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06 janeiro 2014

Meu Pequeno Ozzy

Capítulo 1
Morfeu, o black dog dos meus sonhos!

Meu ex sonho de consumo

No geral sou um cara superficial em relação a cães. Sempre fui do senso comum e, como quase todo senso comum, sempre sonhei em ter um labrador. Era a primeira coisa que ia fazer (pretendia eu) quando finalmente casar e, de preferencia, morar em uma casa com um espaço razoável para criar esse animal de médio/grande porte com todo cuidado e mimo do mundo. Me imaginava e sonhava com ele em várias situações - praias, sítios, festas comemorativas com ele fantasiado à caráter, iria virar um dono de cão super cool com fotos iradas no Facebook. E sempre quis ter um cachorro grande e todo preto por conta da minha música do Led Zeppelin predileta: "Black Dog".

Led Zeppelin - "Black Dog" 



Finalmente esse dia tão esperado chegou!

- Oi Gê, aqui é Alice!
- Diga lá queridona! A quanto tempo!
- Pois é Gê, tô te ligando por quê tô meia aperreada ó...
- Que foi menina?
- Bem, moro num apartamento pequeno e lá na casa da minha mãe vai ter uma reforma gigante e todo o terreno da casa vai embora pra virar um centro comercial. Aí Gê tô com o coração na mão por quê não sei com quem deixar o Morfeu...
- E quem é Morfeu?
- Meu labrador preto de 2 anos... Ele é mistura de labrador com chao-chao... Então ele é um labrador perfeito só que a língua dele é roxa... É a coisa mais linda, super dócil e tal... Apesar de ter muita gente brigando pra ficar com ele, sinceramente pensei em ti ó George... Tá afim de ficar com ele? ... George? ... George?
- Caraaaaaaaaaaamba que massa!!! Quero sim, nossa que sonho...

E aí meu sonho se concretiza. Agora é só preparar a casa para recebê-lo - ajeitar o jardim, instalar portão lateral, etc.

Dois dias depois recebo outra ligação:

- George, aqui é a Nice amiga de sua mãe... Olha só, tô com três filhotes aqui no meu abrigo (ela tem um abrigo só que a prioridade é gatos) e realmente tô numa situação bem complicada porquê não tenho como ficar com eles, e eles nem são vacinados ainda, o que os tornam impossibilitados de ir pra feira de adoção. Enfim, tô ligando prum monte de gente pra ver se tem quem os adote, senão vou ter que levá-los pra zoonoses. Resgatei eles de uma mulher que ia jogá-los no rio. Era uma ninhada de 8 e apenas 4 sobreviveram, e destes 4 um filhote ainda desapareceu.
- Olha, ééé, ummm... Bem, estou prestes a adotar um cachorro já, mas vou falar com a Lorena (minha esposa), acho que talvez role a gente adotar só um deles...
- Tranquilo, temos dois aqui bastante saudáveis... E já limpei eles totalmente... Os coitados estavam entupidos de carrapatos e pulgas... Passei remédio e tudo... Só um deles que tá mais fraquinho... Foi o mais maltratado e rejeitado da ninhada.

- E aí Lorena?
- E aí que vamos lá... E vamos adotar o mais fraquinho porque ele tem menos chance de ser adotado.
- Beleza cara, mas seguinte, lembre-se que eu quero o Morfeu, então chegar lá vamos escolher só um e pronto! Só um viu! Sóóó um! Estamos entendidos?

Capítulo 2
Os três mosqueteiros
ou A Senhora dos Gatos


Ozzy, Floyd e Pink

Nice é a melhor amiga de minha mãe. Ela é uma daquelas mulheres obstinadas que fez da proteção aos gatos uma filosofia de vida. Entramos na casa dela e tivemos essa constatação. Nunca tinha visto um amontoado tão grande de gatos. Por toda parte que se olhava percebia que era observado por grandes olhos curiosos de inúmeros bichanos. Gatos de todos os tipos, cores e tamanhos. E ela, Nice, desfilava no meio deles como uma verdadeira rainha.

Além de seus gatos, ela alimenta os gatos da UECE (Universidade Estadual do Ceará) do bairro Itapery e, claro, os gatos de sua vizinhança que, infelizmente (segundo ela) não cabem mais em sua casa.

Chegando ao quintal, no meio de todos aqueles gatos, logo pudemos ver aqueles três pontos marrons. E foi aí que, pela primeira vez, vi os três irmãos sobreviventes.

- Owwww ammor, olha só ele, tá tão fraquinho! Qual vai ser o nome dele?
- Sei lá Lorena, ele tá tão magrinho... Cabeça enorme... Ummm... Que tal Smeagol?
- Credo George! Ele é do bem, e independente das coisas ruins que ele passou está conseguindo sobreviver!
- Tá, então vai ser Ozzy!
- Ótimo! Bem, e os outros?
- Como assim "e os outros"?
- Owww amor, olha só como tão olhando pra gente!
- Não, não, não Lorena! Não inventa!
- Tá bom então... Vamos deixar eles aí pra ir pra zoonoses...
- Putzgrila Lorena! Seguinte, tem mais um macho e uma fêmea... Escolha só mais um e pronto!
- Tá, vou levar o macho!
- Pronto Nice, vamos levar os dois machos. Quem cria um cria dois!
- Ótimo, vou conseguir aqui uma caixa bem grande e vou dar comida e mais uma dose de remédio de verme. Vai dar para uns dois dias.
- Valew Nice... Você quer alguma ajuda de custo?
- Naaaaaaaaada meu povo! Quero ajuda não! Vocês é que tão ajudando!

Indo pro carro, com os dois filhotes na caixa, não conseguia parar de olhar para os olhos da fêmea que ia ficar. Ela tentava acompanhar os irmãos e, pra piorar, dava aqueles gemidinhos de cachorro triste. E pra piorar ainda mais, acho que ela deve ter aprendido com os gatos a fazer aqueles olhinhos do Gato de Botas do Shrek.

- Bora Lorena... Pega ela também! Quem cuida de dois cuida de três!
- E o Morfeu?
- Unf...

Capítulo 3
The Big Family


Eu e meus três mosqueteiros
Pink, Ozzy e Floyd

Então fomos nós! Eu, Lorena, o pequeno Ozzy e...

- Bem, e o nome deles?
- Há, sei lá... John e Yoko?
- Não, eles são irmãos e não um casal, tipo, casal de verdade saca?
- E desde quando cachorro liga pra isso?
- Gê, John e Yoko não! É incesto!

E no som do carro começa a tocar:

"... Hello? Is there anybody in there? Just nod if you can hear me? Is there anyone at home?"

- Acho linda a melodia dessa música!
- Taí! Perfeito! A Pink e o Floyd!
- Hahahahaha! Doido! Nada a ver!
- Doido nada... Troquei um labrador de língua roxa por eles! Ponho o nome que eu quiser e vai ser Pink e Floyd!

Pink Floyd - Comfortably Numb



E aí começou nossa, digamos, primeira vida familiar de um casal recém casado com três filhotes em casa.

O período de adaptação foi mais tranquilo do que imaginávamos. Talvez pelo fato de termos adotado três, e um fazer companhia ao outro, não houve tanto chororô da parte deles.

Com o passar dos dias, na rotina diária, fomos conhecendo um pouco mais da dinâmica de convivência deles. Floyd era o mais, digamos, bobão. Passivo a tudo o que a fêmea Pink fazia. Geralmente era o mais medroso, e quando tomava uma atitude era um maria-vai-com-as-outras. O Ozzy era o mais, digamos, introspectivo e recluso. Talvez pelo fato de ser o menorzinho do grupo, e por claramente ser o fisicamente mais debilitado, ele tinha grande desvantagem nos momentos das "brincadeiras" deles. No geral, ficava deitado e era metido a valente. A fêmea fazia o meio de campo entre eles. Ela que dava movimento ao grupo, liderando-os nas explorações no quintal, nos protestos de fome na porta da nossa sala (latidos infernais) e, quando ela via que o Ozzy tava muito tempo deitado, ia lá e ficava arrastando a cama dele de lugar do tipo "acorda pra vida cara". Com o Ozzy ela às vezes era rude, ficava irritando ele, meio que tirava ele de sua zona de conforto. Mas isso era alternado com claras demonstrações de carinho. Ela por vezes passava tempos bem longos lambendo o Ozzy, suas orelhas, sua boca, seu corpo. E aparentemente isso o animava muito.

Eu sempre tive receio de trazer animais pra casa. Tinha medo de que os bichos fossem prender eu e Lorena em casa. Não íamos poder fazer viagens de longo tempo, não íamos ter limpeza e organização em casa, iam ser zuadentos, enfim, temia que minha casa virasse um caos. Porém estava redondamente enganado. Esses animaizinhos trouxeram muita vida pro meu recém criado lar. De certa forma, cuidar deles até aprofundou ainda mais meus laços com minha mulher. Sei lá, é uma coisa que simplesmente eu não consigo explicar.

Agora mesmo enquanto escrevo estas linhas vejo minha mulher no sofá e nossos filhotes aos pés dela. Misteriosamente o Floyd desenvolveu uma ímpar curiosidade por TV. Já a Pink fica entre o sono e acordar, fazer aquele olhar para mim de longe, com suas orelhas de morcego levantadas e, quase que consigo enxergar uma nuvem de diálogo saindo de sua cabecinha com a frase "Por quê esse humano idiota não vêm brincar comigo? Saco!"

