até porquê, sou daqueles que acreditam piamente que nem sempre a primeira impressão é a que fica.

Paulo Coelho que o diga.

Aguardo sugestões!

09 julho 2010

Filosofia para Leigos


Livro: Iniciação à História da Filosofia
Subtítulo: Dos Pré Socráticos a Wittgenstein
Editora: Zahar
Páginas: 304

O que me fez gostar de ler este livro é que o autor, de forma muito clara, polida e direta, atingiu o objetivo a que se propõe: escrever a história da filosofia abarcando dos pré-socráticos a filosofia moderna, pensando prioritariamente no leitor leigo nesta área, assim como nos iniciantes acadêmicos no árido estudo da filosofia.

Confesso que filosofia não é minha praia. Comecei o curso a uns dois anos e  me vi (devido a minha incapacidade de assimilação, confesso) obrigado à  abandoná-lo.

Mas mesmo assim, sei da importância (pelo menos, para os aficcionados por leitura) de ter uma noção básica de como se desenvolveu a maneira de pensar o pensar no decorrer dos séculos.

Então, se você é daqueles que não tem paciência para ler um grosso volume de história da filosofia com aquela linguagem acadêmica sacal, mas também acha que O Mundo de Sofia já é frescura demais, eis aí o livro ideal para você caro leitor.

Boa leitura!

02 julho 2010

Um Cabra de Deus na terra do Sol




Livro: As Faces de um Mito
Subtítulo: A Fascinante História de um Cabra de Deus na Terra do Sol
Autor: Carlos P. Queiroz
Editora: Vinde
Páginas: 278  

Este livro caiu em minhas mãos à muito tempo. Presente do próprio autor, que de uns anos para cá têm se tornado, além de amigo, uma agradável companhia na caminhada espiritual.

O livro é, basicamente, uma biografia de seu falecido pai, pastor João Queiroz, um dos pioneiros do protestantismo no sertão do Rio Grande do Norte e Ceará.

Sendo que ele, o que já dá para perceber pelo nome, não é um missionário gringo que veio dos EUA ou Europa para propagar o evangelho aos nativos. Ele é um típico sertanejo pobre, que como todos os outros, experimenta das benesses e dessabores da sequidão e aridez da caatinga.

Principalmente, trata das inúmeras histórias de providência e consolo de Deus em meio a todos os percalços de sua vida, como a morte prematura de sua esposa, que lhe deixou mais de uma meia dúzia de filhos para criar sozinho, além do óbito de parentes por conta de doenças ou acontecimentos diretamente relacionados a seca nordestina.

E mais; a luta na labuta do cultivo da terra, adversidades políticas, conversas com cangaceiros, êxodo rural, orações atendidas e não atendidas, perseguições religiosas e claro, muitas outras aventuras e desventuras.

O livro leva por vezes você às lágrimas, e por outras à muitos risos. Pois apesar da vida difícil, como um bom nordestino, pastor João Queiroz contava tudo regado à muito humor.

Na mesma semana que resolvi ler o livro As Faces de Um Mito fui a uma grande livraria local e fiquei lá dando uma folheada na biografia dos Beatles. Vendo a grossura da biografia daqueles titãs da música pop mundial, olhei de repente para o livro As Faces de um Mito com um certo desdém.

O que teria de interessante na vida de um nordestino no meio do nada, perdido no sertão do Rio Grande do Norte e Ceará?

Lembrei-me no mesmo instante do que diziam acerca de Jesus:

E por acaso pode vir alguma coisa que preste de Nazaré?

E resolvi colocar o pré-conceito de lado e prossegui na leitura.

Carlos Queiroz conta uma boa história como ninguém. E, página por página, você vai se deliciando com os inúmeros causos que aconteceram durante esta peregrinação de quase um século do pastor João Queiroz.

A sensação que você têm lendo o presente livro é de estar num alpendre de uma casa no sertão, ouvindo seu avô contando histórias.

Como me surpreendi!

Não há limites para alguém viver uma boa história!

Seja em Liverpool, Hollywood ou sertão do Brasil. Onde há gente, há certamente boas histórias para contar!

Então, como um grande admirador de biografias, recomendo este livro!

Boa leitura!

* Desenho de Jonas Gomes, confira esses e outros trabalhos no site:  http://www.flickr.com/photos/jonasgomes/

23 junho 2010

Um Clássico do Velho Buck!



Livro: Hollywood
Autor: Charles Bukowski (1920 - 1994)
Editora: L&PM POCKET
Páginas: 245

Você!

É, você mesmo!

Imagine-se perambulando em alguma periferia pobre, ou num grande centro de alguma capital.

Então você se depara com bêbados, prostitutas, velhas desagradáveis, vagabundos, gente aí, jogadas na rua sem propósito.

E mais! Some estes personagens citados à brigas em bares imundos, gritos, palavrões, vômitos, chutes, cacos de vidros espalhados pelo chão, cafetões mal encarados, e tudo o que de mais mazelado sua limpa imaginação pode pensar.

Você vê tudo isso e pensa: Credo, Deus me livre!

Mas Charles Bukowski olha para esse cenário e pensa: Porra! Isso daria uma ótima história!

Esta era a natureza por trás da literatura de Bukowski.

O cara foi praticamente canonizado como o santo padroeiro dos bêbados e vagabundos!

Bukowski, como um bom bêbado encrenqueiro que era, tinha em boa parte do que escrevia um toque auto-biográfico.

Este bêbarrão, como ninguém, conseguia retratar com um realismo que beira ao desespero e, acreditem, ao humor, os mazelados e marginalizados.


                     Bukowski em casa, inspirando-se para escrever.

No caso de Hollywood, trata-se de um romance inspirado na experiência que o autor teve, desafiado por um produtor excêntrico, de escrever um roteiro para o cinema. É muito divertido ver os bastidores de Hollywood sob as lentes dele!

Definitivamente, um verdadeiro clássico de Bukowski.

Neste presente blog, a umas postagens atrás, resenhei sobre um filme brasileiro chamado A Casa de Alice. Escrevi sobre o fato de gostar de filmes que retratam a vida sem maquiagem, nua e crua!

Segue abaixo um pequeno fragmento da resenha acima citada, e com isso me despeço:

Sou, por natureza, um grande pessimista!

