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09 janeiro 2013

Resenha (CD's): Janis Joplin - "Pearl" (1971)


Artista: Janis Joplin
Álbum: Pearl
Ano: 1971
Gravadora: Columbia

Sou um sentimental incorrigível. Sempre sofri muito por conta da síndrome do coração partido. Seja por um amor não correspondido, ou pelo amor correspondido por um tempo até chegar no fim do relacionamento.

Várias são as formas de você conseguir sobreviver a tão temida fossa, esse momento insuportável que se dá entre o momento que você leva um pé na bunda, até alguns dias, meses ou anos que você do nada acorda, se olha no espelho e simplesmente se sente bem e desencanado. O tempo depende de pessoa pra pessoa. E cada um tem sua fórmula para aguentar esse momento. Uns caem na gandaia e tentam esquecer se entupindo de entretenimento e vida agitada. E outros são aqueles que, de fato, encaram a tristeza de frente, olha nos olhos dela e fala: senta aqui comigo e vamos tomar umas!

Eu sou do segundo grupo!

E ao que parece, Janis Joplin também...

Ela é a trilha perfeita para momentos assim! Sabe quando você pensa que já chegou ao fundo do poço, aí você toma umas cervejas e bota Janis Joplin pra tocar e percebe que ainda tem que cavar ainda mais fundo? O que torna Joplin única, pois ela consegue, de fato, expressar todo aquele grito e angústia que você sente em seu interior.

Reza a lenda que em uma entrevista ela foi indagada de qual o segredo dela ser a cantora de blues mais famosa do mundo. No que ela deu sua gargalhada rouca característica e respondeu: Ter um coração partido!

Agora não se preocupe, o som dela não é só pra quem tá na fossa não. Apenas quis dizer que, se você estiver fragilizado, o som dela vai potencializar isso. Porém, se você estiver numa fase feliz (como eu estou hoje, recém casado e radiante feito um piquenique num dia de sol no parque) ela ainda vai ser uma excelente companhia.

E esse álbum, o Pearl, eu e a torcida do flamengo consideram certamente o melhor trabalho dela.

Este maravilhoso disco foi lançado em fevereiro de 1971, infelizmente, quatro meses depois da cantora morrer prematuramente, vítima de overdose de heroína (no caso, por acidente, o traficante vendeu heroína com 45% de pureza, o que o torna letal). Janis estava em um momento feliz. Finalmente, depois da saída da sua antiga banda The Big Brother And The Holding Company e tentar inutilmente montar uma série de bandas de apoio (todas um fracasso), ela encontrou uma que fosse a altura do seu potencial artístico, a excelente Full Tilt Boogie Band.

Depois de muitas apresentações onde ela pôde desenvolver muitas das músicas que fariam parte de Pearl, ela e a banda finalmente se sentiram confiantes para entrar em estúdio e gravar. A Columbia recrutou Paul Rothschild (o mesmo do The Doors) para produzir o disco. E, ao contrário dos trabalhos anteriores ser de uma levada mais rock, nesse caso, além do rock temos soul, cheio de intervenções de metais e tudo o mais. Janis estava feliz, noiva, e musicalmente satisfeita com o andamento do disco. Quando ela morreu, pelo menos 85% do disco já estava finalizado.

O disco começa com a poderosa "Move Over", musica da Janis, com uma levada que não fica abaixo de qualquer hard rock feiro àquela época. Uma linha melódica unindo o som da guitarra e a voz de Janis. Muito boa!

Em seguida vem "Cry Baby" que é arrasadora! Nossa, chorei muito por causa de mulher ouvindo essa aí viu! "A Woman Left Lonely" começa baixinho e vai crescendo, tendo um final apoteótico.

"Half Moon" é cheia de swing, e a instrumental "Buried Alive In The Blue" (Janis morreu antes de colocar letra e voz nessa música, mas ela era tão fantástica que entrou no disco) é o poder sonoro que a banda dela tinha em toda sua fúria.

"My Baby", "Trust Me" e "Get It While You Can" tem basicamente o mesmo espírito, tanto em melodia quanto letra. São baladinhas que podem ser ouvidas uma atrás da outra, e você nem sente que a música mudou. Lindas de morrer! De preferência com os pulsos cortados!