Vou ali brincar um pouco com ela. Volto já!

...

20 min. depois...

Pronto, voltei!

Onde eu estava? Há sim, lembrei!

Se fôssemos olhar como uma escadinha a Pink seria de longe a maior. O Floyd estaria um pouco abaixo da Pink. Já o Ozzy, apesar de comer proporcionalmente igual aos outros, por um motivo que eu não conseguia entender, simplesmente não crescia. E definitivamente isso começou a virar uma preocupação para nós... Pais aflitos.

Capítulo 4
Vamos Ozzy! Resista!


Ozzy já na fase "dormir mais que o normal" 

Preocupados com o estado do Ozzy e também com Floyd (que também percebemos estar emagrecendo e com falta de apetite), levamos todos para uma clínica muito boa aqui no bairro chamada PetSanus, do dr. Gustavo Coser. Foi passado uma bateria de exames e um sem número de vitaminas, suplementos, e, bem, lá se foi nossas economias para um fim de ano em alguma pousadinha em beira de praia.

Temíamos muito que a falta de apetite do Floyd e Ozzy, bem como a aparente anemia neles (bem mais intenso no Ozzy) fosse calazar. O que, segundo nossas parcas pesquisas no Google ia significar ou o caminho da eutanásia ou um longo e caro tratamento.

No outro dia, com o coração na mão, ligamos para a clínica e foi constatado que tanto o Ozzy quanto o Floyd estavam com a doença do carrapato.

Nossa, lembro a Nice (do abrigo para gatos) relatando que todos os três estavam com as orelhas literalmente entupidas de carrapatos. Os meus três sobreviventes. Meus fortes sobreviventes.

Enfim, começamos o tratamento nos dois e na Pink que, apesar de não ter acusado a doença, incluímos por pura precaução no tratamento para prevenir ou eliminar caso a doença estivesse apenas encubada no corpo dela. E lá se foram as economias dos móveis planejados para o início do ano para nossa sala de estudos.

Mas mesmo assim não nos arrependemos em momento algum do "investimento". Afinal, eles eram nossa responsabilidade. Assumimos o sério compromisso de cuidar deles, e era isso que íamos fazer.

Então vamos lá! Medicação regulada, vitaminas, tabela de horários e eu e Lorena tentando ser os melhores enfermeiros possíveis.

Pink e Floyd reagiram super bem ao tratamento. Já o Ozzy, a cada dia que passava, apesar de comer e tomar as vitaminas como os outros, simplesmente não engordava nem crescia. E a partir de então a coisa só foi piorando, principalmente sua anemia.

Fisicamente o Ozzy começou a definhar. Seus ossos começaram a se destacar em sua pele. Ainda assim era comovente ver que, apesar dele maior parte do tempo ficar deitado e dormindo, sempre que podia ensaiava brincar com seus irmãos. Quando não ele tomando iniciativa, a Pink ia lá onde ele estava e arrastava a caminha dele para o meio do corredor e começava a "implicar" com ele, do tipo "vai passar o dia todo deitado aí zé mané?".

Eu e Lorena ficamos o tempo todo hidratando ele a cada 15 minutos com soro. Nas febres intermináveis dávamos remédios, e a coisa passou a oscilar entre ele estar bem ou mal. Ozzy até certo momento conseguia ter pleno controle de seus movimentos. Sua musculatura ainda permitia que ele andasse, latisse, etc.

Até que um dia ele simplesmente passou a não levantar mais, e eu passei a me me sentir desamparado e com o coração na mão, igual a mãe do Cazuza.

Capítulo 5
Uma longa noite




Num espaço de poucos dias Ozzy emagreceu assustadoramente

Já era noite bem avançada. Fui botar comida pros filhotes e Ozzy permaneceu lá, estendido em sua caminha. Quando fui pegar e dar colo a ele, ao invés da febre habitual, percebi que ele estava com as orelhas e patas bastante frias. Sua gengiva estava quase branca, bem como sua língua. Pegamos ele e imediatamente fomos à clínica.

00:20h

- Gente, nesse caso aqui só uma transfusão viu.
- Ótimo! Vamos fazer! Pode começar!
- Mas pra fazer uma transfusão tem que ter uma bolsa de sangue...
- O sr. não tem aí?
- Não...
- Putz...
- A coisa funciona da seguinte forma. Vocês conseguem um cão doador que tenha no mínimo 30kg e que seja saudável... Aí vocês com isso economizam R$ 200,00.
- E quanto é o processo todo?
- Em torno de R$ 500,00.
- Putz... E onde é que a gente encontra um cão doador numa hora dessas? Do jeito que ele tá aqui acho que não aguenta até de manhã... Será que em outras clínicas 24 horas têm ein?
- Não sei amor... Só tentando.
- Pois é, se vocês quiserem tentar... 

1:00h

Eu e Lorena, aflitos, resolvemos sair procurando uma bendita bolsa de sangue em alguma clínica 24h. Fomos em pelo menos 3 ou 4 e nem sinal de bolsa. Ozzy debatia no meu colo impaciente, irritado com o balanço do carro somada a sua clara dificuldade em respirar. Depois de receber vários "não temos bolsa de sangue" voltamos para casa.

3:40h

No trajeto de volta observei seus olhinhos curiosos olhando o mundo lá fora. Observando luzes, faróis de carros, uma ou outra pessoa na calçada... Nossa, como eu queria que ele saísse dessa! Por tudo que ele tava lutando ele merecia a cura! Definitivamente! Ao longo da av. Washington Soares, naquela fria madrugada, o pequeno Ozzy olhava o mundo pela janela e olhava pra mim. Como pode a gente criar tanto amor por uma criaturinha dessas? No rádio começou a tocar "Don't Know Why" da Norah Jones e meu coração desabou de vez...

Norah Jones - "Don't Know Why"



Capítulo 6
Anjos Desconhecidos

4:20h

- E agora amor, o que a gente faz?
- A gente tem que esperar amanhecer pra fazer alguma coisa... Não conheço ninguém que tenha um cachorro com 30kg...
- É osso viu Gê... Olha amor, Ozzy tá muito mal!
- Vamos continuar hidratando ele com soro já que ele vomita toda comida que a gente dá pra ele...
- Tá certo!
- Ó, acho que tive uma ideia... Vou jogar um apelo no Face pra ver se alguém conhece alguém que tenha um cão nesse perfil que possa ajudar a gente!
- É uma boa Gê já que tu é quase prefeito do Face!
- Deixa eu tirar uma foto de vocês dois...


Foto que tirei da Lorena cuidando do Ozzy no final da madrugada 

" UM APELO... Nosso filhote Ozzy está muito doente... Ele foi detectado com a doença do carrapato e, além disso, ainda está com uma anemia profunda. Ele nasceu num "lar" onde foi muito maltratado e negligenciado junto com seus dois irmãos (a Pink e o Floyd). Adotamos os três (os únicos sobreviventes de uma ninhada de 8 e temos, eu e Lorena GGuerra dado muito amor e carinho a eles. De todos o Ozzy foi o mais maltratado pelos antigos donos. Enfim, são 3 da manhã e ainda estamos acordados de plantão cuidando dele e o Ozzy precisa urgentemente de uma transfusão de sangue... Para que isso ocorra temos que ter como doador um cachorro que pese no mínimo 30kg e seja saudável. Podemos até fazer todo o translado... A clinica é muito boa e para o animal que vai fazer a doação é super seguro uma vez que a doação é de apenas 100ml de sangue. Por favor lhe peço que se você tem ou conhece alguém que tenha um cachorro dentro destas condições por favor nos contate!!! A gente tá muito aflito e desejamos muito que ele sobreviva. Essa transfusão é a única chance que ele tem! Nos ajude! É urgente! Ass. George e Lorena"

- Pronto amor, enviei! O Ozzy dormiu, vamos tentar dormir um pouco...

7:00h

- Caramba Lorena, olha aqui!
- Mais de 100 compartilhamentos!
- Olha aqui amor na minha caixa de mensagens! Muita gente me escrevendo sendo solidário e oferecendo seus cães para a bolsa de sangue!
- Caramba que massa!

7:40h

por telefone

- Oi Lorena, aqui é o dr. Gustavo da clínica. Olha só, consegui uma bolsa de sangue. Um conhecido meu vai me vender uma. Então é o seguinte... A única coisa que eu quero que vocês façam é pagar pro cara essa bolsa de sangue que custa R$ 200,00. No mais, quanto a todo o processo e internação pode deixar conosco.
- Que massa dr. Gustavo! Muito obrigada! Estamos indo praí agora!

Muito comovidos pela solidariedade no Face e com a boa vontade do dr. Gustavo levamos o pequeno Ozzy (muuuuito debilitado) para a clínica.

8:00h

- Olha, eu tenho que ser absolutamente sincero com vocês. O risco de morte do Ozzy nesse processo de transfusão, dado o próprio quadro clínico dele, é considerado de alto-risco. Vou fazer o melhor que posso, mas de antemão tô informando porquê realmente o estado dele é grave...
- Tá certo dr. Gustavo... Estamos totalmente cientes disso, mas mesmo assim obrigado por reforçar. Aconteça o que acontecer vamos saber que o senhor e, principalmente o Ozzy, deram o melhor de si.
- Gente, esse cachorro é muito forte! Se ele fosse de raça já teria morrido há muito tempo!
- Pois é dr. Gustavo. Por isso coloquei o nome dele de Ozzy, que desde que era do Black Sabbath até hoje passa por poucas e boas mas nunca morre.
- Vou ficar mantendo vocês informados de tudo. Vou ligar quando a bolsa chegar, quando tiver rolando a transfusão, quando tiver acabado, e depois de algumas horas pra dizer a reação. E por falar nisso, geralmente o processo pra saber se ele reagiu bem a transfusão se dá ou nas primeiras horas após a transfusão, ou depois de 42h.
- Tá certo então dr. Gustavo. Novamente obrigado!
- Agora vão pra casa descansar que a noite de vocês foi muito longa!