Penso que, devido a minha própria condição, sempre tive predileção por livros e filmes que retratassem a desesperança. Porque, pra ser bem franco, é mais fácil acreditar nela.

Daí vem minha doente atração pelos perdedores.

Por isso sou apaixonado pela literatura de Charles Bukowski (1920-1994), escritor americano considerado o grande profeta dos perdedores e mazelados deste mundo sem sentido.

Bukowski revela e esmiuça o anti-sonho americano; um mundo de marginais, viciados, bêbados e prostitutas, dos quais só não se pode dizer que estão na sarjeta porque sempre decaem um pouco mais.

Assim como na história do filme A Casa de Alice e minha própria vida, Bukowski descreve as pessoas tal qual na vida real, retratadas de forma triste, divertida, escatológica e universal, em toda sua vulgaridade e realidade.


Boa Leitura!

20 junho 2010

Gostei e recomendo!



Livro: A Bíblia de Jerusalém
Autor: Vários
Editora: Paulus
Paginas: 2206

Minha família é um misto de religiosos católicos e protestantes. Se você, mesmo que superficialmente, é conhecedor do universo que existe no convívio destas duas religiões, já deve imaginar como deve ser o circo.

Dentre as controvérsias ridículas que se discutem, sempre vêm à tona a questão da bíblia, principalmente quando alguém usa de algum argumento retórico baseado nela, seguido do argumento do outro Mas essa bíblia é dos crentes, e não católica... e vice-versa.

Desde criança, o imaginário em torno das histórias bíblicas sempre fizeram parte da minha rotina. Jesus Cristo, mais do que ninguém, sabia contar uma boa história. Tanto que era famoso por suas famosas parábolas, que são utilizadas na nossa linguagem popular até hoje.

Para usar apenas um exemplo, se você passar um bom tempo sem ir à casa de alguma tia ou avó sua, a primeira coisa que ela vai lhe dizer depois de tanto tempo é Olha só, o filho pródigo voltou!

Apesar de sempre gostar de ler a bíblia (pois ela forjou no meu caráter a disciplina de leitura) nunca fui muito chegado à religiosidade de minha família. Quando lia a bíblia queria ler uma boa história, aprender algum princípio legal que me trouxesse sabedoria. E não procurar uma forma de destruir o argumento e idéia do outro.

Por ver tantas conversas idiotas sobre as mais diversas traduções, somado a minha incurável curiosidade, resolvi ler as duas traduções para ter minhas próprias conclusões. Então li a tradução evangélica de João Ferreira de Almeida, e logo depois li a versão católica traduzida pelos Monges Capucchinos.

E a que conclusão cheguei?

Adivinha!?

Era praticamente a mesma coisa!

A diferença era que uma dizia Então Jesus lhes disse e a outra dizia Lhes disse Jesus então.

Tanto numa como noutra o princípio textual era o mesmo.

Claro que há os chamados livros apócrifos nas versões utilizada pelos católicos, mas em nada isto interfere no restante. Além do que, os livros apócrifos também está repleto de boas histórias e bons princípios. Mas por estas não serem aceitas no cânon oficial dos judeus, os protestantes nunca adotaram elas. Outro motivo também foi por que os livros apócrifos foram adicionados na época da contra-reforma, que foi uma ofensiva católica contra a reforma de Lutero, mas isto é uma outra história.

Muita gente já matou ou foi morta por conta da forma como algumas pessoas leram e interpretaram a bíblia. Outras tantas foram diferenciais em momentos de grandes crises morais e humanas e, por influência da bíblia, salvaram e transformaram muitas vidas.

Charles Manson, além da bíblia, tinha no Álbum Branco dos Beatles boa parte da inspiração para cometer assassinatos em série no fim da década de 60. Dentre as vítimas está a atriz Sharon Tate, mulher do diretor de cinema Roman Polanski. E nem por isso você vai achar que ouvir Beatles é nocivo né?



                                 Charles Manson, psicopata americano 
                                 que tinha na bíblia e no Álbum Branco
                                dos Beatles sua maior fonte de inpiração
                                               para assassinar.

Ela (a bíblia) tem esse poder de destruição ou edificação dependendo diretamente dos olhos de quem a lê.


Um filme que pode lhes dar uma boa idéia do que estou falando é O Livro de Eli.

Mas então? Tudo isto torna a bíblia detestável?

Muito pelo contrário. Isso a torna fascinante!

Eu costumo dizer que a bíblia é o livro não lido mais comentado no planeta. Pois todos tem uma opinião sobre ela, mas poucos de fato a leram. Neste público, certamente está incluído boa parte dos cristãos brasileiros.

Mas, acima de todas estas controvérsias religiosas ou embates em torno de veracidade histórica Vs. mitologia, a bíblia é um livro que merece ser lido. Ela conta a história de Deus e de um povo. Povo esse composto por personagens ridiculamente humanos, com virtudes e defeitos, e, exatamente por isto, extremamente fascinantes.

Acho que, independente se você é religioso ou não, ou se você a encara como algo real ou fictício, a leitura deste conjunto de livros deveria ser obrigação para todo amante da leitura assim como clássicos da literatura grega antiga e obras-primas mais contemporâneas como Dom Quixote, Crime e Castigo, O Senhor dos Anéis, etc.        

Enfim, quanto a estas questões acho que não tenho mas nada a lhes acrescentar.

                                             Filme O Livro de Eli
                           O Bem e o Mal estão nos olhos de quem lê!

Então, vamos ao livro! Finalmente!

Logo no texto de introdução desta A Bíblia de Jerusalém li algo que, de cara, me chamou a atenção:

Após três anos de árduo e intenso trabalho, realizado por uma equipe de exegetas católicos e protestantes e por um grupo de revisores literários, pudemos entregar ao público a tradução do Novo Testamento. Cinco anos mais tarde, as mesmas equipes tinham ultimado a tradução do Antigo Testamento. Assim os leitores puderam ter acesso à Bíblia de Jerusalém em sua edição integral.

Esta louvável sinergia entre católicos e protestantes no trabalho de tradução logo me instigou. Existem várias traduções da bíblia em português. E digo logo que todas elas (incluindo esta da qual eu resenho) tem muitas imprecisões e erros.

