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13 agosto 2012

Resenha (CD's): Neto Santana 50 Anos (EP) (2009)


Artista: Neto Santana
Álbum: Neto Santana 50 anos (EP)
Gravadora: Independente
Ano: 2009

Neto Santana é daqueles amigos que, de tão amigo, já se tornou mais que um irmão. Sua casa, para mim, é basicamente um segundo ninho, o segundo lugar neste planeta onde eu me sinto mais à vontade. Eu e a família Santana atingimos um ponto na relação que se tornou quase que um parentesco sem linhagem de sangue. Uma adoção praticamente.

Neto é um dos muitos caras que acordam pela manhã, põe um terno e vai para o escritório, em um prédio empresarial imponente em Fortaleza. Passa o dia lidando com números, cálculos e relacionamentos impessoais.

Pouca gente sabe que aquele engravatado é um compositor de mão cheia. Um verdadeiro apaixonado por bons vinhos, boa música e cujo violão tornou-se quase uma extensão do seu corpo.

A casa dos Santana é um lugar extremamente musical. O tempo todo se conversa (e se discute) sobre música. Um dos poucos lugares que eu conheço que ainda mantém na compra de CD's e LP's um hábito normal. Viajar com essa família então, além da diversão certa, é momento de intensa degustação sonora.

Sua mulher Mirilene é a maior fã de Rubem Alves que se têm notícia e uma grande mulher. A matriarca agregadora! Suas filhas são a trindade perfeita de inspirações musicais. Daiá (jornalista, musicalmente sofisticada, voltada pra MPB de vanguarda), Giulia (Estudante de veterinária, musicalmente inclinada para as tendências sonoras em torno do reggae, rock, samba-rock e outras pérolas nacionais. Ela vai ser daquelas que vai envelhecer e ainda vai escutar Nando Reis como se fosse a primeira vez), e finalmente a caçulinha Geísa (a típica espécime geração Y, uma esponjinha de tudo aquilo que aparece, a qual eu sempre vou ser orgulhoso por a ter apresentado ao som do Jack White!).

O clã Santana

Daiá, Giu, Netão, Miri e Gegê


E o grande maestro e mestre de cerimônia de tudo isso é o Neto Santana.

Voltando para o engravatado profissional de Factoring; enquanto muitos executivos chegam em casa cansado, vai ao bar e prepara uma boa dose de Whisky para aliviar-se da tensão; Neto Santana por sua vez tira a gravata, arregaça as mangas e pega o violão. O cara tem um repertório que abrange quase tudo, da mais sofisticada MPB, ao brega, ao rock nacional, à jovem guarda e, além disso, com uma formação batista tradicional, tem um repertório invejável na área da música cristã, passando por Vencedores por Cristo, Rebanhão, João Alexandre e muitos outros. Mas quem o conhece sabe que seu xodó mesmo é a música regional nordestina!

O cara é filho do interior de Pernambuco, de origem humilde, sabe como ninguém compor sobre os elementos do sertão, da caatinga, da aridez, do triste estado do homem que vive sob o sol rachante e a frieza do abandono do Estado.

Seu habitat natural são os elementos regionais. Que claramente influencia sua música. O baião, o xote, o forró são ingredientes elementares de suas músicas.

Casa onde Neto foi criado no sertão pernambucano

E, ao completar 50 anos, resolveu presentear os mais chegados com um EP que continha pelo menos sete de suas canções. E é sobre este disco que vou falar hoje.

Gravado no Sítio Trapiá (município de Assú - Rio Grande do Norte), lugar este de grande inspiração para Neto, teve na produção a ajuda de um gringo, Jason Jay, um europeu do País de Gales que estava passando uma temporada na Igreja batista de Trapiá, para conhecer o trabalho dos missionários ingleses Mike e Davina Wilson, que há mais de 20 anos trabalham com esta comunidade.

Por acaso esse gringo era produtor musical e tinha lá um equipamento portátil de considerável qualidade. Estava lá para produzir um disco com as canções criadas pela própria comunidade de Trapiá. E Neto aproveitou para finalmente gravar alguma de suas músicas.

"Meu pé de serra" abre o disco, que é praticamente uma narrativa do êxodo rural, do homem sertão que troca a mata pela selva de pedra, e uma vez na cidade grande trabalha incansavelmente na esperança de um dia voltar para o seio de sua terra.

"Quem sai de sua terra
Tem a saudade, faz os olhos marejar"

"Quem diria" é uma declaração de amor à Trapiá. Esta canção foi regravada pelo tradicional grupo cristão Sal da Terra, que há muito tempo faz um excelente trabalho com canções regionais pelo sertão, levando o evangelho através do bom e velho pé-de-serra.