Ozzy estava tentando ficar em pé na mesa de metal do consultório. Quem encostasse nele, mesmo sendo eu ou Lorena, ele tentava morder. Sua debilidade devido à anemia já atingiu seu pequeno e frágil sistema nervoso. Ele voltou a deitar, ficou com seus olhos demoradamente olhando para mim e Lorena. Me sentia absolutamente impotente.

Agora é contigo Ozzy! Pensei...

Então o ajudante do dr. Gustavo o levou para a internação. Enquanto ele era levado da sala não tirava os olhos de mim. Animal tem essa coisa de olhar nos olhos da gente. Eu ainda não sabia, mas foi a última vez que o vi...


Capítulo 7
O grande legado do pequeno Ozzy à minha família


Ozzy


Apesar de à princípio ter reagido bem a transfusão, e de ter passado boa parte do dia em situação estável, houve alguma complicação em seu organismo que gerou um ataque cardíaco no final da tarde... Os esforços profissionais do dr. Gustavo conseguiu trazê-lo de volta, porém, houve uma segunda parada poucos minutos depois que, infelizmente, foi fulminante para o pequeno Ozzy.

Optamos por não ver o corpo. Deixamos esse serviço para a clínica. Apesar da tristeza daquele momento, no fundo sentimos um certo sentimento de dever cumprido. Tínhamos claramente em nossa consciência o fato de ter feito tudo o que estava em nosso alcance. E, dado o quadro tão frágil do pequeno Ozzy, também sentimos certo alívio por sua dor e sofrimento ter sido (da forma mais triste possível, claro) aplacado.

Foram apenas 18 dias.

Me pego pensando sobre esta mística quase universal que existe nesta relação dos humanos com cães, gatos, cavalos e outros bichos.

Como um cara como eu pode se tornar tão sensível a dor de um filhote e ir numa McDonald's comer um sanduíche suculento de carne de uma vaca, esse ser mamífero cheio de sensibilidade iguais aos meus cães?

Talvez um leitor mais reacionário venha me falar de crianças humanas, órfãos e sem pais, que precisariam também de cuidados e amor.

Concordo plenamente também!

Acontece que eu sou envolvido com aquilo que naturalmente aparece em meu caminho. Se provavelmente alguém colocar um filhote de bezerro na minha porta, bem como uma criança dentro de um cesto com uma carta sensacionalista com o final "cuide dele por favor!", muito provavelmente era isso que eu ia fazer... No primeiro caso nunca ia permitir que alguém fizesse um churrasco com meu bezerro, que muito provavelmente ia se chamar Paul, em homenagem ao Paul McCartney.

Então me aparecem três filhotinhos. Não fomos atrás! Nos procuraram, ligaram, falaram da situação, e eu e minha mulher simplesmente respiramos fundo e dissemos: Então tá! E mudamos muitos dos nossos planos... Incluindo descartar o super labrador Black Dog preto de língua roxa...

Chegamos em casa muito tristes e fomos recebidos por uma Pink e um Floyd nos lambendo freneticamente, latindo e se esfregando em nossas pernas. Não sei se aquele entusiasmo todo era pra nos dizer um "siga em frente!" ou um "nos alimente!", ou as duas coisas.

Ozzy nunca sairá de nossos corações. E esses dois lindos filhotes vão estar aqui em casa para nos lembrar dele todo santo dia. Junto com meus discos do Black Sabbath também, obviamente...

Adote um animal!

Não, calma, não tô falando do seu amigo idiota... Tô falando de um animalzinho mesmo. Um gato, um cão, um porquinho da índia, sei lá. Só sei que esses filhotes trouxeram muita luz e serenidade ao meu lar, mesmo com todos os latidos e gemidos infernais que eles produzem. Mesmo a Pink fazendo xixi em minha revista de música predileta, ou o Floyd confundido um dos belos sapatos da minha esposa com uma mini privada. Nós os amamos do jeito que eles são. E, como casal, aumentamos muito nossa cumplicidade cuidando deles.

E por favor, se quiserem muito um cão ou um gato, não sejam racistas (como eu era) e vá à uma das várias feiras de adoção que deve ter em sua cidade e adote um lindo vira-lata cheio de amor e carinho pra dar.

Aqui em Fortaleza tem várias destas feiras! O São Google lhe diz onde, basta consultá-lo!

*  *  *


Agradecimentos

Em primeiro lugar gostaríamos (eu e Lorena) de coração agradecer os 175 perfis do Facebook que compartilharam nosso apelo. Também a inúmeras pessoas que nos escreveram in box nos oferecendo ajuda e a todas as mensagens de encorajamento e apoio que recebemos.

Em segundo lugar agradecemos ao dr. Gustavo Coser da clínica PetSanus, que sempre nos demonstrou um sincero interesse ao nosso caso, e que desde o início cuidou e acompanhou muito bem nossos filhotes. Tenho absoluta certeza que ele fez o melhor que pôde pelo pequeno Ozzy. De igual modo ao também Gustavo, seu assistente, e a Bruna, sua atendente que sempre nos recebe com muito carinho e nos faz sentir super acolhidos.

Dr. Gustavo segurando a Pink
e seus excelentes assistentes Bruna e Gustavo, segurando o Floyd 

E por último, e não menos importante, a você querido leitor, que leu o texto até o fim... Obrigado!

14 outubro 2013

Resenha Livro's: Xógum - Tomo's 1 e 2



Livro: Xógum
Autor: James Clavell (1924 - 1994)
Ed. Nova Cultural
1251 páginas

Ufa! Finalmente terminei esse livro. Foi difícil pois tive que conciliar a leitura deste com uma série de compromissos acadêmicos (trabalhos e mais trabalhos), e esse período de mudanças (casamento, mudança, casa nova, adaptação). Enfim, demorei uns meses pra conseguir concluir estas mais de 1200 páginas. Mas lhes asseguro que sim, valeu muito à pena.

Consegui este livro da forma mais calhorda (e clássica) para um entendedor dos loucos por leitura. "Roubei" este livro da estante da minha ex-sogra (uma devoradora de livros igual a mim) pedindo "emprestado" e nunca mais devolvi.

O livro Xógum se passa em 1600 em um Japão feudal. Conta a saga de um inglês piloto marítimo experiente (Capitão John Blackthorne) que tem o navio naufragado na costa do Japão e tem ele e seus poucos tripulantes sobreviventes como prisioneiros dos japoneses.

Gosto muito de narrativas que falam de adaptação. De choque ou de duas culturas ou de duas pessoas tentando conviver e coexistir apesar das diferenças, e esse livro tem muito disto. Esse piloto inglês vai ter que se adaptar aos costumes japoneses, costumes esses muito diferentes da maneira ociental de ser.

Neste sentido o livro lembra um pouquinho o filme O Último Samurai (EUA - 2003), apenas neste sentido de um ocidental tendo que, na marra, aprender os costumes estrangeiros e, com o tempo, o que é estranho passar a ser admirável e, daí, dá-se o deslumbramento, descoberta e apropriação da cultura para si.

James Clavell teve uma sacada que eu sempre admirei em outros autores. Xógum poderia ser narrado como um livro sobre história, uma vez que muitos dos acontecimentos e personagens realmente tem veracidade histórica, tendo apenas os nomes trocados. Mas, ao invés de criar um livro para se estudar, ele criou um romance em cima da história para que possamos nos entreter e ao mesmo tempo aprender. O livro leva você ao verdadeiro mundo dos Samurais, dos costumes e tradições (e crenças) japonesas. E você, assim como o ocidental inglês, vai adentrando nesta cultura, estranhando tudo no início, e aos poucos vai assimilando toda a filosofia de vida dos japoneses, e acaba por se tornar fã da cultura.

Interessante como os japoneses encaravam questões como morte, sexo, honra, etc. O livro é muito rico em detalhar, através da boca e ações dos personagens, suas crenças e definições para estas e outras tantas questões. Sem contar questões políticas, jogos psicológicos, conspirações, as relações de poder, e por aí vai.

O fato da narrativa ser longa e me cansar um pouco também não vejo como algo negativo. É bom para o leitor ter essa pouca noção do que é o desgaste de uma jornada, onde as coisas não acontecem tão rápidas e objetivas como em filmes de 1h e meia. O massa do livro é realmente lhe colocar dentro desta rotina diária dos japoneses, até que, aos poucos, o exótico e diferente passe a ser para você leitor algo normal, aí você vai se adaptando junto com o próprio personagem.

Na década de 80 este livro virou uma série de tv que fez muito sucesso. Esse livro deveria ser revisitado pelas produtoras pois certamente, com os recursos tecnológicos hoje, esse livro seria uma série espetacular.

Demorou mas terminei este livro chegando às últimas páginas com tristeza por ele acabar, junto com todos os personagens fascinantes. Mariko, a mocinha e heroína do livro ficará com toda sua beleza, inteligência e sabedoria, para sempre gravada em meu coração. A força da mulher japonesa (para o bem e para o mal) é algo interessantíssimo narrado no livro.