O diferencial neste projeto é que, já que se trata de uma ação conjunta, têm-se a idéia de que eles não são levados por proselitismo e intenções tendenciosas de fazer a tradução favorecer mais a um grupo em detrimento de outro, ou outros, já que o cristianismo é, sem sombra de dúvida, uma das religiões mais ramificadas que existem.

Não estou dizendo que ela não é tendenciosa nem têm lá suas imprecisões. A diferença é que, se tiver, elas não são tão absurdamente gritantes como muitas outras. E o que senti na leitura dela foi que essa sinergia de estudiosos foram motivadas por uma sinceridade acadêmica na busca de uma boa tradução.

Sou um amante confesso da bíblia, não só como leitor de fé, mas também como um fã literário. Acho importante, principalmente para os aventureiros do campo da teologia, terem pelo menos umas 5 traduções da bíblia, pelo motivo da diferença entre linguas serem muitas e, tanto no grego quanto no hebraico, a tradução estar sujeita a tanta controvérsia, pois um termo em grego ou hebraico pode ter uma infinidade de significados na lingua portuguesa.

Nesta Bíblia de Jerusalém, por vezes, os tradutores se preocupam tanto com a questão do sentido exato que se perde a poesia que se têm em traduções mais populares. As notas de rodapé e as introduções dos livros se preocupam em esclarecer a historicidade e muitas vezes até as dificuldades de tradução em cima de falhas nos fragmentos originais, e não há tentativas forçosas em dar interpretações, à exemplo de outras bíblias de estudos.

Li esta Bíblia de Jerusalém num período de quase 2 anos. E não me arrependi.

Como todo aventureiro que se coloca a ler a bíblia, me cansei algumas vezes, me empolguei outras tantas e hoje, finalmente, concluí a leitura. E certamente vou adotá-la como bíblia de referência!

Então, para os pretensos candidatos a enfrentar 2206 páginas, ou para aqueles que querem uma bíblia que tenha uma certa exatidão ou aproximação do original, eis aí o livro!

Boa Leitura!

14 junho 2010

Filosofia para acadêmicos, e nada mais...




Livro: História da Filosofia volume 1
Subtítulo: Antigüidade e Idade Média
Autor: Giovanni Reale e Dario Antiseri
Editora: Paulus
Páginas: 693   


Sou, definitivamente, um estudante de filosofia frustrado.

E vou dizer o porquê.

Sempre gostei de literatura, principalmente romances e biografias. Nunca fui muito chegado a livros de estudos sistemáticos. E foi justamente esse fator sistemático que (desculpem o termo) me Ferrou quando aventurei-me a cursar teologia e filosofia.



Só conhecia a teologia e a filosofia através de citação na literatura.

Sabe quando você está lendo um romance qualquer, e em meio a diálogos acontece do personagem falar: -...isso porquê, caro Robert, como diz o sábio Sócrates, só sei que nada sei!

E bingo!

Você pensa: - Nossa, que bonito, filosofia deve ser uma coisa espetacular!

Porém, quando me aventurei a, academicamente, mergulhar de cabeça nestes dois cursos, e passei a lidar diretamente com longos tratados  filosóficos e teológicos, meu mundo veio abaixo, uma vez que boa parte dos tratados filosóficos e teológicos (certamente devido a minha limitada capacidade na massa cinzenta somado a uma incorrigível preguiça, confesso...) serem incompreensíveis a minha assimilação.




Principalmente para quem não tinha a mínima noção das mais diversas correntes filosóficas no decorrer dos séculos. Eu disse séculos.

Na medida do possível, esse História da Filosofia volume 1 me ajudou a, pelo menos, mapear um pouco o que se produziu em filosofia até meados do fim da Idade Média. E pretendo parar por ai, e não vou comprar o volume 2 e 3. Mesmo!

Mas se você é um acadêmico de filosofia que adora o que estuda, certamente vai estar adquirindo um livro muito bom, pois os autores mergulham fundo em cada filósofo, esmigalhando tudo e mais um pouco. A linguagem também não é obscura. Então vale à pena e é quase obrigação essa coleção de 3 volumes estar na estante de qualquer apaixonado estudante de filosofia.


                             "PLatão é um pLato bem gLande pLofessoLa!"
                                      Cebolinha numa aula de filosofia.

Mas para você que, assim como eu, está naquela angústia existencialista de saber que a Vita é Brevis, e acha que no mundo têm clássicos demais da literatura para ler antes de bater às botas, mas mesmo assim quer se situar um pouco nos conceitos elementares dos principais filósofos, o folhetim O Mundo de Sofia dá para o gasto!

Portanto Boa Leitura! Ou não...

11 junho 2010

As lentes de Yancey





Livro: O Jesus que eu nunca conheci
Autor: Philip Yancey
Editora: Vida
Páginas: 324


Basicamente, quando me tornei cristão, dois livros foram parar em minhas mãos; a Bíblia Sagrada e o livro do Yancey O Jesus que eu nunca conheci.

Tive sorte...

Porque hoje, com a literatura cristã viciada em fórmulas fáceis, gurus neo-pentecostais vomitando em livros as mais variadas fórmulas de se alcançar a espiritualidade x ou a unção y, fazem com que, boa parte da literatura cristã lida se enquadre em um nível tão medíocre e superficial quanto a auto-ajuda. Se não até pior.

Yancey não é um guru moderno. Não é um super-pastor cheio do "poder". Nem fala como o sabe-tudo que, seguindo o que ele faz e diz, tudo vai dar certo.

Não, longe disso.

Yancey é jornalista e escreve como um jornalista e, acima de tudo, tem a sede de um curioso. Sempre parte para a pesquisa sobre qualquer assunto que escreve do zero. E isso dá para sentir na sua escrita neste livro. Ele vai aprofundando aos poucos, fuçando, descobrindo...  
                         