"Me And Bobby McGee" foi o grande sucesso do disco àquela época. Uma linda história de um casal de viajantes, bem naquele espírito de atravessar o país para migrar para São Francisco. Linda e comovente! Que faz você sentir uma certa nostalgia de algo que não viveu.

E finalmente "Mercedez Benz". Ela é especial por vários motivos. Uma é que foi o último registro de Janis (ela gravou em 1° de outubro, na quinta, e morreu em 4 de outubro de 1970, um domingo). Segundo porque, certamente, essa deve ser a canção mais conhecida dela. E terceiro é que sua música de maior sucesso foi feita apenas com voz e um batuque que poderia muito bem ter sido feita com uma mão na mesa. E por mais estranho que seja, a última canção gravada por Janis é uma oração. Mesmo sendo uma oração bem materialista, não deixa de ser emblemática.

 Oh Lord! Prove that you love me and buy the next round!

Pérola (Pearl) era o apelido de Janis, e que merecidamente tornou-se o nome do álbum. Nada mais justo para alguém que, em sua música, exibia toda a intimidade de seu coração. Se entregava como ninguém no palco! Na capa do disco sua imagem mais comum: alegre, cheia de cores, com um sorrizão no rosto junta com seus inseparáveis companheiros: um cigarro e um copo de bebida.

27 anos cara! Como morreu nova! O que me deixa mais comovido na morte dela é a potencialidade que a obra póstuma poderia se tornar. Penso nos discos que ela deixou de gravar. Como teria sido a carreira dela? Teria caído no ostracismo? Teria se tornado mais soul ainda? Teria aderido a era disco? Nunca saberemos...

A pérola branca do blues remodelou totalmente os conceitos do papel da mulher no rock. Influenciou uma geração de músicos. E fez chorar uma grande massa de anônimos (dentre os quais esse que voz escreve). A garota que foi eleita a mulher mais feia da faculdade está hoje eternizada entre as mais espetaculares que já pisaram nesta terra!

A PREDILETA:

Nossa, que canção poderosa! "Cry baby" é de fazer o Chuck Norris, ou qualquer outro metido a durão, se encolher na cama em posição fetal e chorar baixinho chupando o dedo. Sabe aquele cara que deixa uma mulher amorosa e dedicada e dá um pé na bunda dela para ficar com outra. Aí a outra o deixa e ele pensa: Puta que pariu 1000 vezes! O que foi que eu fiz? 

E como um filho pródigo voltando para a casa do pai, ele volta com o rabo entre as pernas, chorando feito um bezerro desmamado, pedindo outra chance.

Quase todas as músicas de Pearl tem essa temática: O homem que deixa, o sujeito que trai, o cara que pede pra voltar, o outro que não liga mais. Os homens e suas complicações e volubilidades. E as mulheres (pelo menos algumas delas) com essa incorrigível postura de um amor que beira o maternal (daqueles bem incondicionais) esperando ansiosa por uma ligação.

Como essa nova geração de mulheres encarariam Janis Joplin? As mais feministas talvez a ache uma fraca submissa que coloca o coração acima da razão. Talvez! Ela não foi a primeira e nem vai ser a última que produziu uma obra de arte tendo como inspiração um coração destroçado por um filho da puta. Não à toa a Adele tá bombando aí no mundo!

Ouça no vídeo abaixo a música "Cry Baby":

3 comentários:

Patrícia Moura disse...

Uma aula sobre Janis, um post gostoso de ler, bem sucinto e rico em informações, desde as fofocas até as técnicas. E descreve muito bem o seu ponto de vista, o modo como você a sente. Mais uma vez, adorei!

Groucho KCarão disse...

Ótimo post, mais uma vez! Janis Joplin não é minha praia, mas ouvi muito durante a adolescência, era fanático por algumas músicas. Minha favorita desse disco, apesar de eu amar as baladas chorosas, é "Half Moon", que infelizmente vc só passou por cima nos comentários, hehe. Minha favorita da carreira da Janis - que nem conheço assim tãão bem - é provavelmente "Kozmic Blues", mas "Half Moon" chega quase lá. Das baladas de Pearl a que mais tem me agradado é "My Baby", provavelmente pq já ouvi "Cry Baby" e "Get It While You Can" até dizer chega no passado. Parabéns pelo post e felicidades no casamento. Nada de ir atrás de otra pra voltar chorando, haha.

Groucho KCarão disse...

Ah, sim, já pus o Pearl aqui na agulha do WMP, em sua homenagem.