Enfim, super recomendo e boa jornada!

09 setembro 2013

Resenha CD's: Nara Leão - Nara (1964)



Artista: Nara Leão
Álbum: Nara
Ano: 1964
Gravadora: Elenco

Nara Leão indiscutivelmente é considerada uma das musas maiores da chamada Bossa Nova. Não era por menos. A Bossa basicamente nasceu em meio aos vários encontros musicais que rolava no apartamento dela, na Avenina Atlântica, em Copacabana. Largou os estudos formais para se dedicar integralmente à música e, aos 22 anos, lançou este disco que é um dos pilares fundamentais da Bossa Nova.

Mas muita calma, pela capa percebe-se claramente que essa garota de 22 anos, apesar de toda delicadeza, tinha sim muita coisa a dizer. Seu disco sai do comum na Bossa Nova, passa longe dos passarinhos a voar, o vento de Copacabana no rosto à tardinha, aquela coisa lindinha e fofinha das letras da Bossa Nova. Não, ao contrário, ela vira as costas para a praia e sobe o morro e escolhe compositores que cantam o povo, à terra, as pessoas, e claro, cantam a melancolia, a solidão e os corações partidos.

Sempre me fascinei com o fato do samba ter esse poder de ter um ritmo tão, digamos, alegrinho, mas ao mesmo tempo passar uma tristeza e melancolia tão grande. Aprecio muito este contraste. E Nara soube muito bem dosar isso, saindo da obviedade e adentrando em seus próprios sentimentos no que diz respeito a como enxergar a vida, as pessoas e o amor, ou o que as pessoas chamam de amor.

Uma noitada normal no apartamento de Nara Leão

"Marcha De Quarta-Feira De Cinzas" já abre o disco com aquela sensação de vazio pós carnaval. Naquela triste volta à rotina, onde as pessoas tiram suas fantasias e põem a máscara do cotidiano.

"O Sol Nascerá (A Sorrir)", "Luz Negra" e "Consolação" são sambinhas lindos com toda a sua beleza melancólica do amor que faz sofrer.

As densas canções "No Morro (Feio Não É Bonito)", "Canção Da Terra", "Berimbau" e a incrível "Maria Moita" mostram que Nara Leão era uma garota super antenada aos principais problemas sociais em nível nacional e, também, na dimensão da periferia de sua tão queria "cidade maravilhosa". A questão da reforma agrária e a condição da mulher submetida a uma condição sub-cidadã dominada por uma sociedade machista mostra uma Nara Leão de fato engajada ideologicamente na emancipação do povo e, principalmente, das mulheres.

As valsinhas "Vou Por Aí" e "Réquiem Para Um Amor" são de partir o coração. Uma delícia!

O disco termina com "Nanã", um instrumental tendo a voz de Nara ao fundo cantarolando a harmonia que foi trilha sonora de um filme chamado Ganga-Zumba, do diretor Cacá Diegues.

Nas versões em CD, o disco ainda vem com duas faixa-bônus. "Promessas De Você" e "É Tão Triste Dizer Adeus" são, as duas, duetos de Nara com o cantor Carlos Lyra. Sendo que esta última aborda a questão do divórcio, tema bem polêmico pra época. E ambas são contém a marca registrada do disco - valsinhas cheias de melancolia.

Gosto muito da capa do disco. Uma obra de arte desenvolvida pelo desenhista César Villela. Este cara criou todo um conceito de capa para a gravadora Elenco, e fez disso uma marca registrada. A capa de Nara ficou super moderna, realmente passando para o público, com nítida fidelidade, uma Nara Leão com um cabelo chanel descolado, uma garota que, pela capa, percebe-se sem esforço que é fã de literatura e que curte debater política com os amigos nos bares ou na varanda de seu apartamento.

A PREDILETA:

Sabe o que eu disse anteriormente sobre a questão do samba ter essa coisa de ser alegre e melancólico ao mesmo tempo? Pois é, "Diz Que Fui Por Aí" é um excelente exemplo pra ilustrar isso. Uma letra que fala de alguém que perdeu um grande amor, que saí às ruas pela noite com um violão, totalmente solitário e sem rumo. Nossa, escutar esta música nos leva a várias imagens. Enquanto a Bossa fofinha canta a luz do dia, Nara nesta canção invade a madrugada, de bares lotados de gente solitária, andarilhos errantes em ruas molhadas iluminados pelos postes. Uma verdadeira exaltação a figura do boêmio de alma, que afoga suas mágoas ralando o cotovelo em balcões intermináveis. Uma música perfeita para aqueles que tem a madrugada como companheira.

Ouça no vídeo abaixo a música "Diz Que Fui Por Aí":

20 agosto 2013

Resenha Filme's: Wolverine - Imortal (EUA - 2013)



Filme: Wolverine - Imortal (EUA - 2013)
Diretor: James Mangold

Apesar de nunca ter sido aquele típico garoto dos quadrinhos sempre gostei da saga X-Men. Acompanhava essa série pelo modo mais superficial, nas manhãs da globo com o desenho animado.

Então, quando o cinema finalmente descobriu o quanto as histórias em quadrinhos poderiam render nas bilheterias, X-Men foi o que eu mais aguardei. E realmente a minha ansiedade foi compensada, porque eu simplesmente adorei os filmes.

Assim como nos quadrinhos e nos desenhos animados na TV, uma coisa também que eu gostava bastante era quando essas séries cheios de super-heróis eram esquartejadas e haviam episódios individuais mostrando a realidade de cada mutante. Isso tornava a coisa ainda mais interessante. Então tínhamos os desenhos com todo mundo junto, e também tínhamos os paralelos.

E esse filme é exatamente isso! É um recorte da vida do misterioso Wolverine.

O filme começa com Wolverine preso em um buraco pelo exército japonês em Hiroshima (nada se explica de como ele foi parar lá) e , quando a bomba atômica é lançada lá ele salva a vida de um soldado. Muitos anos se passam e Wolverine está isolado nas montanhas, no período pós-traumático dele ter matado o amor da vida dele (Jean, a Fênix Negra) que foi retratado no último filme da triologia X-Men, o X-Men 3 - O Confronto Final (EUA - 2006).

Então o japonês que ele salvou a vida velho e doente (e o homem mais poderoso da Ásia) o chama para se despedir. E lá, como todo anúncio da sessão da tarde, ele embarca numa grande aventura cheia de ação.

Calma, o filme passa longe de ser sessão da tarde, só não quero dizer nada sobre ele pra não acabar com a surpresa. Mas o filme é muito bom! Para quem é fã de Wolverine principalmente vale muito à pena pagar o ingresso. Devo ter gostado do filme principalmente porque estou lendo Xógum, um livro que retrata a cultura dos samurais na época do descobrimento, e ainda estou fascinado por aquela cultura. E muitos destes costumes são retratados no filme. Este aspecto me prendeu bastante.

A linda Tao Okamoto como a herdeira do clã Yashida
Amolecendo o duro coração de Wolverine

Outra coisa que chamou muito minha atenção foi a beleza estonteante da atriz Tao Okamoto, que faz papel da herdeira do clã Yashida, e que realmente convence o público do porquê, de certa forma, Wolverine se mete em uma briga que não pertence a ele.

Enfim, bom roteiro, ótimos efeitos, Wolverine mais vulnerável, ninjas, samurais, espadas, toda a fórmula para um bom filme. Saí super satisfeito da sala de cinema!

Assista no vídeo abaixo trailer do filme Wolverine - Imortal:

16 agosto 2013

Resenha CD's: Neil Young & Crazy Horse - Live Rust (1979)



Banda: Neil Young & Crazy Horse
Álbum: Live Rust
Ano: 1979
Gravadora: Reprise Records

Fazia um bom tempo que queria escrever sobre alguma coisa do Neil Young. Esse coroa, que é uma das maiores lendas vivas do rock, que teve uma das discografias mais consistentes e marcantes da década de 70, e que, com todos os seus altos e baixos, sempre conseguia, como uma fênix, ressurgir das cinzas com algum álbum maravilhoso, é hoje o músico que eu mais escuto. Talvez ele seja o único cara que ainda me faz tocar guitarra imaginária (isso quando estou sozinho em casa, obviamente).

A primeira vez que eu ouvi falar desse cara foi durante a terceira edição do Rock In Rio, lembro de todo o burburinho na mídia especializada sobre o show desse cara. Uma lenda, o pai do grunge, Kurt Cobain citou a letra dele em sua carta de suicídio, putz, onde esse cara andava que eu nunca ouvi falar dele? - pensei.

Infelizmente a Globo, na época, transmitiu apenas duas músicas dele, mas isso já foi o suficiente para me arrebatar. Lembro muito nitidamente aquele bando de velhote cheios de atitude mandando ver tocando "Sedan Delivery". E na semana seguinte, quando a revista Bizz chegou às bancas, eu procurei o nome do Neil Young na relação top 10 dos melhores shows eleitos pelos jornalistas e não encontrei. Embaixo da lista tinha apenas um asterisco com a mensagem:

 *Neil Young não conta porquê Neil Young é Deus!

E daí comprei o álbum Harvest (1972) e esse músico nunca mais saiu da minha vida nem de meus ouvidos...

Enfim, hoje vou escrever um pouco sobre esse que é considerado um dos melhores registros ao vivo de rock que se tem notícia. 