                                                       Philip Yancey

O Jesus que eu nunca conheci é um livro muito bom, principalmente para pessoas que acham que já sabem o suficiente sobre o Carpinteiro de Nazaré, ou para aqueles que, devido a anos de freqüência em uma igreja convencional, não conseguem mais encontrar o encanto e o deslumbre na pessoa de Jesus. É um livro de descoberta de novos paradigmas. Ou a identificação de paradigmas que você tinha mas não ousava compartilhar com ninguém. Então a sua reação vai ser: - Nossa, nunca tinha olhado Jesus desta forma! ou - Caramba, eu sempre achei que fosse assim, ele pensa igual a mim, não estou sozinho!

Yancey não foge à questões difíceis, tampouco se atém a amenidades. Ele mergulha fundo, e sem medo lhe convida: - Ei cara, vamos nessa comigo, coragem!

Óbvio que, no começo desta resenha, quando discorri sobre a literatura evangélica atual, não queria desmerecer uma infinidade de autores muito bons que existem. Mais uma coisa é a verdadeira música boa, outra coisa é um hit pegajoso das FM's da vida. Entenderam?

Como diz o velho John Stott: - Crer é também pensar.

Então, de todo coração, com uma afirmação levado (não nego) por um laço de profunda gratidão pelo autor, recomendo a leitura de O Jesus que eu nunca conheci.

Obrigado Yancey, por me emprestar suas lentes e me fazer ver e perceber a redescoberta do Mestre Carpinteiro.

Quando você, cristão, pensa que já sabe tudo sobre Deus, Ele deve olhar para você, ficar com aquele sorriso de canto de boca a pensar: - Não sabes ainda nada filho... Não sabes ainda nada...

Abraço a todos e boa leitura!

09 junho 2010

Yancey, Velho Companheiro






Livro: A Bíblia, minha companheira
Subtítulo: 366 leituras e reflexões sobre histórias, personagens, lugares e significados do Livro dos livros
Autor: Philip Yancey e Brenda Quinn
Editora: Vida
Páginas: 366

Tenho 28 anos, e desde os 15 sou cristão. Lembro que, logo quando comecei a estudar os evangelhos, ganhei meu primeiro livro do Yancey “O Jesus que eu nunca conheci”, e desde então Yancey têm sempre feito parte de minhas leituras. Quando saiu o livro "A Bíblia, minha companheira" fiquei feliz em saber que seria em forma de meditações diárias.

E realmente fiz todas as meditações durante 1 ano.

Confesso que, por muitas vezes, devido a correria do dia-a-dia, eu não me aprofundei nas meditações, mas apenas passei o olho, o que me fez não aproveitar tanto o livro como deveria.

Agora estou relendo-o com minha namorada, na verdade não só relendo, mas estudando à fundo, e sem a pressão de ser uma coisa diária (em torno de 2 vezes na semana) e tem sido uma experiência satisfatória.

Enfim, se você comprar esse livro vai estar adquirindo um ótimo livro de meditações diárias. Mas aconselho que, se seu tempo for corrido e você for ler às pressas, não vai absorver tudo o que ele tem para lhe dar. É livro para ler com calma, e funciona tanto para leituras individuais como em grupos.

Ele percorre toda a Bíblia (de Gênesis à Apocalipse) lhe dando uma boa perspectiva da Bíblia como um todo, destacando que ele (Yancey) não se limita a obviedades, como fazem muitos escritores, tampouco foge de passagens difíceis e por demais polêmicas. É Yancey!

Para os que conhecem o autor, vai ser legal ler a Bíblia junto de um cara que tem uma visão muito clara das coisas relacionadas a cristandade. Para quem não conhece Yancey e não tem familiaridade com a Bíblia, por achar difícil, complicada e obscura, é uma boa oportunidade de dar um passeio pelas Escrituras, tendo em Yancey um professor paciente e esclarecedor.

Cada estudo tem um texto bíblico (só a citação, portanto você precisa de uma Bíblia junto para ler as passagens), seguido do texto, e ao final tem perguntas para você meditar.

Você está convidado a encontrar muitos tesouros preciosos na Bíblia lendo-a com um (pelo menos para mim) dos bons pensadores cristãos da atualidade.

Então, boa leitura!

24 maio 2010

Ó Pátria Amada, Idolatrada, Salve Salve-nos!



Copa do mundo!

É sempre assim.

Verde, amarelo, azul e branco estampados nas ruas, camisas e rostos sorridentes de boa parte dos brasileiros.

 O “espírito patriótico” toma conta do pensamento nacional.

As empresas adaptam sua publicidade em cima do ideal da copa do mundo.

Como diz o “pensador” global Galvão Bueno, a nação une-se em uma só torcida, em um só coração!

Praticamente toda a atenção do país e da mídia se voltam para 23 jogadores milionários e comissão técnica hospedados em riquíssimos hotéis de luxo disputando um campeonato mundial.

Enquanto isso, aqui no Brasil...

As cores fortes e vivas da bandeira nacional estão longe de representar aquilo que elas simbolizam.

O verde

Que representa a vida da fauna e flora nacionais, transformados em cinzas graças ao desmatamento desenfreado, frutos da exploração insaciável da ganância do homem pelo lucro.

O amarelo

Das riquezas naturais e culturais, extraídas da terra e do desenvolvimento milenar de cultura e pensamento indígenas, transformados em palidez de pobreza, desigualdade social gritante, alienação e corrupção.

O azul

De águas cristalinas e céus estrelados. Transformados em fumaça cinzenta da nojenta poluição gerada pelo consumismo humano que produz toneladas de lixo diariamente que destroem mar e rios, poluem o ar e alteram o clima, transformando de forma drástica a vida de boa parte da população.

O branco

Símbolo eterno de paz e pureza, foi manchada com o sangue de milhares de vítimas inocentes. Soterradas na lama e a mercê da violência graças a velha e caduca máquina política corrupta, falida e hipócrita.

Ordem e Progresso

Literalmente transformados em Desordem e Retrocesso.

Existe diferença em torcer pela Seleção Brasileira de Futebol e torcer pelo Brasil?

Nestes dias fui a um concerto de rock, onde uma das bandas tocou a música “Que País é esse?” da Legião Urbana.

Foi curioso a resposta da enorme platéia ao refrão dessa música:

- Que país é esse?

E a galera respondeu extasiada

- É a porra do Brasil!

Uma hora depois, no concerto do Skank, quando eles tocaram o refrão da música “Que Coisa Linda é Uma Partida de Futebol”, a mesma platéia, após a música, cantava apaixonada:

- Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!