"Flor do evangelho" e "Vida de sertanejo", tem na primeira a vida do sertanejo "comedor de macambira", que tem na palavra de Deus a esperança de seu crescimento, quem sabe até chegar um dia a ser "doutô". A segunda descreve o dia-a-dia de um boiadeiro, que "acorda bem cedo, pega a enxada e vai trabalhá", nossa, você fecha os olhos e imagina uma casinha de taipa, no pé de uma serra, com um céu azul, sem sinal de nuvem, e um homem surrado pelo sol indo cuidar das terras e dos animais. Mesmo com a seca, espera em Deus a bondade da "graça" da chuva. Uma linda poesia que começa com um solo de Neto apenas com a voz, que lembra um vaqueiro tangendo os bois.

"Identidade cristã" e "Viver para amar" já tem seu toque teológico. Uma inspirada na parábola do Bom Samaritano, mostrando que, "formalidade religiosa" não identifica o cristão, mas tão somente o amor. A segunda, provavelmente inspirada nas cartas de João (o apóstolo do amor) e é um verdadeiro complemento de "Identidade Cristã".

"Quem diz amar a Deus
E rejeita o irmão
Ainda não conheceu
Da vida a razão"

E é a mais pura verdade!

Neto é daqueles que, não sei se por comodismo ou talvez por não ter tanta segurança na consistência de suas próprias criações, é daqueles caras super talentosos que, sendo artistas por natureza, se tornam burocratas por amor á família. Um cara que consegue ser a personificação do maluco beleza, controlando a maluquez, misturado com a lucidez. Sabendo usar estas duas naturezas em momentos apropriados.

Neto Santana com sua bebida predileta: o sangue de Cristo!
De preferência seco e branco... 

Sua música é sincera, brota de sua alma. De seus sonhos, de suas utopias e ideais. De um universo sertanejo em que talvez habite sua saudade. Um homem do sertão vivendo na selva de pedra.

Ele não têm Myspace, nem colocou suas músicas no youtube. Quando é para cantar suas canções em meio a estranhos, à princípio mostra-se encabulado, quase constrangido, porém quando termina de cantar o povo sempre celebra sua obra, e o mesmo ri orgulhoso.

Uma pena que suas canções e melodias sejam restritos apenas aos seus, aos íntimos. Neto Santana não aparenta ter grandes ambições musicais, porém é um homem que como poucos, pode encher o peito e dizer aos quatro ventos que o Salmo 128 é uma realidade em sua vida! O que, no final das contas, é algo muito mais importante do que ser "importante" e "conhecido".

Esse é o Neto Santana: um músico, um poeta, um pai de família, um amigo, um irmão, e intimamente até confesso que, por vezes, um pai que nunca tive.

Enfim, como eu sou um teimoso por natureza, e como não quero ter a responsabilidade de ser um daqueles que mantém um tesouro escondido, vou compartilhar com você, ó desocupado leitor, minha canção predileta de Neto Santana. E você, assim como eu, vai fazer parte dos poucos privilegiados que tiveram acesso à suas músicas!

A PREDILETA:

Não sei se a levadinha folk, com direito à gaita de "Está chovendo no sertão" foi ideia do Neto ou do Jason, porém esta sem dúvida é minha predileta. Se eu fosse produtor musical certamente ia escolher essa como música de trabalho. Está tudo aqui: passarinhos cantando uma canção divina, o bizouro voando ao redor da lamparina, e a alegria do homem do campo quando a chuva chega. Nossa! Essa música tem elementos que me arrebatam para a minha infância, na fazenda da minha avó, no município de Itatira, aqui no Ceará.

Enfim, uma bela obra, uma musica cheia de vida, que traz em si a fertilidade e felicidade de poder alcançar uma grande espera. A chuva após a seca, a luz após a escuridão, o colheita cheia de alegria daqueles que plantaram chorando.

Esperança!

Esperança de poder um dia matar a minha saudade do cheiro da terra molhada...

Veja no vídeo abaixo a música "Está chovendo no sertão", de Neto Santana:

2 comentários:

kalyna ramos disse...

E realment um privilegio inenarravel conhecer essa familia que conheco desde minha infancia e sempre com o mesmo carinho, a mesma gentilezade quem realmente e e vive assim. Com muito carinho em minhas palavras aqui. kalyna Ramos

Waldemir Baracho disse...

Magnífico!!!!!# é um prazer ser amigo de toda família Santana.
George, belíssimo trabalho.