No final da década de 70, Neil Young lança o projeto Rust que consistia basicamente em gravar um álbum chamado Rust Never Sleeps (1979), e deste disco registrar em filme/show. Sendo que Rust Never Sleeps foi gravado ao vivo, mas em estúdio tiraram o som do público (que mesmo assim você escuta bem baixo se ouvir o disco com fones de ouvido num som bem alto).

Assim como no Rust Never Sleeps, a primeira parte desse show é acústica com canções lindas e singelas (com direito a gaita e tudo que um fã de folk tem direito) como "Sugar Mountain", "I Am A Child", a linda "Comes a Time", a clássica "My My, Hey Hey (Out Of The Blue)" e a bela e triste "The Needle And The Damage Done" tocada debaixo de uma tempestade, enfim, uma delícia de ouvir.

Já na segunda parte o rock come solto, com um Neil Young e seu Crazy Horse hipnotizando o público com "Sedan Delivery", "Powderfinger", a clássica do álbum Zuma (1975) "Cortez The Killer", "Cinnamon Girl", "Like a Hurricane" e terminando com "Tonight's The Night".

Esse registro faz um passeio por quase todos os álbuns que Neil gravou até então. Para quem quer conhecer ele de uma forma mais geral recomendo demais este disco, até porque ele tocando com o Crazy Horse tem sempre um tempero especial.

Neil Young & Crazy Horse

Depois deste disco ele entrou numa fase bastante infrutífera em sua carreira, se deixando levar pela tecnologia de estúdio oitentista, deixando de lado suas raízes e fazendo discos tão ruins que chegou a ser processado pela gravadora por "falta de criatividade". É sério, podem pesquisar!

O cara consegue ressuscitar na década de 90, e até hoje ele e seus inseparáveis amigos do Crazy Horse ainda conseguem, apesar da idade, serem férteis como garotos cheios de virilidade musical. E futuramente espero ter o prazer de escrever sobre estes inúmeros álbuns.

A PREDILETA:

Muita gente que conhece Neil Young vai torcer o nariz pela minha escolha. Tem clássicos neste Live Rust que eu só gostaria de destacar quando comentasse os álbuns de estúdio. Apesar de viajar na parte elétrica deste show, gostei muito da acústica "Lotta Love" - uma música bela, singela, extremamente setentista, com direito a lálálá's e huuhu's como refrão. Ela é de um disco dele chamado Comes A Time (1978) e que muitos consideram uma obra mediana na carreira do cantor. Enfim, Neil Young consegue ser musicalmente selvagem como um índio desbravador e, ao mesmo tempo, delicado como a sombra de uma árvore na beira de um riacho, que é o caso desta música.


Ouça no vídeo abaixo a linda "Lotta Love":

05 agosto 2013

Resenha (Filme's): Guerra Mundial Z (EUA - 2013)



Filme: Guerra Mundial Z (EUA - 2013)
Diretor: Marc Forster

Se você é daqueles que não gostam de jeito nenhum de filme de zumbi, ou procuram um texto sobre um filme apenas para saber mais profundamente sobre os bastidores dos filmes, o que rolou por trás das câmeras, informações detalhadas sobre o histórico dos diretores e atores, descrição técnica do tipo de fotografia da imagem, enfim, se você é um profundo estudioso do cinema ou detesta filmes de zumbi, pode parar de ler agora e procurar um blog de alguém mais especializado.

Agora, se você é aquele cidadão comum que acha o ingresso do cinema caro e, quando vai ao cinema quer fazer valer cada centavo, e quer apenas ler um comentário de um cara comum igual a você dizendo se vale ou não à penas ver tal filme pelo filme em si, sem rodeios, então bem-vindo!

Existem duas formas de você construir um argumento para filmes de zumbi. O primeiro (e menos usado) é o espiritual. Explicar o porquê do zumbi existir por conta das forças do mal agindo na mente dos homens e tal - a outra, bem mais popular, é no campo científico, mais precisamente um vírus destrói o cérebro humano deixando apenas funcionando os instintos mais básicos, como comer, respirar, etc.

Guerra Mundial Z tem um bom argumento. Ao que parece, demorou muito para ser concluído devido a atritos de idéias entre Brad Pitt (principal estrela do filme), diretor e roteiristas. Mas a meu ver o resultado ficou muito bom. Devo ter lido em algum lugar que foi o filme de zumbi mais caro da história, e tô com muita preguiça no momento para ir atrás da veracidade desta informação.

Como o próprio título do filme sugere, a pandemia do vírus zumbiral (expressão minha) toma proporções mundiais, contaminando as principais cidades no mundo. E é aí que nosso herói (Brad Pitt) entra, como um ex agente da ONU que, com o apoio do exército americano, sai numa jornada em busca da solução deste problema.

Por ter muitas cenas abertas e durante o dia tive receio de não ter o mesmo efeito do formato mais clássico dos filmes de zumbis - corredores de prédios sem saídas à noite, e luzes falhando nos corredores.

Apesar de em certos momentos haver contextos assim, nas cenas abertas a tensão é a mesma. É quase como se fosse uma brincadeira de jô-ajuda do mal, do tipo: eu te mordo, te transformo em zumbi, e tu me ajuda a pegar o resto da galera.

A estética dos zumbis estão incríveis. E particularmente quando eles estão juntos, meio que formando uma verdadeira onda de zumbis engolindo tudo que vem pela frente é de arrepiar.

Então é isso desocupado leitor, temos aí um bom filme de zumbi, com ótimos efeitos, ótimas maquiagens e principalmente, um roteiro que minimamente dá um sentido coerente ao circo todo.

Assista no vídeo abaixo ao trailer do filme Guerra Mundial Z:

01 junho 2013

Resenha Livro's: LUZ & SOMBRA - Conversas com Jimmy Page



Livro: LUZ & SOMBRA - Conversas com Jimmy Page
Autor: Brad Tolinski
Ed. Globo
298 páginas

Todo degustador de rock que se preze já deve ter passado horas e horas trancado no quarto tocando guitarra imaginária ouvindo Led Zeppelin. Acho que Jimmy Page certamente está entre os três guitarristas que mais criaram riffs que incendiaram os ouvidos de jovens em todo o mundo.

Acho que o primeiro disco que ouvi do Zep foi o The Song Ramains The Same, registro ao vivo da banda em 1973 que virou filme. Lembro que a primeira vez que ouvi a verdadeira odisseia "Dazed And Confuded", com mais de vinte minutos de duração, com direito a arco de violino na guitarra e muita improvisação, caramba, fui ao céu e voltei. Enfim, falo mais sobre isso quando tiver o prazer de resenhar esse disco.

Muitas lendas giram ao redor da trajetória do Led Zeppelin. Hedonismo exagerado, ocultismo, drogas, mar de mulheres, tragédias, tudo fazendo parte da mística que fascina quem procura saber sobre a banda.

Adoro biografias de rockstars! É interessante principalmente saber como é a adaptação de gente que, em um minuto era anônimo, e em outro nem pode sair na rua por conta do assédio.

No caso do sr. Jimmy Page, este já estava a muito tempo trabalhando nos estúdios da Ingleterra. Aliás, era certamente o guitarrista mais requisitado. Então ele, de certa forma, já sabia como as engrenagens da produção musical da década de 60 funcionava. Quando começou a querer formar seu grupo ele já sabia exatamente onde estava pisando. Meio que a construção do Led Zeppelin já estava há tempos formada na mente deste talentoso guitarrista.

LUZ & SOMBRA é um livro feito pelo editor-chefe da revista Guitar World, que compila neste fascinante livro anos de inúmeras entrevistas com Jimmy Page. Então a história é narrada pelas próprias respostas de Jimmy. Assim também como entrevistas e textos com músicos, gente ligada aos bastidores da banda, das turnês, gente que estavam nas circunstâncias das mais diversas fases da vida de Jimmy Page.

O mais interessante é que o autor não poupa o guitarrista de perguntas mais incisivas sobre os mitos em torno da banda. Porém o guitarrista por vezes sai pela tangente. Mas ao mesmo tempo solta afirmações aqui e acolá que nos dão pistas.

Um diferencial também, e este para os músicos profissionais, é que o autor que é profundo conhecedor de equipamentos, conversa com Jimmy Page sobre questões técnicas das gravações, tipos de pedais, marcas de guitarras, técnicas específicas na elaboração de linhas melódicas, amplificadores, etc. Confesso que voei um pouco nestas partes, mas pra quem entende deve ser algo muito valioso de se ler.

Li este livro em menos de uma semana, gostei muito, e me sinto bem mais conhecedor dessa que é uma de minhas bandas prediletas, e certamente foi a mais importante da década de 70.

Dica: Leia o livro com o som ligado, e sempre que eles conversarem sobre as músicas é interessante você ouvir ao mesmo tempo que lê para aprofundar mais e perceber as coisas que eles estão falando. Isto tornou minha leitura bem mais instigante.

Resenha CD's: Pearl Jam - No Code (1996)


Banda: Pearl Jam
Álbum: No Code
Ano: 1996
Gravadora: Epic Records

Já é a quinta vez que eu tento começar essa resenha, querendo de certa forma explicar o porquê da ausência de semanas sem publicar nada. Pois é, começo dos 30 anos, às portas de um casamento, reforma de casa, trabalho, vida acadêmica, meu Deus, pára o mundo que eu quero descer!