Que piada paradoxal!

O economista, filósofo e socialista alemão, Karl Marx (1818-1883) afirmava que a religião é o ópio do povo.

Definitivamente ele não conhecia o país do futebol.

Mas as pessoas nas salas de jantar
São ocupadas em nascer e morrer.
da música Panis Et Circenses dOs Mutantes

Eu fiquei indignado
Ele ficou indignado
A massa indignada
Duro de tão indignado

A nossa indignação
É uma mosca sem asas
Não ultrapassa as janelas
De nossas casas

Indignação, indigna
Indigna, inação

da música (In)dignação do Skank


p.s.- Escrevi este texto inspirado na premiada animação "Pra Frente Brasil!!!", que vocês podem ver através do link abaixo:

http://www.laboratoriodedesenhos.com.br/corrente_page.htm

____________________________________

19 maio 2010

De quando eu era um Thement

3 Thements foi mais um desses projetos ambiciosos, que tinha por intuito revolucionar o mundo, que três desocupados (George 'eu', Antino Silva e Téo 'Teórgenes para os íntimos') resolveram empreender e que, naturalmente, não deu em merda nenhuma.

Isso em 2007!

p.s. - só lembrando que o CQC começou em 2008.

p.s. 2 - o que, claro, não quer dizer muita coisa.

Continuando...

E isso tudo foi fruto de ociosodade ao extremo, começou mais ou menos assim:

- E aí negrada, blz?

- Tudo tranquilo.

- Comigo também tá tudo tranquilo, e contigo Téo?

- Tudo tranquilo também.

- E aí, quê cês tão fazendo da vida?

(Silêncio)

2 minutos depois...

- Ei, sabia que eu tenho uma câmera?

- Sério Antino!? Caramba, bóra fazer alguma coisa!

- É, podiamos fazer umas reportagens de humor fazendo perguntas pra galera.

- Massa, massa! Eu sou o câmera!

- Beleza, eu sou o diretor e o George é que entrevista!

- Porra! Por que eu?

E assim começou. Pegamos a câmera do Antino (aquelas câmeras grandonas que tinha que botar a fita VHS na lateral), fomos para o centro da cidade e mandamos ver!

Fizemos apenas dois vídeos. Infelizmente a casa do Antino foi assaltada e fizeram o favor de levar a cêmera (o comércio de antiguidades no mercado negro é muito lucrativo para ladrões) o que encerrou nossa "promissora" carreira precocemente.

No primeiro vídeo, devido a explosão na mídia de garotas com nomes de frutas, comidas e similares, fomos as ruas perguntar "O que é uma mulher gostosa?", o que nos rendeu respostas antológicas dos eruditos trabalhadores e transeuntes do fértil centro de Fortaleza.

E para nossa surpresa esse vídeo "O que é uma mulher gostosa?" foi selecionado para concorrer o prêmio Ibest em 2007 na categoria "vídeos de humor", dentre milhares de videos, 20 foram selecionados, e na contagem de votos (os internautras votavam nos vídeos) ficamos em um honroso nono lugar.

p.s. 3 - só lembrando que esse nono lugar nos fez ficar a frente do Tiririca, Hermes e Renato e um stund-Up do Rafinha Bastos.

Quem ganhou esse concurso foi o imbatível Jeremias ("- Eiiiita besta fera!"), seguido de "As álvoris somos nóizi" em segundo e a empregada tentando falar youtúbio em terceiro.

Legal né!? Há, lembrando que ainda, graças ao nono lugar, fomos entrevistados por um jornal local (Diário do Nordeste) sobre iniciativas criativas quando se tem uma boa idéia, uma câmera e um PC. Infelizmente hoje fui procurar a reportagem na net e não encontrei. Mas eu tenho ela aqui impressa, logo vou escanear e adicionar aqui.

O titulo da matéria era: "Câmera na mão, idéia no PC"!

O segundo vídeo chama-se "Louco rasga dinheiro?" que lógico, não ficou tão bom assim...     

Enfim minha gente, depois de tanto blah! blah! blah!, vamos ao que interessa!

Vídeo 1: O que é uma mulher gostosa?



Vídeo 2: Louco rasga dinheiro?



E aí, gostaram?

Abraço a todos!

20 abril 2010

Rupturas e Continuidades


O homem observa os ponteiros. Acabou o expediente. Está no pequeno cubículo, em meio a centenas de outros cubículos, em um grande departamento de telemarketing. Levanta, moribundo e desgastado. Caminha através do corredor, misturado a centenas de funcionários. Adentra numa das oito portas de elevador do grande centro comercial. Na rua, espera o ônibus. A condução chega. Lotada. O automóvel então segue o fluxo. O trânsito pára. Seus olhos, apáticos, fitam o imenso engarrafamento.

Chega em casa. Um prédio colossal, com centenas de micro-apartamentos. Adentra no elevador. Décimo oitavo andar. Percorre o imenso corredor. Há dezenas de portas. Pára. Vira-se. E fica de frente à uma porta. Sua porta. Mil oitocentos e vinte. Passam-se alguns segundos. Respira fundo. Segura a maçaneta e a gira. A porta abre. Ele entra.

Parado no meio da sala, contempla o pequeno apartamento. Tudo beira o minimalismo. Poucos móveis. Nenhuma foto. Há, no entanto, livros e discos espalhados. Liga seu velho som gradiente. Bota o álbum "Por Pouco" do Mundo Livre pra tocar. Senta-se no sofá. Afrouxa a gravata. Deita-se. E finalmente adormece.

Sonha. Está nu, na rua, caminhando. Olha para todos em volta. Assusta-se. Reconhece seu rosto na face de cada pessoa que vê. Não entende o que se passa. Leva as mãos à cabeça. Ameaça um grito. E, de repente, acorda.

Acorda, em pé, parado em um imenso corredor. Dezenas de portas. Está em frente à porta de seu apartamento, mil oitocentos e vinte, com as mãos à cabeça, como se, por um segundo, estivesse prestes a gritar. Lentamente baixa as mãos. Trêmulo. Seu rosto banhado em suor. Olhos vidrados. Um assombro percorrendo seu corpo. Passam-se alguns segundos. Respira fundo. Segura a maçaneta e a gira. A porta abre. Ele entra.