E nesse turbilhão todo, quando menos se percebe, você está tomando um cafezinho na universidade pra enganar o sono e pensa: Caramba, meu blog!

Óbvio que o que me conforta é saber que não decepcionei muitos leitores (até porquê não tenho muitos). Porém, mas do que ser lido, esse blog foi feito de mim para mim mesmo (saiu meio meloso isso não?), no sentido de registrar nele os meus insights sobre as coisas que eu vivencio. Mais pelo fato de morrer de medo de ser aqueles velhotes sem memória, que vai precisar recorrer a esse site para oxigenar algumas lembranças para meu velho cérebro.

Estou vivendo meu momento de transição. Apesar da essência do velho George ainda existir, o momento também me faz passar por uma verdadeira metamorfose de postura diante da vida. Minhas questões são outras, meus sonhos e prioridades idem.

Assim como na vida, na minha vida, as bandas (pelo menos as sinceras) passam exatamente por isso. Pearl Jam começou a carreira com os dois primeiros álbuns Ten (1991) e Vs. (1993) chegando como voadoras sonoras nos ouvidos da geração do começo da década de 90 sedentos por representação. Todos os jovens cheios de sentimentos de inadequação em relação a sociedade se sentiram identificados com os primeiros trabalhos dessa banda.

Após o conturbado Vitalogy (1994) e toda a polêmica da banda por boicotar a Ticketmaster por conta dos preços abusivos e monopólio dos grandes shows nos EUA, a banda teve certamente um desgaste.

Uma vez que o tom das letras do Peal Jam são pessoais, autobiográficas até, e também contextualizada à realidade que eles vivenciam, é óbvio que o tom da proposta tinha que mudar.

Busca de si mesmo, paternidade, auto-conhecimento, introspecção, e até uma certa dose de espiritualidade, tudo isso estava em ebulição quando o Pearl Jam entrou em estúdio para gravar o seu então quinto álbum, o No Code (1996).

O álbum abre com a soturna "Sometimes", mas logo o ritmo é quebrado pela velha pancadaria da banda em "Hail, Hail", esta com um Vedder expressando sentimentos sobre um casamento em crise.

Logo, o experimentalismo vem com "Who You Are" e "In My Tree", que tem uma batida de bateria parecidas só que a última é mais acelerada, ambas com uma carga de questões existencialistas e introspectivas.

"Smile" dá uma desacelerada, com aspectos românticos e direito à gaita, como uma preparação para a linda "Off The Goes", perfeita para se ouvir à meia luz em uma madrugada solitária. Se você prestar bem atenção, às vezes o som chega até a soar um pouco Neil Young. Vedder nesta canção canta certamente sobre si mesmo, em terceira pessoa, em uma auto-análise sincera.

"Habit", "Lukin" e "Mankind" ainda soam como o velho Pearl Jam cheio de energia, apenas como forma de dizer: "Apesar dos pesares, ainda é a gente!". Mas o velho Pearl Jam acaba aí.

"Present Tense" veio para nos fazer lembrar do quanto o tempo passa rápido, e quando menos percebemos nossas mãos já estão com as marcas mais fortes. Envelhecemos! Aqui a banda soa mais Rock e menos Grunge. Na verdade o álbum todo é assim.

E para terminar, segue "I'm Open", que soa como os bons e velhos experimentos poéticos/musicais de um velho Jim Morrisson cheio de devaneios e nostalgias. E encerrando o álbum a linda "Around The Bend", que soa quase como uma cantiga de ninar, tendo a paternidade como principal inspiração.

Enfim, neste álbum a banda claramente mostra que amadureceu. Mas o público não! Apesar dos elogios da crítica, os fãs mais fervorosos ficaram insatisfeitos com o trabalho. Esperavam que a banda se engessasse em uma fórmula pronta e emplacasse até envelhecer álbuns sobre os conflitos de existência da juventude. Besteira! Os músicos amadurecem, obviamente as composições também acompanham essas metamorfoses.

Outra coisa legal no disco que quase esqueço de mencionar é o encarte. A capa é um amontoado de 144 fotos Polaroid, tiradas pela banda durante a turnê do Vitalogy, com inúmeras bizarrices.

Ganhei esse CD de uma ex namorada que achou essa bolachinha em um sebo à preço de banana e lembrou de mim. Garota legal né não?

Lembro que passei horas olhando foto por foto na capa. E dentro do encarte vem também mais Polaroids em tamanho real com as letras das músicas escritas na parte de trás das fotos.

Pois é, No Code é um marco na carreira da banda. Á partir de então a banda passou a soar diferente, apesar de ser a mesma. Assim como minha vida agora, estou diferente, mas sou o mesmo cara. E esse disco tem sido minha trilha sonora nestes meus dias tão cheios.

Bem-vindo a vida adulta George Facundo!

O lance é trabalhar bem muito pra que na velhice eu volte a ser adolescente!

A PREDILETA:

Para este álbum escolhi "Red Mosquito" como minha predileta porquê, além dela ter uma excelente linha de guitarra com várias camadas que me agrada muito, é uma canção que de certa forma marca bastante essa fase de transição do Pearl Jam. Ela tem um certo peso do começo da banda, mas uma sonoridade mais sofisticada, mais Rock clássico. Gosto muito dela, e ela me faz lembrar de todos os meus amigos ex-grunges que hoje estão tentando ganhar a vida em São Paulo e em outros lugares do mundo.

Escuto esse álbum com muito nostalgia, lembrando de velhos amigos, rodando as avenidas de Fortaleza pela madrugada ouvindo este disco no carro em volume máximo.

Tô ficando velho...

Have you ideas on how this life ends?
Check your hands and study the lines


Confira no vídeo abaixo a música "Red Mosquito":


10 abril 2013

Teatro: O bom ladrão (por George Facundo)


Introdução:

Não sei se todos sabem, mas sou Educador Social. Trabalho no Centro de Semiliberdade Mártir Francisca (CSMF), uma instituição do Estado do Ceará, pertencente a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS).

O educador social é aquele profissional que trabalha nas casas de medida socioeducativas de jovens e adolescentes infratores (ou, "em conflito com a lei", como quiser), que antigamente era chamada FEBEM, mas que graças a algumas significativas mudanças no estatuto da infância e adolescência, mudou sensivelmente algumas diretrizes e nomenclaturas que deram uma, digamos, oxigenada nas caducas estruturas.

Ainda assim, tanto pela falta de mais profundas políticas públicas nesta área, quanto a própria estrutura que em muitas unidades ainda estão bem precárias, há muito o que se avançar nesta área.

O Educador Social aqui no Ceará ainda não tem a profissão reconhecida (tanto que na carteira de trabalho tem "Instrutor Educacional"), e em algumas casas de medidas o "educador" é muito mais um agente carcerário (da pior espécie) disfarçado, do que propriamente um educador social.

Mas apesar destes que mancharam o nome de nossa profissão (e dos que ainda não foram demitidos), ainda existem um numero de heróis anônimos, espalhados em casas de medida fechada, na semiliberdade (meu caso), em abrigos, etc, que realmente acreditam no que fazem e lutam para uma condição de trabalho mais reconhecido pelo Estado.

Somos terceirizados, não temos plano de saúde, nem taxa de risco de vida, e para conseguirmos uma válvula de escape pelo fato de ser um trabalho tão duro, encaramos (assim como os irmãos professores) a nossa profissão como missão.

Nós educadores sociais trabalhamos corpo a corpo com os adolescentes, conversando, convivendo, tentando mesmo sensivelmente influenciar positivamente essas vidas. E nisso temos que, além de estar com eles, nos desdobrar em ideias e criatividade.

Como disse, trabalho numa semiliberdade, lá os adolescentes ficam cumprindo a medida de segunda a sexta e no fim de semana são liberados para ficar com suas famílias. Não sei como são as outras casas de medida (principalmente as fechadas), mas tenho sorte de, apesar da fragilidade de minha condição de educador social, trabalhar com uma equipe humana, que realmente acredita que a experiência dele na semiliberdade pode influenciar a vida deles e fazer com que eles mudem o curso de suas vidas. De uma vida de crime, morte, prisão e cemitério - para uma escola, um curso, um trabalho, um sonho.

Eu como educador social não posso ser juiz, não lido com crimes, não pergunto o que fizeram, não penso no que eles foram - penso (e sonho) no que potencialmente eles podem vir a ser.

Enfim, essa peça eu escrevi para ser encenada na unidade em que trabalho. Toda última sexta feira do mês temos um encontro com as famílias dos adolescentes. E sempre que o tempo (e a universidade) deixa, eu escrevo uma pecinha de teatro para ser interpretada tanto por funcionários quanto por adolescentes.

Resolvi inventar a história dos dois ladrões que foram crucificados ao lado de Jesus. É quase O evangelho segundo o Facundo. Gosto de pensar em como era a vida dessas pessoas que viveram na periferia das grandes histórias. Jesus é cheio desses personagens: o paralítico carregado por amigos, a mulher com fluxo de sangue, o jovem rico sr. certinho e claro, esses dois ladrões que nos últimos momentos tiveram posturas tão diferentes diante da morte.   

Apresentamos a presente peça na quarta-feira que antecedeu o feriado de semana santa deste ano (2013). Eu fiz papel de Daniel, um adolescente fez papel de Joabe, e outros dois fizeram papel de soldado romano junto com educadores. A diretora da unidade foi Maria, o Fernando (professor de serigrafia) fez um excelente Pilatos. Enfim, algumas cenas que eram (em tese) para serem dramáticas fizeram as famílias bolarem de rir. Mas quando o enredo caminhou para o grand finale o público foi silenciando e o impacto da paixão tomou conta de todos.

Mesmo sabendo que Dimas era o nome real de um dos ladrões que foram crucificados com Jesus, resolvi usar o nome Joabe e Daniel em homenagem e dois adolescentes que passaram pela unidade e por conta do tráfico e das drogas foram brutalmente assassinados em seus bairros. Eu particularmente tinha uma grande afeição por eles, e senti bastante a morte desses dois adolescentes tão inteligentes, criativos e bem-humorados. Nunca vou esquecê-los...

Para o blog mudei algumas expressões que tinha no original que dizia respeito ao linguajar particular dos adolescentes para facilitar a sua compreensão, ó desocupado leitor.

E quem quiser aproveitá-la para encenar em algum lugar fiquem à vontade. Apenas uma condição: me convidem pra assistir.

Enfim, me digam o que acharam!

George Facundo

O bom Ladrão

Personagens:

Narrador
Daniel
Joabe
Soldado Romano 1
Soldado Romano 2
Soldado Romano 3
Soldado Romano 4
Pilatos
Mãe dos ladrões
Maria
Jesus
Ato I
NARRADOR:

Respeitável público
Quero agora que vocês prestem muita atenção
Pois está história que hoje contarei
Vai falar fundo ao seu coração

Vou contar a vocês
A história de dois rapáz
E é um conto antigo
De muito tempo atrás

É sobre a vida de dois jovens
Que andavam sem paz e nem luz
Viviam roubando e fazendo coisas erradas
Nos tempos de Jesus

Na vida e no crime eles eram irmãos
Tratavam a retidão e a justiça com desdém
Não tinham amor no coração
E aterrorizavam os arredores de Jerusalém

Os ladrões entram em cena fugindo de dois soldados romanos

Daniel – Bóra cara, a gente tem que se esconder! Rápido!
Joabe – Mas onde? Se a gente for pego de novo eles matam a gente!
Daniel – Que pegar o quê cara! Tá doido? Tá é ruin a gente ser pego! Segura tua onda!
Joabe – Tá doido? Eles tão vindo ali mah! Vão pegar a gente!
Daniel – Pronto, vamos ficar ali! Bóra, rápido, rápido!
Joabe – Bora logo, eles tão vindo!
Daniel – Pronto, cala a boca aí...

Após se esconderem, entram dois soldados romanos

Soldado 1 – Acredito não! A gente deixou eles escaparem de novo!
Soldado 2 – Aqueles vagabundos! Há se eu pego eles viu! Ainda bem que agora, pra manter a ordem, é tolerância zero... Tão crucificando tudim pra manter a ordem em Jerusalém. Essa porcaria de cidade já é agitada com esses profetas que aparecem todos os dias...
Soldado 1 – Pois é... Mas a gente tem que pegar eles! Num tem jeito não... A gente várias vezes já meteu a pêia neles e os bixo parece que ficam é mais ruim... Tem é que matar logo!
Soldado 2 – Então bóra, a gente tem que pegar eles, bora, bora!

Os soldados saem de cena e os dois ladrões saem do esconderijo

Joabe – Tá vendo aí? Agora se a gente for pegue a gente vai ser é papocar!
Daniel – Tá dizendo o quê mah? Quem entra nessa vida num pode ter medo de morrer não... E outra, eles dizem isso pra ver se a gente fica com medo deles.
Joabe – Eu num quero morrer não mah. E outra, nossa mãe morre de desgosto!
Daniel – A mãe é fraca mah! Ela queria o que? Que a gente fosse pedir esmola é? Eu morro mas não peço esmola!
Joabe – A gente pode trabalhar né não?
Daniel – No sol quente? Tu quer essa vida é? Ser pião? Olha aqui mah, o tanto de saco de moeda que a gente conseguiu!
Joabe – Pois é, achei essa tua ideia maior paia! Onde já se viu! Roubar o povo durante o sermão daquele profeta, comé mesmo o nome dele?
Daniel – Sei lá, aquilo é um doido! É lá de Nazaré... Daí tu tira, tem nada que preste lá.
Joabe – Nada que preste é? Tu num viu não ele curando aquele cego? E tu num pode nem dizer que é mentira porque aquele cego a gente conhece faz é tempo...
Daniel – Inclusive a gente até roubou ele né? Hahahahahahaha
Joabe – A gente nada, foi tu! Eu fui contra!
Daniel – Tu é um frouxo mah! Aquele bixo nem deu falta das moeda. Ele era cego, tava nem vendo... hahahahahaha
Joabe – Vai brincar com isso bixim! Um dia Deus te castiga!
Daniel – E Deus lá liga pra gente cara! Os fariseus num olham nem na nossa cara! Só querem ser os santarrão... Ficam lá andando todo arrumado, se acham melhor que todo mundo. Sou ladrão? Sou! Nego não! Mas num me troco por nenhum deles... Aquilo é tudo nojento, num gostam de ninguém... Ei mah, Eiiii... Tô falando contigo, tá viajando é?
Joabe – Tava pensando nas coisas que aquele homem falou... Nunca vi ninguém falar como ele! E ele falava dum jeito que todo mundo entendia...
Daniel – Eu só vi foi o povo hipnotizado, com os olhos tudo arregalado olhando pra ele... Foi mó limpeza roubar o povo, ninguém nem percebeu, bando de trouxa!
Joabe – Tu acha que ele é o Messias?
Daniel – Aquilo parecia um mendigo mah... Tu num viu não as roupas dele? Ele e o povo que segue ele vive no mei do mundo... Tudo um bando de vagabundo!
Joabe – Quem é tu pra chamar os outro de vagabundo mah? E outra... Ele é profeta viu! Ele adivinhou uma coisa que a gente fez! Tu lembra?
Daniel – Pois num é, ele contou lá pra todo mundo aquele assalto que a gente fez com aquele cara, a gente meteu a chibata nele e deixou ele lá... Pensei que tinha matado ele!
Joabe – O profeta lá disse que teve um cara samaritano que ajudou ele... Pagou remédio, hospedagem e tudo! Ele sobreviveu mah...
Daniel – Um samaritano ajudando um judeu legítimo? Esses povos se odeiam mah... É tipo TUF e Cearamor! Esse profeta é um mentiroso!
Joabe – Acontece que o profeta adivinhou o que a gente fez! E aí? O que você acha dele?
Daniel – O que eu acho? É um cabueta! Se ele tivesse apontado pra gente eu tinha quebrado ele!
Joabe – Mas ele olhou pra mim e sorriu mah... Nunca vi ninguém igual a ele.
Daniel – Tu tem que prestar atenção é nisso aqui mah... Olha aqui quanto a gente roubou... Temos moeda aqui de sobra... Quero é ver a mãe reclamar!
Joabe – A mãe já disse que não quer que a gente use dinheiro do roubo pra levar as coisa pra casa...
Daniel – Pois ela vai morrer é de fome! E outra, quié que tá acontecendo contigo mah? Tu tá diferente! Desde que a gente voltou daquele monte e tu viu aquele cara lá falar tu tá mei assim... Vai querer virar fanático também?
Joabe – Deixa de ser besta mah... Né isso não... É que de repente, essa nossa vida pareceu mei sem sentido... Tu num viu ele dizendo não? De que vale a gente ganhar o mundo e perder a alma?
Daniel – E tu tem alma agora é? Tu é uma carniça mah...
Joabe – Ele disse que se a gente acreditar, quando a gente morrer a gente vai pro reino dele...
Daniel – Tu vai é pro reino dos tapuru embaixo da terra mah! Hahahahahahahahaha

Entram em cena, sorrateiramente, os dois soldados romanos, e anunciam a prisão

Soldado 1 - Harááá! Finalmente peguei vocês! A casa caiu seus meliantes!
Soldado 2 – Eita que nosso chefe vai ficar orgulhoso da gente! Pegamos os elementos mais perigosos de Jerusalém!
Soldado 1 – Já pensou? Talvez role até promoção!
Soldado 2 – Tá é vendo é? A gente sendo capitão lá em Roma? Sair desse buraco!
Joabe – Pelo amor de Deus! Prende a gente não! Nossa mãe só tem nós dois!
Daniel – Taí ó, podem ficar com o dinheiro e liberem a gente vai lá!
Joabe – Tá vendo onde tu meteu a gente?
Daniel – Eu num te obriguei a nada, tu veio porque quis!
Joabe – Eu sabia que isso ia acontecer com a gente! A gente dessa vez não escapa irmão!
Daniel – Tá dizendo o que mah? Morreu enterra!
Soldado 1 – Calem a boca! Podem fechar essa matraca! Vamo levar vocês dois pro chefe!
Soldado 2 – Menos dois fora de circulação! Ô beleza!!! Bora logo levar esses elementos!