Parado no meio da sala, contempla o pequeno apartamento. É madrugada. Nota a velha gradiente ligada, tocando Mundo Livre. Lentamente leva as mãos à face. Sente-se cansado. Baixa as mãos pelo pescoço e alcança a gravata. Já estava frouxa. Olha o sofá. Passam-se alguns segundos. Atravessa a sala e entra no banheiro.

Olha para o espelho por um longo tempo. Olhos vermelhos. Ameaça um sorriso. Aproxima-se da pia. E sem tirar os olhos do espelho, abre a torneira. Ainda na mesma posição, ele faz concha com as mãos sob a corrente de água. Inclina a cabeça para baixo, sem pressa, e molha o rosto. Então começa a esfregar freneticamente a face, como se quisesse limpá-la, ou apagá-la. Volta a olhar o espelho. Contempla-se. Fecha o punho e esmurra o espelho. Espanta-se com o que vê. O espelho não quebra. Porém trinca em vários pedaços. O homem vê seu próprio rosto em cada pedaço trincado. Cada rosto, em cada fragmento trincado, o observa, como se tivessem vida própria. E começam a rir. O homem, atônito, desespera-se. Esconde o rosto entre as mãos. Percebe em seu rosto uma face lisa. Sem nariz, boca, olhos, sobrancelhas. Cai ao chão, em indescritível agonia, apalpando seu rosto.

Acorda repentinamente, deitado no sofá de seu pequeno apartamento tateando a face. Sua gravata está frouxa. Sua mão direita embebida em sangue. Levanta atônito. Toca o rosto novamente. Tudo no lugar. Levanta-se. Permanece alguns segundos em pé. Percebe a pequena sacada do apartamento. Caminha lentamente para lá.



Observa a imensa metrópole adormecida. No horizonte, percebe um ligeiro lapso de claridade anunciando a majestosa lua cheia por vir. Ruas quase vazias, iluminadas pelas luzes amareladas dos postes. Vê poucos carros, a vagar solitários. Asfalto molhado. Nota o vulto de um homem andando para qualquer lugar. Mira novamente o horizonte. A velha gradiente espalha a voz de Fred Zero Quatro sussurrando "meu esquema" no pequeno apartamento. A lua sobe, linda e soberana, iluminando a madrugada. O homem maravilha-se. Com um perceptível esforço, consegue dar um sorriso. Seus olhos lacrimejam. Então, apoiando-se firme na mureta de proteção da sacada, ele sobe, senta-se, e sente a fria brisa. Passam-se alguns segundos. Olha a lua. Respira fundo. Lentamente inclina o corpo para frente. E pula.

E nunca mais acordou...

Argumento: George Facundo
Ilustrações: Jonas Gomes

03 junho 2009

Uma Disputa Mentirosa em Trapiá...


... ou "A INACREDITÁVEL DISPUTA ENTRE O INVENCÍVEL METIDO A BESTA LOLÔ E O VERBORRÁGICO TAMPA DE CRUSH CAPETA PARA SABER QUEM É O CABRA MAIS MINTIROSO DO MUNDO... E QUE DEIXOU DEUS PUTO DA VIDA!"


Num lugarejo longínquo
Chamado Trapiá
No véi Rio Grande do Norte
Onde Lampião cansou de aprontá

Aconteceu uma disputa
De dois cabra valente
Eles só usaram a cuca
Disputa bonita, inteligente

Acontece que Lolô
Um ilustre de Trapiá
Deixou o capeta furioso
E sobre isso vou lhes contá

Capeta ficou sabendo
Que de Assú a Mossoró
Num tinha ninguém como Lolô
Mintiroso que só

Lolô ainda disse
Pro espanto da nação
Que tava pra ver cabra mais mintiroso
Que ele em todo sertão

Então alguém lhe disse:
“- Lolô tua coragem me admira
Mas sinto dizer que chegaste tarde
Porque é o capeta o pai da mentira”

O baitinga do Lolô num tomou conhecimento
Do poder do capeta de mentir aos quatro vento
E deu as cara a desafiá num tom de zombação:
“- Mente mais do que eu da onde chifrudo fí do cão...!?”

O capeta ficou sabendo
E chegou no assovio
Cara a cara com o Lolô
Aceitando o desafio

É disputa de esperteza
Pois mentir né fácil não
Tem que falar com certeza
Gerar admiração

Pois mentira bem contada
Faz o cabra até babar
Pois apesar de absurso
Você acha bonito e quer até acreditar

Mininu a coisa foi feia
Que como diria minha avó
É história de fazer tremer nas beira
E arrupiá os cabelos do fiofó

Capeta abriu a boca
Com um bafo de catinga
Falando pra Lolô:
“- O que tu fala num vinga!”

“- Lolô tu é gaiato
Metido a sabido
Tem resposta pra tudo
Atazana meu ouvido”

“- Pensa logo que tu
Zé doidim de trapiá
Se acha tão esperto
A ponto de me peitar?”

“- Tira a catinga do mijo
Dentuço atrevido
Tu num era nem nascido
E eu já mentia nos ouvido”

“- Desde Adão e Eva
Minha mentira tem efeito
Influencio rico e pobre
E até discurso de prefeito”

“- Tu pensa que é assim galego?
Tu é esperto mais nem tanto
Te desafio agora mesmo
E ai? Continua? Ou vai mijar de espanto?”

Lolô num se intimida
Fica rindo todo farceiro
Ele disse: “- Fale baixo!
Ta pensando que sou seu pariceiro?”

“- Tampa de crush tome atendo
Nas coisa que vou falá
Minha boca é como coice de jumento
Meto a resposta no mei dos teus peito que até te falta ar!”

“- Então deixe de conversa
Capeta fi duma cabra
E comece logo e sem arrudeio
A contar tua mentira deslavada”

O capeta se aprontou
E num tom de excelência
Recitou sua mentira
Todo nobre e com eloqüência

“- Lolô vou te contar
Com muita emoção
A história da jumenta
Do profeta Balaão”

“- A jumenta no caminho
Deu de besta a falar
Balaão ficou espantado
quase a se cagar”

“- Mal sabia o profeta
E nem podia desconfiar
Que na verdade eu que ensinei a jumenta
Os fundamentos do bê-a-bá

Lolô ouvindo a história
Não pôde se aguentar
O hômi desatou a rir
E pro capeta foi retrucá

“- Tampa de crush que besteira
Tu é muito é abestado
Tu só ensinou o bê-a-bá
Só mais eu que tô orientando ela no mestrado!”