E aos chutes e maltratos, os dois soldados conduzem os irmãos para audiência com Pilatos. Ao sair de cena, uma mesa é posta no cenário e têm-se então o gabinete de Pilatos

Ato II

Narrador:

Presos em flagrante
Sem ação de dar qualquer argumento
Os soldados levaram os irmãos presos
Para Pilatos fazer o julgamento

Pilatos era representante de Roma
Mandava e desmandava na cidade
Tinha fama de impiedoso
Encarnava a crueldade

Antes dos irmão Joabe e Daniel
Entrarem em cena para o julgamento
Ele tinha acabado de mandar Jesus de Nazaré
Para a cruz sofrer seus tormentos

Para Pilatos foi um dia importante
Foi uma decisão para colocar ordem no estado
Ainda sim para ele foi uma decisão difícil
Ele estava exausto e cansado

Pilatos entra em cena

Pilatos – Caramba, tô cansado! Esse Jesus me deu um trabalho, mas finalmente consegui me livrar dele. Lavei minhas mãos! Owwww povo estranho são esses israelitas, preferiram o ladrão assassino e arruaceiro Barrabás do que aquele pobre coitado. Por hoje já basta, vou pra casa!

Entram em cena agora os soldados com os presos

Soldado 1 – Chefe, chefe! Olha só o que a gente trouxe pro senhor!
Soldado 2 - Esses meliantes aqui é o Joabe e o Daniel!
Pilatos – Não acreditooo!!!!! Fazia tempo que eu procurava vocês seus pilantras! Ninguém dormia sossegado nessa cidade por causa de vocês!
Joabe – Tem misericórdia da gente senhor!
Soldado 1 – Cala essa boca!
Pilatos – Misericórdia???? Vocês ainda tem a cara de pau de me pedir misericórdia? Já é a quinta queda de vocês! E pelo visto todas as chicotadas e espancamentos e dias trancafiados não serviram de nada!
Soldado 1 – É mesmo viu chefe! Nesses aí nem pêia dá mais jeito!
Pilatos – Vocês não me pegaram num dia bom! Acabei de condenar um cara a morte que valia muito mais que vocês! Ele morreu só por inveja daqueles fariseus imbecis. Coitado! Mas fazer o quê né não? Tudo pela ordem! Mas vocês, hááááá, o povo vai me agradecer muito se eu der fim de vocês!
Joabe – Por favor senhor! Misericórdia da gente! Prometo que vou mudar! A pobre da nossa mãe só tem a gente!
Pilatos – E você Daniel? Tem nada a dizer não em sua defesa?
Daniel – Tá é ruim eu me humilhar! Pode me prender, mas num imploro pra vocês nem a pau! Tá dizendo nada! Pode mandar meter a pêia e me mandar pra cadeia que num tô nem aí...
Pilatos – Prender? Vocês vão é morrer! Soldados!!!!
Soldado 1 e Soldado 2 – Sim senhor!!!!
Pilatos – Metam uma sola neles tão grande que eles nunca tomaram na vida deles, mas eu quero que vocês ralem o corpo desses vagabundos na pêia, depois, aproveitem que já vai ter um sendo crucificado e crucifiquem eles também!
Joabe – Nãããoooo!
Soldado 1 – Calaboca! Difunto não fala!
Joabe – Por favor!!!! Senhor!!!! Piedade!
Soldado 2 – Bóra que bandido bom é bandido morto!

Tantos os soldados maltratando os presos quanto Pilatos saem de cena

Coloca-se em cena então três pedestais de madeira onde irá ser o calvário, onde será postos os três personagens crucificados

Ato III

Narrador:

Então os irmão
Joabe e Daniel
Antes de serem cricificados
Foram levados pelos soldados para uma tortura cruel

Enquanto isso, lá no calvário
Havia da mesma forma um momento de tristeza e dor
Pois muitos estavam presenciando
A crucificação de Jesus, o salvador

Entra em cena jesus, com dois soldados romanos o chicoteando e Maria (a mãe de Jesus) entra também chorando, acompanhando o filho e os soldados

Soldado 3 – Bóra seu molenga! Anda! Deixa de ser frouxo!
Maria – Meu filho!!!! Não façam isso com meu filho!!!
Soldado 4 – Cale essa boca mulher! Vamos, se afaste!
Soldado 3 – Pronto, pega os pregos aí...
Soldado 4 – Esse zé ninguém aqui diz que é o rei dos judeus! Só se for mesmo viu!
Soldado 3 - Ficou massa essa coroa que a gente fez pra ele né? Né não reizinho? Fala!
  
Então Jesus é crucificado... A mãe fica aos pés dele chorando, e os soldados romanos ficam em volta...

Pouco depois entram os outros soldados com os dois irmãos

Soldado 1 – Bóra seus bandidos! Seus pilantras! Agora que tá começando a dor de vocês!
Soldado 2 – Olha só quem tá aí mah!
Soldado 3 – Os melhores soldadinhos de Roma! hahahahahahahaha
Soldado 1 – Podem ir frescando com a nossa cara! Pois olha só o que a gente trouxe...
Soldado 2 – Pegamos os meliantes mais procurados de Jerusalém!
Soldado 4 – Grande coisa! A gente aqui pegou foi um doido metido a revolucionário! E vocês sabem né? O que é umas moedas de ouro roubada aqui, um assalto a uma casa ali, diante de um rei que queria derrubar o império romano?
Soldado 1 – Derrubar o império romano??? Esse aí???
Soldado 1 e 2 – hahahahahahahahahahahahahahaha
Soldado 2 – Um trapo de gente desses! Rei??? Vocês são umas comédias mesmo!
Joabe – Olhaí Daniel! É Jesus! O mestre!
Soldado 1 – Cala essa boca idiota!!!! Bora logo crucificar esses dois que eu quero ir beber alguma coisa no fim do expediente!
Soldado 2 – Bora lá vocês dois! Anda!!!

Os dois são crucificados um de cada lado de Jesus

Narrador:

A dor era profunda
Os soldados zombavam com insolência
Que morte triste era essa da cruz
Um dos piores tipos de violência

E em momentos assim
Com o coração cheio de amor, e sem o menor julgamento
Sempre existe a figura da mãe
Que sobre os filhos derramam lágrimas de lamento

Ao lado de Maria ela chegou
A mãe de Daniel e Joabe
A tristeza dela era tão grande
Que o choro se ouvia por toda a cidade

Para ela era uma tragédia
Um castigo de Deus, uma má sorte
Ter seus dois únicos filhos
Pendurados no madeiro entregues a morte

Mãe – Meus filhos pelo amor de Deus! Nãããoooooo meu filhos nãão!!!! Tire meus filhos daí soldado! Por favor!
Soldado 2 – Quié que a gente faz com ela chefe?
Soldado 1 – É uma pobre desgraçada, deixa ela aí com a outra mãe...
Mãe – Joabe e Daniel meus filhos, e agora o que vai ser de mim meus filhos? Deus me esqueceu!
Maria – Chegue aqui minha irmã, chore comigo, também estou com meu filho no madeiro!
Daniel – Sai daqui mãe! Sai... Da qui... coff coff coff
Joabe – Mãe me perdoe! Me perdoe mãe! Me dê sua bênção pra eu ir em paz!
Mãe – Meu filhinho Joabe, pra quê você foi entrar nessa vida meu filho? Por quê???
Soldado 2 – Não aguento mais essas mães! Vou enxotar elas daqui!!!
Jesus – Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem!
Soldado 1 – Até quando tá pra morrer é metido a falar igual a rei! Hahahahahaha
Daniel – Ei... Eiiiiii Jesus! Coff coff... Se tudo que tu disse é verdade, se salve e salve a gente!
Joabe – Cala essa boca Daniel! Coff coff! Nem na morte tu aprende a ter humildade! Jesus é um santo, não tem culpa nenhuma, é um homem de Deus! Enquanto nós estamos aqui porque merecemos... Coff Coff... Senhor Jesus, se lembre de mim quando tiver no teu Reino...
Jesus – Hoje mesmo estarás comigo no paraíso... Senhor... A Ti entrego o meu espírito...

Jesus, Daniel e Joabe morrem

Narrador:

E aqui termina a história
Dos irmãos Daniel e Joabe
Suas escolhas erradas
Os levaram pra morte com pouca idade

Daniel era frio
Não tinha misericórdia nem compaixão
Não só escolheu o caminho errado
Também levou consigo seu irmão

Daniel, nem nesse momento crucial
Vendo ir embora sua sorte
Não teve nenhuma atitude
De mudar o coração diante da morte

Joabe por outro lado
Em seus últimos momentos
Repensou a sua vida
E mudou o coração e seus sentimentos

A morte veio para ele cedo
Cheio de dor e brutalidade
Ainda assim reconheceu todos os seus erros
Pra sua mãe pediu perdão, na humildade

Joabe serve de exemplo
Que pra mudar basta ter o intuito
Não importa se durante a vida
Ou no último minuto

Vocês são todos jovens
Então curtam sua mocidade
Se aproximem de Deus
Como fez o jovem Joabe

Se afastem de Daniel
Que é daqueles que se fingem de amigo
Lhe ilude, lhe angana
E lhe arrasta pro perigo

Não desperdice sua vida
Nem desista de seu sonho
Seja bom, honesto, estude, trabalhe
Esse conselho te proponho

E se mesmo assim
Se essa caminhada te cansar
Saiba que terá sempre um Mestre
E em seus conselhos podem confiar

Jesus está de braços abertos
O Mestre tem um grande coração
Não importa se você é o mais certinho
Ou o pior ladrão

Mesmo sendo filho de Deus
Ele não é de julgar
Ele só quer o seu coração
Para moldar e transformar

Não seja como Daniel
Teimoso, que não se humilha
Mude como Joabe
E passe a Semana Santa perto de sua família

Cuidado com esse feriado
Não escolha o mal, não se arrisca
Volte são e salvo para esta unidade
Esse é o desejo de todos nós, do Mártir Francisca


FIM