Diante disso Deus
Chocado com tanta mentira
Desceu logo lá do céu
Com os anjos em comitiva

Capeta e Lolô
Nem acreditaram
Tavam diante de Deus
E nem um dos dois falaram

Deus falou: “- Comé que pode
Seus bando de papangú
Vou dizer umas verdades bem boas
Pra tú e pra tú”

“- Comé que ocês
Tão empolgados em mentir
Enquanto no mundo à coisas tão lindas
E tudo de verdade, sem nada omitir”

“- Se ocês tivessem um pingo
Da mais simples contemplação
Iam ver que não há mentira no mundo
Mais bonita que a verdade verdadeira da criação”

“- Olhem só a mata verde
E os passarinhos à cantar
E o forrózim maravilhoso
Do povo de Trapiá”

“- Diante de tanta beleza
Só há uma coisa procês fazer
É botar joelhinho no chão
E com o coração agradecer”

“- Se quiserem Me encontrar
Perceber Minha grandeza
Abram o coração! Olhem Trapiá!
E Me adorem contemplando a natureza”

Lolô e o capeta
Quase chorando de tanta emoção
Se calaram com profundeza
Em completa adoração!

FIM

George Facundo

Flores Frívolas No Jardim Da Sacanagem




Meu Deus
Como sou imbecil
Imbecil sim
E ainda por cima cego
Isso mesmo
Sou cego também
Num mundo de cegos
Onde quem tem um olho é míope
Aí lascou

Nada não neguim
O negócio é curtir
Vamu curtir
Chegou o momento
É época do pão e circo
Ops...
Quer dizer
É época de carnaval!
O samba no pé
A lôra gelada na mão
E a morena quente no colo do alemão
Solta o pancadão meu irmão

Cadê o grito da galera???

Hêêêêê!!!

E a moçada cai na folia!

Hêêêêê!!!!

Olha a goma!!!

Hêêêêê!!!
Olha o confete!!!
Hêêêêê!!!
Olha o lança perfume!!!
Hêêêêê!!!
Olha o tráfico de drogas lucrando alto!!!
Hêêêêê!!!
Olha os gringos comendo a criançada!!!
Hêêêêê!!!
Olha a Aids!!!
Hêêêêê!!!
Olha os filhos que não voltam pra casa!!!
Hêêêêê!!!
Olha um monte de mães chorando!!!
Hêêêêê!!!
Olha o sorriso amarelo!!!
Hêêêêê!!!
Olha a folia da solidão coletiva!!!
Hêêêêê!!!
Olha o pessoal cagando pro que eu tô falando!!!
Hêêêêê!!!
Olha o Hêêêêê!!!
Hêêêêê!!!

- Estamos ao vivo do meio da folia pra todo o Brasil... Tem um folião aqui e vou conversar com ele! E aí amigo? Que tá achando da festa?
- Sóóóóóóóóó...
- Muita mulher bonita?
- Sóóóóóóóóó...
- O que você tem a dizer pra quem tá em casa?
- "?"

... passaram-se alguns segundos, afinal de contas a pergunta foi muito complexa... o folião enfim responde... e a produtiva entrevista continuou...


- Sóóóóóóóóó...

- Veio com a turma ou sozinho?
- Sóóóóóóóóó...
- E como você se sente curtindo essa folia sozinho no meio desse mar de gente?

... a resposta? adivinha!?


- Sóóóóóóóóó...


Mas tem essa não
Vamos pra folia meu irmão
E tôme pancadão
É tempo de folia
É tempo de curtição
Tá todo mundo convidado
Pro bloco da solidão

... a folia de pessoas que fingem a pseudo-felicidade e o vazio contentamento de achar (fingir?) que tem tudo não tendo absolutamente nada...

Imbecil
É isso que sou

Por quê?
Por quê meu Deus?
Como fui deixar acontecer?

Escapou por entre meus dedos
Nunca mais vou vêla
Nunca mais
Nem na vida
Nem no carnaval
Nunca mais

Ela

Um lindo rosto
Perdido na multidão

Adeus

Mas tem essa não
A fila anda mah
Levanda a cabeça
E vamos
Vamos pro baile de máscaras
Basta sair de casa e verá
Em meio a tempestades de goma
E o brilhar de confetes
O carnaval das vaidades e ostentações

Eu desisto
Não luto mais
Me entrego
Vou ao baile de máscaras

Ponho a máscara da felicidade
E mergulho no mar de sorrisos falsos
Eu sou um gênio
Felicidade
Minha melhor fantasia

E quando o bloco passa
De repente tudo perde a graça
Foi tão rápido
Nem percebi
O tempo não perde tempo

E volto pra casa na quarta
Com a alma em cinzas

E é com muito pesar que tiro minha máscara
Finalmente
Ai que dor

Contemplo meu rosto no espelho
E pra minha triste surpresa
Percebo que não tenho rosto
Tudo o que vejo é um imenso vazio
O nada

Mas tem nada não
Ainda bem que máscaras é o que não me falta
E pra ocasiões assim tenho uma perfeita
Uma máscara que particularmente não gosto
Mas faz-se necessária nesse exato momento

Ponho a máscara da rotina
E sigo o enfadonho bloco do cotidiano

Qualquer coisa é melhor que ser vazio
Longe de mim ser o que sou
Sou o que não sou

Viva as máscaras!!!
Hêêêêêê!!!

É melhor assim
Acredite

Tá triste?
Infeliz?
Sozinho?
Amargo?
A cabeça dói?

Eu te pergunto:

Quem se importa?


Eis a realidade!
Ninguém se importa camarada!

Uma solução?

Simples

Finja!!!

É melhor fingir

Fingir que não é amargo
Fingir que acredita
Fingir que se importa
Fingir que é interessante
Fingir que é feliz

Fingir


Entendeu?

Entendeu mesmo?


Então meus parabéns!!!

E adeus


E pra não perder o costume
Um último brado pra comemorar o fato de não ter o que comemorar
Então lá vai
Todo mundo junto
No três
1
2
3

Hêêêêêêêê...

"Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor"

Trecho da canção "A Banda" de Chico Buarque de Holanda

E LEMBRE-SE:

"Todo carnaval tem seu fim..."
(Marcelo Camelo)

P.S.- A trilha sonora do meu carnaval?
"O bloco do eu sozinho"(Los Hermanos)

George Facundo

Sejam bem-vindos à Casa de Alice...

...porém cuidado; você pode não se sentir à vontade.





Alice é uma mulher na altura de seus 40 anos, manicure, que levanta cedo, ônibus, trabalho, ônibus, casa. Alice mora com o marido (Lindomar), os três filhos (Lucas, Edinho e Junior) no pequeno apartamento no subúrbio de São Paulo que pertence a sua idosa mãe (Dona Jacira) que diariamente acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha, arruma a casa e dorme... e acorda, lava, passa roupa, cozinha... e vez por outra têm sérios problemas no coração e é afligida por um probleminha de catarata, que tenta, com um esforço comovente, disfarçar. "Já viu o preço do colírio?"
Alice e Lindomar estão casados à vinte anos. Lindomar é taxista, e dentre outras coisas, gosta de tomar uma cervejinha com os amigos e transar com ninfetas. Lucas, Edinho e Junior são os filhos do casal, com idade entre 16 à 25 anos. Garotos que, como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos.

Esse enredo é do premiado filme "A Casa de Alice" (Brasil-2007), um drama que se passa no subúrbio de São Paulo.

Você deve estar pensando: o que têm de mais? É apenas a realidade!

Pois muito bem caro leitor...

Rita é uma mulher trabalhadora, têm por volta de seus 40 e poucos anos. Funcionária pública mal remunerada, tenta compensar o baixo salário sendo "galega" nas horas vagas. Pobre Rita! Acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, ônibus, casa... e acorda, ônibus, trabalho, ônibus, mais trabalho, casa... e ônibus, trabalho, ônibus... e têm, devido ao extresse cotidiano, sérios problemas de pressão baixa, colesterol elevadíssimo, tirando as pitadinhas de depressão. Rita têm dois filhos; George(26) e Thaís(16) que, "como todos os filhos da classe média baixa de qualquer lugar, têm seus próprios sub-mundos e segredinhos mórbidos".

Rita namora Wando, mecânico, com o qual mantém uma relação de dependência, mas que no entanto nunca a satisfaz por completo. Wando é um homem que entrou na vida de Rita com uma bagagem (enrolado com a ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai). Rita sofre por perceber que, entre históricos de ex-mulher e dois filhos apegadíssimos ao pai, ela, em uma porcentagem justa, talvez tenha do Wando algo em torno de 8,3% de atenção. Pobre Rita, cobra do pobre Wando um preço alto, do qual ele nunca vai poder pagar.

O filho mais velho de Rita chama-se George (26), ela por toda a vida, de uma forma desesperadamente auto-sacrificial, investiu 110% de si para proporcionar ao pobre garoto sem pai a melhor educação que ela poderia dar, colocando-o em bons colégios e sempre dando a ele um relativo conforto.
Pobre Rita, não imaginava que seu filho ia se tornar um garoto acomodado que ia desperdiçar todas as chances (e boas chances) de se dar bem na vida. Pobre Rita, viu escoar pelo ralo a possibilidade do filho prosperar, proporcionando a sua pobre e sofrida mãe um mínimo de conforto em sua quase velhice. Pobre Rita! Pobre Rita!
George, como todo bom cara-de-pau mimado, tornou-se um parasita, sugando de sua miserável mãe o que ela tinha (e não tinha) para satisfazer seus mais insanos e irracionais caprichos.
George percebeu (ao menos isso...) sua triste condição às portas de completar seus 26 anos. Tenta correr atrás do prejuízo, mas o tempo é cruel. Será que consegue? Difícil.
Que Deus o ajude!

Sua filha mais nova se chama Thaís(16)... não, não me atrevo...

Isso não é outro filme...

É minha vida!

Sou, por natureza, um grande pessimista! Penso que, devido a minha própria condição, sempre tive predileção por livros e filmes que retratassem a desesperança. Porque, pra ser sincero, é mais fácil acreditar nela. Tenho uma doente atração pelos perdedores.

Por isso sou apaixonado pela literatura de Charles Bukowski (1920-1994), escritor americano considerado o grande profeta dos perdedores e mazelados deste mundo sem sentido. Bukowski revela e esmiuça o anti-sonho; um mundo de marginais, viciados, bêbados e prostitutas, dos quais só não se pode dizer que estão na sarjeta porque sempre decaem um pouco mais.

Assim como na história do filme "A Casa de Alice" e minha própria vida, Bukowski descreve as pessoas tal qual na vida real, retratadas de forma triste, divertida, escatológica e universal, em toda sua vulgaridade e realidade.

A realidade da rotina é chocante ilustre leitor! Porque é bem certo que nosso lar (casa) é, de forma geral, o lugar onde as pessoas (família) conseguem extrair (como tirar pus de uma inflamação) o que há de pior em nosso caráter. Todos os meus e os seus viciozinhos e segredinhos mais insanos não são segredos para quem convive comigo e com você à mais de 20 anos. Basta um pequeno vacilo, um desentendimentozinho à toa, e você vai ter a desgraçada experiência de ver e ouvir, impotente, seus segredos e mazelas serem vomitadas sumariamente na sala de sua casa diante de todos. É de fato, algo animalesco! Acreditem!

É chocante amigos! Comovente e chocante!

Então pergunto: Há esperança!?

Muito bem ilustre leitor, minha porta agora está escancarada para você! Pode entrar! E fique à vontade!

Ou não!

"Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:
Os velozes nem sempre vencem a corrida;
os fortes nem sempre triunfam na guerra;
os sábios nem sempre têm comida;
os prudentes nem sempre são ricos;
os instruídos nem sempre têm prestígio;
pois o tempo e o acaso afetam a todos."
ECLESIASTES 9:11

George Facundo